segunda-feira, outubro 09, 2006

Ratos não gostam de queijo

Há alguns dias, eu e mais alguns milhões de internautas, falantes de diferentes línguas, vimos o que está no título desta crônica. Não sei se assunto transitou em jornal ou revista com suporte papel. Desde então, vez ou outra, o assunto me apareceu em meu imaginário. Cheguei até minutar algumas linhas em lapkopf. Um alerta: não estou me referindo a laptop! Criei, já há um tempo, a palavra lapkopf, aproveitando o substantivo alemão kopf (cabeça) por semelhança eufônica com laptop, para referir-me ao local de gestação provisória de meus textos – em geral em madrugadas insones ou quando na viagem as leituras são dificultadas pela pouca luminosidade, tão comum especialmente em ônibus – que faço em um disco não tão rígido e também com poucos recursos de salvar. Cedo vi que o assunto não daria uma crônica, e o abandonei.

Mas, desde que estou aqui no Caderno R, a cada semana preciso um assunto. Claro que minha admiração está aumentada por aqueles cronistas que têm uma coluna diária em jornais. Todavia, não sei quantos destes têm aulas a dar e trabalhos de orientandos por ler. Mas, resolvi retomar o texto acerca da demolição de um mito: os ratos gostam de queijo.

No resgate da notícia, coloquei o título desta crônica no google. Recebi 17 referências. Claro algumas repetições e também alguns resultados fora do objeto de pesquisas. Prometo, que num futuro, vou fazer um texto acerca destes nossos auxiliares de pesquisa, quando tentarei discutir os quase não-limites entre o humano / não-humano.

Encontrei três ou quatro textos que referiam (e reverenciavam) a notícia que despertara minha atenção [Ratos não gostam de queijo, é o que diz um estudo de cientistas britânicos. Os bichos preferem alimentos com alto teor de açúcar, como grãos e frutas. Ou seja. Jerry, do desenho, trocaria um pedaço de parmesão por uma fatia de melancia]. Da minha pesquisa vi também que a notícia envolveu a outros. Eis o que alguém escreveu em seu blog, ao comentar a notícias: Plutão não é planeta e ratos não gostam de queijo. Daqui a pouco alguém vai dizer que gatos adoram tomar banho e que Arnold Schwarzenegger é bom ator.

Gostaria de olhar esta prosaica notícia acerca do enfaramento dos ratos por algo que desde nossa infância aprendemos lhes seria supimpa, em duas dimensões: na primeira quero a parceria de Feyerabend e na outra quero considerar o quanto a difusão de certos mitos podem lhes dar cientificidade e então discutir a quem muitas vezes interessa a sedimentação de um mito.

Vamos olhar um pouco o nosso mundo com óculos que nos foram dados por Paul Karl Feyerabend (1924-1994) um físico austríaco de renome na área, que também era apaixonado por canto lírico e um profundo conhecedor de teatro. Talvez, dos filósofos mais citados na segunda metade do século 20. Sua obra mais famosa é Contra o Método, do qual a última [2ª] edição brasileira é de 1985, da Editora Francisco Alves, mas está esgotada. Parece haver promessas de uma terceira edição pela editora da UNESP de São Paulo. Com Paul Feyerabend aprendemos o quanto as verdades são provisórias. O que hoje é tido como certo, amanhã pode não ser.

Assim, vale ter presente que cada Ciência produz sua verdade, assim como constrói também seus critérios para a análise de sua veracidade. Porém, é bom recordar que as verdades são provisórias. O que hoje é tido como certo, amanhã pode não ser. Feyerabend já alertava em seu importante livro Contra o Método que

...dada uma regra qualquer, por ‘fundamental’ e ‘necessária’ que se afigure para a Ciência, sempre haverá circunstância em que se torna conveniente ignorá-la, como adotar regra oposta. [...] Qualquer idéia, embora antiga e absurda, é capaz de aperfeiçoar nosso conhecimento. [...] o conhecimento de hoje pode, amanhã, passar a ser visto como conto de fadas; essa é a via pelo qual o mito mais ridículo pode vir a transformar-se na mais sólida peça da Ciência (1985, p. 71).

Aceito que não seja fácil ser feyerarbediano, mas vale a pena ensaiarmos posturas que se aproximem daquelas que ele apresenta. Isso exige, muitas vezes, novos posicionamentos no nosso fazer Ciência. Também aqueles que – como eu –se envolvem no ensinar Ciência, não raro têm dificuldades de aderir a esse anarquismo epistemológico, que subverte fundamentalismos e ao invés de um método científico, sustenta as possibilidades de pluralismos metodológicos.

Talvez valesse a pena lembrar quantas ditas verdades científicas nós aprendemos e até ensinamos e depois tivemos que abandonar. Eu enquanto professor (sou professor desde 1961) ensinei muitas vezes que gases raros não formavam compostos – até por isso chamados de gases nobres – e com este pressuposto construiu-se a teoria do octeto e com ela se explicava com sucesso ligações químicas; especialmente as iônicas, se dizendo que elementos perdiam ou ganhavam elétrons formando assim cátions e ânions que se assemelhavam na configuração eletrônica, sempre com oito elétrons no último nível. Em 1962, o panorama mudou e numerosos manuais escolares (e também professoras e professores) se tornaram desatualizados. Neil Bartlett, da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, estava investigando as propriedades do hexafluoreto de platina (PtF6), um gás muito reativo. Verificou que esse gás se combinava com o oxigênio molecular, formando um composto cuja fórmula foi estabelecida como O+2PtF-6. Pouco depois, levando em conta que o potencial de ionização do oxigênio molecular era quase igual ao xenônio, Bartlett supôs que xenônio poderia reagir com hexafluoreto de platina. Isso foi prontamente confirmado e o composto identificado como XePtF-6. Estava quebrado um quase dogma. Fora sintetizado o primeiro composto de gás raro: o hexafluoreto de xenônio. Na verdade, Bartlett fez uma radical violação de uma regra básica, presente naquilo que se constitui o domínio público em termos de montar um quebra-cabeça – ou melhor, de fazer Ciência –: podem faltar peças ou podem sobrar peças. Só na década de sessenta se publicou mais sobre compostos de gases nobres do que sobre qualquer outra classe de compostos inorgânicos. Este episódio nos mostra, assim, que há renovadas exigências de outras maneiras de pensar a Ciência e que esta só vai crescer se admitirmos a existência de ‘comportamentos’ diferentes daqueles constituídos como modelares

Há situações em que a mudança é tão radical que Tomás Samuel Kuhn (1922-1996) um estadunidense, físico teórico historiador e filosofo da Ciência – também um líder na contribuição para a mudança do foco na filosofia e na sociologia da Ciência – denomina de ‘revolução científica’. Por exemplo, a passagem do geocentrismo para o heliocentrismo, conhecida como revolução copernicana, ou no século 18 abandonar-se a idéia do flogisto e se explicar a queima dos corpos como a combustão, a revolução lavosierana. Assim, a ainda hoje polêmica discussão da passagem do criacionismo para o evolucionismo, é uma mudança de paradigma, conhecida como revolução darwiniana. Estas três revoluções são, numa leitura ocidental da História da Ciência, três momentos históricos importantes que marcam respectivamente o estabelecimento da Física (séculos 16 e 17), da Química (século 18) e da Biologia (século 19). Esse assunto é por demais envolvente para uma crônica aqui. Quase que ouso prometer a meus leitores e leitoras que ainda voltarei ao assunto.

Mas anunciara, que ao lado das considerações sobre assumirmos posturas feyerarbedianas para olhar o mundo, o fastio dos ratos por queijo poderia ensejar algumas reflexões para identificarmos a quem interessa a construção de alguns mitos.

Sem que nos déssemos / demos conta, nossas vidas foram / são marcadas – às vezes, até capturadas – por mitos. “Não se pode comer manga com leite!”, “Uva com melancia mata!”, “A concha que colocamos no ouvido traz o barulho do mar donde foi coletada, no momento que a escutamos!”, “Se mulher grávida comer ovos com duas gemas, dará luz a gêmeo!” e centenas de mitos, muitos dos quais bastante conhecidos e até seguidos.

Mas o texto desta semana precisa ser contido em extensão. Já me espraiei por terrenos mais complexos e até um pouco fora do propósito inicial. Faltou a segunda dimensão da promessa a quem interessa a construção de alguns mitos e o quanto a difusão dedos mesmos podem lhes dar cientificidade. Na expectativa que possamos ver como se constroem e como se inculcam alguns mitos, anuncio, que ainda nesse mês, aqui no Caderno R, volto o assunto, então com uma crônica com o título: “Ratos gostam de queijo”.Aguardem.

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