segunda-feira, outubro 02, 2006

Sou americano, mas não estadunidense

Professoras e professores, de uma maneira muito freqüente, questionam as invasões curriculares em suas salas de aula. Sabe-se o quantocurrículos, que podem ser classificados como ilegais, que entram em salas de aula. Estas invasões são determinadas, especialmente, por poderosas redes de comunicação. Não é sem razões que alguns jornalistas se denominam de formadores de opinião. Ou melhor, engaioladores de opinião.

aqueles que devem lembrar de como fomos formatados para celebrar os 500 anos do ‘descobrimento’ do Brasil por um dos impérios televisivos ou mais recentemente como deveríamos torcer pelo postergado hexa-campeonato de futebol. Também não se desconhece o quantofalares que nos são impostos por diferentes mecanismos de dominação. se escreveu sobre a inadequação do uso de palavras como denegrir, judiar, nortear ou expressões como programa de índio, serviço de negro e algumas outras, que trazem marcas de um ferreteamento contra grupos dominados. Mas não obstante vemos o uso destas expressões, de maneira continuadas, mesmo em falas de pessoas ditas cultas. Antecipo que não venho na defesa do ‘politicamente corretomesmo que nos meus textos, e em minhas aulas refira-me a professoras e professores ou a alunas e alunos e até diga que ‘há esperanças que devamos sulear a escolha adequada de nossas falas’.

Desejo comentar, nesse meu encontro semanal aqui no Caderno Rvivas! Este é o oitavo –, um outro vocábulo que acredito mereça um registro muito especial, até porque é algo que dá a dimensão de apossamentos – ou melhor, de uma usurpação – da cultura dominante e está intensamente co-relacionado com intervenções curriculares que nos são impostas. Assesto meus óculos no uso (pre)dominante, mas equivocado do gentílico americano usualmente referido como exclusivo a estadunidense.

Antes devo me escusar às leitoras e aos leitores, que mesmo trazendo alguns dados amarelecidos por três anos de uma escrita anterior, quando com outro libelo fazia a mesma crítica. Assim, não queria que, agora, esse texto fosse sorvido como um simples café requentado. Ele quer ser mais que isso. Parece válido assinalar, todavia, o quanto se possa ver que os exemplos de então continuam com palpitante atualidade. Aliás, como será que a amarelecem a maioria de nossos textos, que muito poucos são gerados em suporte papel, nesta nova realidade de escrita pós-moderna?

A imprensa brasileira e mesmo de outros países latinos emprega o vocábulo (tanto substantivo como adjetivo) americano, para indicar nascido nos Estados Unidos, ou algo desse país. Por doutrinação (ou assimilação) este uso ocorre mesmo entre a maioria dos falantes, mesmo aqueles que são críticos, logo atentos com suas falas, mesmo que qualquer bom dicionário da língua portuguesa registre estadunidense. O Aurélio define corretamente, mas remete a norte-americano (que diz ser nascido nos Estados Unidos, excluindo aqui os mexicanos há muito vítimas de espoliações maiores por seus vizinhos, dos quais são separados uma por uma cerca eletrificada – e os canadenses). O Houaiss mesmo que dicionarize corretamente estadunidense, coloca como sinônimo de americano ou norte-americanoeste dicionário que me lembra que os esquimós da Groenlândia e do Canadá são norte-americanos e eu acrescento que aqueles do Alasca – o maior e menos densamente povoado dos 50 estados –, também são americanos, ou mais precisamente norte-americanos, e também são estadunidenses, desde a boa compra do Alasca feita da Rússia, em 1867, por cerca de cinco centavos de dólar por hectare.).

Assim, há também um outro erro no referir-se aos estadunidenses como norte-americanos, ignorando que também canadenses e mexicanos são norte-americanos. Isso seria ‘natural’, se redigíssemos em inglês, pois sabemos que em língua inglesa não existe outro gentílico que americans para referir aos nascidos nos Estados Unidos. Há, para a mesma designação, a abreviatura amer e também a palavra yankee, aportuguesada como ianque.

Assim quando falamos em sentimentos anti-mericanos, nós latino-americanos, por exemplo, também estamos, a rigor, nos incluindo nesses sentimentos. Vez ou outra, nos vemos envolvidos em campanhas do tipo faça seus amigos e parentes adotarem uma atitude de consumo consciente, evitando sob qualquer circunstância, o consumo de marcas americanas. Coma no boteco da esquina, mas não vá a qualquer Mc Donalds. Nada de tênis Nike. Nada de gasolina Texaco. Fechem suas contas no Bank Boston e no Citibank. Cortem tudo, tudo, absolutamente tudo, que possa alimentar o American Way of Life, hoje muito mais American Way of War and Death. Rigorosamente, quando recebo mensagem como essa, sou convidado a abandonar, também, qualquer marca brasileira (pois elas são americanas)... Ainda assim sabemos o quanto é impossível boicotar marcas estadunidenses - veja-se a dependência que tenho nos softwares e mesmo nos hardwares do computador onde escrevo este texto.

Muito provavelmente, todos os leitores deste texto sejam americanos, mas nenhum estadunidense. Lateralmente vale dizer que em espanhol há o gentílico estadounidense (mas, os jornais espanhóis usam amiúde, americano e norte-americano; e, para distinguir: sudamericano). Em italiano, statunitense (ou nordamericano). Em francês, o mais corrente é américain; mesmo estando dicionarizado: étatsunien e étatsunisien, sendo que estes dois gentílicos não são quase usados. Em alemão: o mais usado é Amerikaner, Nordamerikaner (Südamerikaner, para fazer a distinção), todavia no idioma de Goethe há a forma US-Amerikaner para melhor caracterizar os nascidos nos EUA.

O uso do gentílico americano por estadunidense parece a tradução da prepotência desta nação, fazendo do gentílico continental algo de sua posse. É quase natural o desconhecimento na imprensa e pelo comum das pessoas do gentílico estadunidense. Afortunadamente eles não se apoderaram, ainda, do gentílico que nos é tão caro: latino-americano. Aliás, na xenofobia estadunidense, cada vez mais se dificulta a entrada de latino americanos no Estados Unidos.

Também esta é uma apropriação dos Estados Unidos é indébita. Sonhadoramente desejo que se deixe de usar americano e norte-americano como gentílico identificador de apenas um dos países do continente. Aliás, na África há outro país, que como os Estados Unidos da América se apropria do nome do continente. Os habitantes da minúscula Suazilândia não são também sul-africanos? E não é a mesma a situação dos nascidos em Lesoto, que estão encravados na África do Sul? Este país é usurpador não apenas do gentílico, mas faz do nome de uma região do continente algo exclusivo para denominar o seu país.

um tempoquando escrevia acerca do ensino de Ciências na segunda metade do século da tecnologia – precisei pesquisar em jornais noticiários de 1957, para saber da repercussão do lançamento do Sputnik, o primeiro satélite artificial, pela então União Soviética, e como agora, era corrente na imprensa o uso indevido do gentílico americano, parecendo exclusividade de cidadãos estadunidenses.

Perguntei, então, em pesquisa empírica realizada entre universitários do curso de pedagogia, na disciplina de Metodologia de Ensino de Ciências, dias após o desastre com o Colúmbia, em 02/02/03, qual a nacionalidade dos astronautas que morreram no acidente com ônibus espacial dos Estados Unidos. Nenhum dos 45 estudantes de pedagogia referiu que houvesse estadunidenses entre os mortos. Fiz o mesmo levantamento com um grupo de mestrandos e doutorandos do Programa de Pós Graduação em Educação da UNISINOS e quando comentava com os mesmos o fato de nenhum ter referido norte-americano ou americano, foram unânimes em afirmar que isso fora resultado exclusivo de discussões que tiveram em seminários no Programa e que antes não conheciam a existência do etnônimo estadunidense.

Há continuados exemplos presentes na imprensa: O governo americano eleva o nível de alerta terrorista. Uma manchete de seis colunas, seguida de texto onde o adjetivo ou o substantivo americano/a/os/as (ao invés de estadunidense) é usado cerca de 10 vezes em um texto de cerca de ¼ de página [Folha de S.Paulo, 08/02/2003, p. A14]. O editorial Não à Guerra, de 15/02/2003, do mesmo jornal, publicado na primeira página, pela alta relevância, refere americano ora como substantivo era como adjetivo, como se fosse sinônimo de estadunidense, palavra não mencionada. Aindainformação de 100 mil paquistaneses rezam pela paz e bradam: a América é terrorista! Um jornalista estadunidense radicado no Brasil 20 anos, escreve um artigo Bronca de ser americano [Caderno Equilíbrio, Folha de S. Paulo, última capa, 20/02/03] onde se diz classificado como uma espécie híbrida americanus brasiliensis, mas em nenhum momento ele se reconhece estadunidense ou ianque.

Aqueles que julgam velhos os meus exemplo, vejam esse texto dos jornais da sexta-feira, dia 8 de setembro de 2006: “O novo chefe da rede terrorista Al Qaeda no Iraque, Abu Hamza al Muhajir, pediu que cada insurgente mate pelo menos um americano nos próximos 15 dias no país árabe, em gravação [...] transmitida pelo canal de TV Al Jazira”. Um outro: o conceituado escritor Luís Fernando Veríssimo, no Caderno de Cultura, da Zero Hora de 9 de setembro deste ano, em uma crônica acerca de sua estada em New York em 11 de setembro de 2001 fala em bandeiras americanas e na televisão americana. Os exemplos poderiam se estender ad nauseam.

Quando preparo a versão deste texto para o Caderno R, milhões de brasileiras e brasileiros vivem a tristeza da tragédia aérea ocorrida na última sexta-feira, dia 29 de setembro, com o vôo 1907. Ainda se alternam hipóteses acerca das causas da derrubada do Boeing. Quando vemos a foto do Legacy, divulgada mais de 48 horas de seu pouso em uma base aérea brasileira, custa crer que aquelespoucos arranhõesque aparecem na cauda tenham determinado tão extenso desastre, que se torna o maior de todos, em perdas humanas da aviação brasileira. Na singeleza desse texto minha homenagem aqueles e aquelas que de maneira tão fatídica viram encerrar suas vidas. Aos familiares e amigos que amargam dores, a solidariedade.

E, então, como são identificados a tripulação e os passageiros do avião, o presumível causador da morte de 155 pessoas? Americanos. Nas muitas vezes que lemos ou ouvimos falar acerca das dolorosas perdas sempre se fala da tripulação americana, dos jornalistas americanos, do avião comprado por uma empresa americana. Não são também americanos os nossos queridos 155 brasileiros vítimas de um provável desligamento de um aparelho de bordo por parte do piloto estadunidense?

Mas assumamos que somos americanos, mesmo que isso possa nos incluir na fúria dos comandados de Abu Hamza al Muhajir. Não somos estadunidenses como são aqueles governados pelo presidente que se acha o xerife do mundo e que foi chamado de demônio, em reunião das Nações Unidas, por um presidente sul-americano. Nossos vizinhos continentais são todos americanos, mas poderão ser argentinos, uruguaios, bolivianos, cubanos, barbadiano (não sei qual é etnônimo, por exemplo, de Trinidad e Tobago), brasileiros e até estadunidenses, e estes é claro, em sua fantástica maioria, não deixam os ambientes recendendo a enxofre, como referiu aquele que demonizou Bush.

No meu laborar em utopias desejaria ver os gentílicos americano e norte-americano usados por quem de direito. Sejam eles estadunidenses, e nós brasileiros, sul-americanos, latino-americanos, americanos.

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