domingo, novembro 05, 2006

Será uma questão de DNA?

Quando morre um velho é como uma biblioteca que queima


Esta é uma crônica na qual mais uma vez dou azo ao meu lado intimista. Ela se faz em uma celebração que divido com cada uma e cada um dos meus leitores do Caderno R. Aliás, já disse que talvez exagere – e ninguém me contestou – que avalio esse universo de leitores em meia dúzia.
Primeiro a decodificação da sigla do título. Mesmo que tenha falado em decodificar, não estou às voltas com código genético ou com o ácido desoxiribonuclêico e também não vou falar – já que há poucas semanas vivemos o período do anúncio dos laureados com o Nobel de 2006 – nas injustiças que houve em não ter sido atribuído o Prêmio Nobel pela descoberta da estrutura da dupla hélice do DNA a Rosalind Franklin, que foi decisiva na descoberta em 1953, que 9 anos de depois (1962) premiou Francis Crick, James Watson e Maurice H.F. Wilkins.
Aliás, lateralmente devo dizer que minha tese de que a Ciência é masculina exposta em um livro
[1] foi uma vez mais ratificada nas láureas com Nobel em 2006. Esse ano não apenas a Ciência apareceu como masculina. Os prêmios de Ciências – Física, Medicina e Química – foram respectivamente para dois, dois e um estadunidenses. A esses cinco homens junte-se: um estadunidense que ganhou o Nobel de Economia; um turco, o de Literatura; e um indiano, o da Paz e temos, em 2006, nove homens laureados e nenhuma mulher. Já houve agora 515 láureas nos três Prêmios Nobel de Ciências, mantendo-se as mulheres com doze (duas em Física, três em Química e sete em Medicina ou Fisiologia). Destas doze mulheres laureadas, apenas duas ganharam o prêmio sozinhas: em 1911 Maria Curie ganhou o de Química (que já havia ganho junto com Pierre Curie e Henri Becquerel, em 1903 o de Física) e em 1983, a geneticista estadunidense Barbara McClintock foi laureada com o de Medicina.
Permitam-me, ainda antes de decodificar o DNA do título desta crônica, fazer um preito de admiração e reconhecimento à Rosalind Elsie Franklin (1920-1958). Ela é chamada a dama sombria do DNA. Rosalind morreu aos 37 anos, de câncer de ovário, 4 anos antes de em 1962, ser outorgado o Prêmio Nobel de Medicina ao britânico, Francis Harry C. Crick, ao estadunidense James D. Watson e ao neozelandês, Maurice H.F. Wilkins. Há os que afirmam que foi injustamente esquecida, não apenas na premiação como nas usuais referências à descoberta do DNA. Rosalind Franklin, uma pesquisadora britânica, contribuiu significativamente para a elucidação da estrutura do DNA, pois foi com a fotografia que ela obtivera com raios X, que permitiu que Watson e Crick tivessem o lampejo para desvendar a dupla hélice. A imagem foi mostrada a eles por Wilkins, sem o consentimento de Rosalind. Usualmente os dois nomes que são lembrados, quando se refere à determinação da estrutura do DNA são os de Crick e Watson. Wilkins era, como Rosalind, especialista em cristalografia por raios X. Watson em matérias publicadas em 2003, quando do cinqüentenário da do DNA é apresentado também por seu conhecido machismo e por sua verve polêmica pouco correta politicamente o que nos leva a inferir o quanto, então, não poupasse esforços para tirar uma mulher do cenário dos vencedores. É importante que refira aqui, que nunca houve, pois isso é das normas, uma outorga póstuma.
Finalmente o que é o DNA do título deste texto? Perdoem a brincadeira. DNA é Data de Nascimento Avançada. Ou seja, dizer que alguém tem DNA, nessa acepção, é chamar alguém de velho ou se quiserem um adjetivo mais eufônico: anoso. Pois o meu DNA é 06/11/1939, isto é, posto este texto no dia do meu 67º aniversário.
Minha Universidade tem uma resolução que refuto não apenas discriminatória, mas acima de tudo burra - aqui a palavra não corresponde a nenhuma das 17 acepções registradas no Houaiss para burra, mas a forma feminina de duas das 40 acepções que o dicionário registra para burro: o que é ignorante (35) ou que é teimoso; obstinado (36) -, pois se definiu como 65 anos a idade limite para ser professor da instituição. Assim, 65 anos é a idade limite para jubilamento, ou expulsória em analogia à compulsória.
Por quê imputar tão dura adjetivação a uma resolução reitoral? Há argumentos, ou melhor, evidências que corroboram minha assertiva. Há não muito, ouvi uma entrevista de Zigmunt Bauman. Dava-me conta, ante a lucidez octogenária do filósofo polonês, atualmente professor em universidades em Leeds e em Varsóvia, que ele não poderia ser professor da UNISINOS. Também Ilya Prigogine (1917-2003), Prêmio Nobel de Química 1977, quando faleceu aos 86 anos era professor em duas universidades (uma belga e outra estadunidense). Exemplos como este se poderiam amealhar as dezenas, alguns dos quais na própria Universidade, e neste se incluiria preclaros jesuítas pertencentes à mantenedora. Eu mesmo me considero distinguido, pois recebi, ao chegar à idade de uma presumida morte acadêmica, uma sobrevida de mais três anos.
Ainda na defesa de minha adjetivação virulenta, trago o depoimento da cientista política germano-estadunidense Hanna Arendt
[2], falecida em 1975 e cujo centenário de nascimento se recordou a 14 de outubro, em um texto que escreveu para celebrar Martin Heidegger[3], que junto com seus 80 anos celebrava também o cinqüentenário de sua atividade pública como professor; ela começa citando Platão: “Pois o começo é também um deus que, enquanto permanece entre os homens, tudo salva”, para então trazer o depoimento quase dramático de Karl Jasper[4]: “E agora, que desejaria pela primeira vez realmente começar, é preciso partir” e então a distinguida filósofa acrescenta:
O eu pensante não tem idade, e, na medida em que os pensadores não existem efetivamente senão no pensar, sua felicidade e infelicidade é o se tornarem velhos sem envelhecer. Com a paixão do pensar ocorre o mesmo que acontece com as outras paixões: o que habitualmente conhecemos como particularidade própria da pessoa, cuja totalidade ordenada pela vontade produz então algo como um caráter, não resiste ao assalto da paixão que toma e, de certa forma, se poderá do homem e da pessoa ( p. 226).
Mas deixo de lado minha indignação contra a decisão que me fere também. Reconheço, todavia o quanto esse plus 3 anos com que fui premiado foi significativo, mesmo que me fizesse sentir um privilegiado em relação a outros colegas, o que não apenas me causa desconforto, mas uma justa ira. Minha data limite é fevereiro de 2008, sendo assim o próximo ano é meu ultimo ano letivo na UNISINOS. Não sou melhor do que aqueles que não tiveram o plus 3 anos. E por que outros têm até um plus maior do que três?
Aceito o meu DNA. Mas quero mostrar nesse texto que tê-lo maior que 65 não me parece o melhor critério para alijar alguém do seu emprego. Ser uma pessoa (im)produtiva não depende do DNA. Mesmo que talvez o físico conspire contra nós, até quando nem o espelho parece reconhecer isso. A situação se mostra mais ameaçadora quando vemos fotos de agora e as comparamos com aquelas de 10 anos passados.
Eis um desmentido a minha percepção de não me julgar anoso, mesmo que outros o façam. Nos dias que pensava sobre esse texto, ao tomar o elevador, na Universidade, uma moça, que entrou junto comigo perguntou pelo meu andar e ante minha menção o marcou no painel. Agradeci sua gentileza. A trintinha me disse toda gabola: “O meu trabalho de mestrado é sobre ajuda ao idoso!”. Fiquei estupefato. E perguntei o porquê dessa observação? Ela então, do jeito mais sem graça possível, desculpou-se. Sem graça fiquei mesmo eu, com a observação me martelando. Machucou-me, sinceramente, sim. Ela talvez nem se lembre mais.
Ter DNA não é muito trivial em nossa sociedade. Em outras culturas isso é uma distinção. A propósito lembro de uma historieta, que me foi contada pelo meu colega Nélio Bizzo, quando me levava para o aeroporto, após participar de uma banca de um orientado dele na USP e atribuída a uma cultura africana. Em barco que soçobra está um jovem pai, com seu filho de cinco anos e seu pai, já de idade avançada. Ele tem condição de a nado salvar apenas um: ou o filho ou o pai. Trágica opção. Imaginemos, um de nós frente essa escolha. Para aquele jovem pai não havia indecisão. Era natural para ele e para todo a comunidade que ele salvasse o seu pai, pois era ele que detinha o conhecimento que poderia ser útil à vida de todos e esse não poderia ser perdido. Essa decisão tem a ver com a frase que fiz capitular desse texto. Tenho usado a mesma como justificativa a uma atividade acadêmica de resgates de saberes populares. E, então é muito impressionante o quanto os jovens se seduzem com a sabedoria dos mais velhos.
Lembro sempre de uma passagem muito conhecida de José Hernandez no Martim Fierro, o épico gauchesco, onde o velho Vizcacha, ladino como animal que lhe empresta o nome, que ao dar conselhos ao filho de Fierro diz algo que sempre cito, para justificar porque me arvoro no direito de dizer certas coisas. "El primer cuidao del hombre es defender el pellejo; lleváte de mi consejo, fijáte bien en lo que hablo: el diablo sabe por diablo, pero más sabe por viejo."
[5],[6] ou, simplesmente: “O diabo tem mais de diabo por ser velho do que por ser diabo.” Chamamos isso de a voz da experiência. São sabidas nossas dificuldades em consultar um médico ou advogado mais jovem. Todavia, poucos aceitariam que uma pessoa, já mais anosa, viesse, por exemplo, viesse solucionar problemas em nosso computador. Somos exigentes, usando parâmetros nem sempre muito consistentes. No começo desse ano, minha mulher e eu fomos recebidos em uma cantina, na linda região do vale dos vinhedos do Rio Grande do Sul, por uma menina de 12 anos, que nos deu verdadeiras aulas acerca de diferentes varietais, seu cultivo e como se cuida da qualidade, ao invés da quantidade de frutos. Explicou-nos das etapas do plantio e seleção das espécies que serviriam de cavalo e daquelas que seriam enxertos. Falou os tipos de enxertia e discorreu acerca das armações para sustentação, mostrando porque do uso vertical e horizontal. Sabia identificar características do solo por análise macroscópica da terra. Isso poderia ser algo heterodoxo, quando ali estavam aprendendo dois pós-doutores com uma coloninha que está na sexta série do ensino fundamental.
Mas o que é ter DNA? Não quero ver em minha defesa, na análise de minha situação pessoal. Hoje sou mais produtivo que quando tinha 50 anos e muito mais do que aos 30 anos. Certamente tenho menos força física hoje – não confundir com resistência – mas a Universidade não me contrata para carregar livros, mas talvez para produzi-los e isso, depois que completei sessenta anos, fiz e faço mais que antes, até porque agora durmo bem menos e especialmente porque tenho muito mais experiência acumulada. Não vou descrever aqui minha produção, mas a tenho como muito significativa. Só para dar um exemplo, nesse mês de meu aniversário – além de minha rotina de professor na Graduação e pós Graduação na UNISINOS, onde oriento três mestrandos e três doutorandos – tenho sete falas em cinco Universidades diferentes e em mais duas cidades de Santa Catarina.
Poderia referir que nesse ano de 2006 entreguei a uma editora o livro Uma brecha entre o passado e o futuro, mantenho esta coluna semanal aqui no Caderno R, escrevo resenhas no £eia £ivro, respondo a consulta de professoras e professores no sítio amaivos.com.br, atualizo diariamente meu blog e brinco de adolescer no orkut onde colegas da Bahia fundaram uma comunidade ligada a meu trabalho com História da Ciência. Ah! penso que sou também esposo, pai e avô que não possa ser considerado omisso. Assim nessa adição de mais um ano em minha idade, devo dizer que salvo alguns preconceitos, 67 anos ainda não me pesam. E é muito bom celebrá-los com as leitoras e os leitores do Caderno R.
[1] CHASSOT, Attico A Ciência é masculina? E, sim senhora! São Leopoldo: Editora UNISINOS. (2ª.ed 2006) 2003]
[2] ARENDT, Hanna. Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. ISBN 85-7110-873-0
[3] HEIDEGER, Martin (1889-1976) um alemão que foi um dos mais importantes filósofos do século 20. O envolvimento com o nazismo, ainda que possa ser considerado superficial fez com que após a ocupação da Alemanha em 1945 pelos Aliados fosse afastado da Universidade. Autorizado a retornar, voltou a lecionar em 1952.
[4] JASPER, Karl (1883-1969) filósofo alemão cuja obra se inspira em Kierkegaard (Sören Aabye Kierkegaard {1813-1955} dinamarquês precursor do existencialismo contemporâneo) chega a filosofia através da psiquiatria, já em 1913 em sua primeira obra Psicopatologia geral, estuda as perturbações da relação do homem com o mundo.
[5] O primeiro cuidado do homem é defender a pele; usa de meu conselho. Presta bem atenção no que falo: o diabo sabe por diabo, porém mais sabe por velho.
[6] HERNÁNDEZ, José. Martín Fierro. Buenos Aires: El Ateneo, 1999, p.181

4 Comentários:

  • Parabenizo-o, novamente, pela data e reafirmo o "convite" feito semana passada: se a Unisinos não aproveita o potencial de seus professores, quem sabe a Unicamp não o faça melhor?
    Seria muito bom ter um professor de História da Ciência lá!
    É isso, hehe, abraços e felicidades!

    Por Anonymous Carol, às 7:56 PM  

  • Carol,
    muito obrigado por te ter como leitora aqui e, mais ainda, pelo carinho de tua manifestação.
    Com admiração,
    attico chassot

    Por Blogger achassot, às 12:58 AM  

  • Caro Chassot, admiro como brincas brilhantemente com as palavras, como elas nos envolvem e vão nos seduzindo! Considerando, é uma lástima que uma Instituição Superior ( e não a culpemos somente, mas lembremos de como a nossa sociedade ocidental vem produzindo "seres de estimação", como lembra Bauman, ou seja seres descartáveis)dispense profissionais que estão no auge de suas produções intelectuais e só para lembrar e contribuir com os nomes já citados na crônica, lembro de Alain Touraine, que de cima de seus 80, continua produzindo e trabalhando como docente. Tu, com certeza deixarás saudades....

    Por Blogger Aline R, às 3:22 PM  

  • Parabéns, Professor Chassot!!!!
    Pelos textos divinos compartilhados através da “Coluna R”, pelos conhecimentos “im” e/ou “ex” -plícitos tão presentes na bibliografia “Chassotsiana”, pelas inúmeras dicas bibliográficas realçadas pelo site “Leia Livro”, pela atenção e dedicação exclusiva para com teus leitores... Mais do que isso, Professor, PARABÉNS pelo seu DNA (confesso aqui, que o tempo – a falta dele – e alguns problemas tecnológicos – dois dias (sobre)vivendo a uma “quase” nova morte virtual – foram empecilhos reais de meu silêncio virtual nos últimos dias)... FELICIDADE PLENA é o meu maior desejo... Um forte abra@o, Adriana.

    Por Anonymous Adriana Magedanz, às 5:46 PM  

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