terça-feira, outubro 24, 2006

Ratos gostam de Queijo

Ratos gostam de queijo
Há duas semanas, escrevi aqui no Caderno R uma crônica com título antípoda a de agora: “Ratos não gostam de queijo”. Trazer, agora, um assunto antíctone – numa linguagem dicionarizada, nada simpática – não significa que eu tenha mudado de opinião ou que outros cientistas tenham ratificado aquilo que era antes ‘a Verdade’ universalmente aceita. Também não significa que vá, examinar o outro lado da moeda. A partir de prosaica notícia demolidora de algo que, desde nossa infância, aprendemos ser objeto de desejo dos ratos (se é que eles têm desejos), discuti, então, tendo parceria de Feyerabend e de Kuhn o quanto há verdades científicas que aprendemos e até ensinamos e depois tivemos / temos que abandonar. Comentou-se, então, o quanto as verdades são provisórias: que hoje é tido como certo, amanhã pode não ser. Falei então da mudança de paradigmas; estes mostrados por Kuhn como modelos para fazermos descrições do mundo natural. As grandes revoluções científicas (a copernicana, a lavosierana, a darwiniana) foram trazidas como exemplos. Talvez se pudesse, uma vez mais, recordar acerca da importância de aprendermos a trabalhar com a incerteza, quando é oportuno ter presente Ilya Prigogine (1917-2003) – Prêmio Nobel de Química: “Só tenho uma certeza: as minhas incertezas!”!
Hoje a proposta é considerar o quanto a difusão de certos mitos podem lhes dar cientificidade. Isso posto, parece importante discutir a quem interessa a sedimentação de um mito. Assim, não é relevante discutir (ou até saber) se ratos gostam ou não de queijo, mas sim, reconhecer a quem interessa a ratificação de um mito. Aliás, minha frase teria um simbólico duplo significado se a escrevesse: ‘reconhecer a quem interessa o rato de um mito’ pois rato é, também, sinônimo de ratificação.
Por exemplo, aquela série de mitos sob os quais muitos de nós fomos educados, como “Não se pode comer manga com leite!”, “Uva com melancia mata!” foram inculcados para fazer com que os servos não comessem aquilo que se tinha como propriedades dos patrões. Quantos mitos relacionados com a atividade sexual eram / são usados no sentido de determinar disciplinamento dos corpos; assim se difundia que a masturbação debilita o sangue ou que faz crescer pelo nas mãos, ou acerca da maneira de se reconhecer se uma moça ainda é virgem. Já ouvi relatos, trazidos à sala de aula, de meninas que após perderem a virgindade (aliás, talvez não haja nenhuma membrana mais mitificada que o hímen) só usavam soquetes (ou carpins), pois se dizia / diz que moça de canela grossa não é mais virgem. Quanta insônia ou até medo do fogo eterno deve ter ocorrido depois de uma salutar masturbação. Ouvi contar, por um membro de uma ordem religiosa masculina sobre a existência, em tempos não muito distantes, de uma pinça nos mictórios conventuais para evitar o toque no pênis no ato de urinar. Recordo que no Colégio Marista onde fiz o Ginásio a placa “Deus me vê” era onipresente,
Assim a persuasão de não verdades e sua conversão em verdades nada tem de inocente. Ao contrário. Escrevo esse texto nos dias (2 e 29 de outubro de 2006) que medeiam os dois turnos das eleições para Presidente e para Governadores (em alguns Estados) no Brasil. Algumas ações da mídia fazem lembrar o sucesso que teve o todo poderoso Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do Reich. Esse homem talvez possa ser considerado alguém (tristemente celebre) que melhor usou a mídia para convencimento de massas. Os motivos não importavam, desde que os objetivos fossem alcançados, até porque para ele “Se uma mentira se repete um número suficiente vezes, termina por converter-se na Verdade.”
Entre alternativas propagandistícas, o superpoderoso Goebbels usou com muito êxito o cinema. Há um filme “O judeu eterno” [Der ewige Jude // The eternal jew], produzido em 1940, que foi especialmente eficiente para difundir a acusação de quanto a natureza intrinsecamente pervertida do povo judeu, preparando a aceitação pública para a deportação em massa, o confinamento e a matança. São particularmente atacados os judeu-poloneses, para justificar a tomada da Polônia, pois é um povo feio, corrupto, perverso e preguiçoso. Disseminava-se que são estrangeiros que querem tomar o mundo, especialmente os negócios e as finanças. Outras etnias consideradas inferiores: tchecos, russos, ciganos são alvo da propaganda que busca mostrar a superioridade e a pureza da raça ariana.
Por uma infame coincidência com o título desta crônica, no filme de então, se compara o povo judeu com ratos, mostrando esses roedores como espécies abjetas dentro do mundo animal. As comparações são as mais hediondas, trazendo a analogia de judeus e ratos quanto incontrolada reprodução, saque a alimentos, furtos etc.
Aliás, o filme é a trazida de um mito de 1542. Então surgia a figura que se tornaria lendária de Ahasverus
[1], o Judeu Eterno e Errante, criada pelo pastor luterano Paulus von Eitzen, quando encontrou um vagabundo barbudo com este nome numa igreja de Hamburgo. Ahasverus veio a ser o judeu que escarneceu de Jesus no Gólgota e, conseqüentemente, teria sido condenado por Cristo moribundo a uma vida errante e sem prazer até o Dia do Juízo Final; embora isto não seja encontrado em parte alguma dos Evangelhos a figura mítica se tornou vigoroso e muito difundida.
Há relatos dessa mesma figura em narrativas do século 4º, mas a figura de Ahasverus reaparece na Europa a partir de 1228, quando um arcebispo armênio, visitando a Inglaterra, mais precisamente o convento de Saint’Albans, revelou conhecer em seu país uma testemunha viva da paixão de Cristo
[2]. Pode-se imaginar a agitação trazida à religiosidade: 12 séculos depois haver uma testemunha ocular da via-sacra. Tratava-se do judeu Ahasverus, agora convertido e batizado por Ananias – que também batizara o apóstolo Paulo – com o nome de Cartaphilus. Este é o mesmo que esmurrara o Salvador quando este, sob o peso da cruz, tombara diante de sua porta.
Há detalhes apócrifos do encontro. Jesus, humilhado, açoitado e sangrando, deteve-se um mínimo instante à sua porta no caminho ao suplício. Ahasverus parou seus afazeres – ele era um carpinteiro, que trabalhava em sua tenda [há outras versões que fazem sapateiro] chegou-se para perto Jesus e, empurrando-o, esbravejou colérico: “Vai andando! Vai logo!” O condenado apenas olhou-o e respondeu-lhe: “Eu vou e tu ficarás até a minha volta!...”. Esse mito confundia-se como se tivesse a autenticidade de um relato bíblico.
Há um poema atribuído a Castro Alves em que está descrita essa saga de Ahasverus
[3]. No folclore brasileiro se diz que o Judeu Errante aparece na Semana santa, quando das celebrações dos rituais da paixão[4]. Há também uma peça teatral “Viver” atribuída a Machado de Assis[5], onde Ahasverus surge nos fins dos tempos, quando já não resta mais nenhum homem ou mulher sobre a terra, sentado em uma rocha, medita, depois sonha, dialogando com Prometeu – aquele que fora castigado por Zeus por ter dado o fogo aos humanos – para quem sua conta história acerca do ocorrido com ele no dia da crucifixão e sua condenação por Jesus a tornar-se errante.
Muitos judeus, por determinação consentida de tal mito eram mortos, mas sempre o judeu errante terminava reaparecendo em uma outra figura. E, há os que afirmam, Ahasverus está até hoje errando pelo mundo, sem caminho certo, sem morrer, mas sem descanso, esperando e esperando pela volta do Senhor. Logo, não se surpreenda se amanhã uma testemunha ocular da via-crúcis não surgir no seu caminho. Aproveite para conhecer detalhes desse momento tão significativo em que um judeu foi crucificado, mesmo que fosse o filho de Deus.
Depois desta viajada por muitos séculos aonde vimos a astúcia na construção de um mito e como esse foi usado para eliminar milhões de seres humanos, vale olharmos mais acerca do quanto mítico se confunde com religioso. Em minha infância, quando tinha cerca de cinco anos, meus pais tiveram uma menina natimorta. Como não pode ser batizada, se dizia, com muita dor – e sei o quanto todos sofríamos – com isso que ela estava no ‘limbo’. Este é para os católicos a morada das almas que, não tendo cometido pecado mortal, estão afastadas da presença de Deus, por não haverem sido remidas do pecado original pelo batismo. Essa foi uma criação de São Gregório, no século 4º, e aperfeiçoada por Santo Tomás de Aquino, no século 13. O limbo é chamado por alguns críticos mais sarcásticos de mezzanino do inferno. Recentemente (setembro de 2006) Bento 16, fez uma espécie de "reengenharia celestial" e excluiu o conceito do limbo da teologia católica. De quanta angústia teríamos sido privados se essa invenção do limbo não tivesse sido trazida para dentro da Igreja. Certamente o bondoso Papa promoveu todas as almas que estavam no limpo aos céus.
O livro A Ciência é Masculina?
[6] mostra como os mitos se constituíram / se constituem como se fossem livros sagrados de muitos povos. Há aqueles que consideram as assim chamadas ‘revelações divinas’, como aquelas que estão, por exemplo, no Gênese (criação do mundo, dilúvio...) da Bíblia judaico-cristã como míticas. Se olharmos especialmente os relatos mitológicos gregos e como ‘se construíam’ os deuses isso fica por demais evidente. Diferentes povos têm suas cosmogonias em seus relatos fundantes.
Mas olhemos os mitos com exemplificações dos dias atuais, pois parece que a Ciência muitas vezes ‘tentou sufocar’ explicações mitológica para as cosmogonias e recordar o que ensina Roland Barthes em seu livro Mitologias
[7] ao explicar como se constrói os mitos, descreve quando se refere a saponáceos e detergentes por exemplo, quando se santificou o Omo, em seu duelo – sempre vencedor – contra a sujeira ou de como esta deve ser retirada da profundidade, até porque o sabão maravilhoso é aquele que arranca a sujeira de seus esconderijos mais secretos (p. 58). Aliás, é o semiólogo francês que diz que cada objeto do mundo pode passar de uma existência fechada, muda, a um estado oral, aberto à apropriação da sociedade, pois nenhuma lei, natural ou não, pode impedir-nos a falar das coisas (ibidem p. 131), isso é fazê-las mitos. Mostro no livro A Ciência é Masculina? que parece fácil perceber, por exemplo, o quanto o mito de Pandora – primeira mulher dada aos humanos, na mitologia grega, que deve ter marcado imaginário grego; também mesmo o relato bíblico da criação e do pecado de Eva, fortemente capturados na tradição judaico cristã, nos fizeram machista.
Como encerramento, permito-me ratificar que interessa muito menos sabermos se ratos gostam ou não de queijo. É significativo que saibamos a quem interessa que vingue uma ou outra decisão. Parece importante aceitar que existem diferentes perspectivas para olharmos o mundo natural: podemos fazê-lo com os óculos das religiões, dos mitos, da ciência, do senso comum, dos saberes populares. Assim, mesmo aceitando o heliocentrismo, podemos ter posturas geocêntricas quando mudamos a posição de nossa cadeira em uma manhã de verão para nos protegermos de exposição direta do sol. É verdade que com leituras oferecidas pela Ciência é que ficamos sabendo da periculosidade de certas radiações – não desconhecendo também que foram as agressões dos humanos que fizeram com que muitas dessas radiações chegassem até nós – e aprendemos sobre a necessidade de usarmos protetores. Veja que estamos nesse caso usando o senso comum e Ciência. Quanto aos mitos, talvez valesse recordar o dito espanhol "yo no creo em brujas pero que las hay las hay"




[1] O Google oferece mais de cem mil registro à solicitação “Ahasverus“; devo registrar que não conhecia esse nome (sabia vagamente da lenda) até redigir esse texto.
[2] A Wikipédia em língua alemã http://de.wikipedia.org/wiki/Ewiger_Jude traz um extenso detalhamentos acerca de sucessivos reaparecimentos de Ahasverus em diferentes datas (1567-1868) e locais da Europa e da América, destacando também sua presença na literatura (há pelo menos cinco romances publicados na Alemanha entre 1959-2005), nas artes e na música.
[3] [www.revista.agulha.nom.br/calve148.html]. Esse poema aparece com os mesmos créditos a Castro Alves na Wikisource, a biblioteca livre http://pt.wikisource.org/wiki/ Ahasverus_e_o_G%C3%AAnio
[4] João Ribeiro, O Folclore, p.308 in CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988 (6a. ed)
[5] www.geocities.com/brasilsefarad/viver.htm Essa mesma peça teatral aparece com os mesmos créditos a Machado de Assis na Wikisource, a biblioteca livre http://pt.wikisource.org/wiki/Viver%21
[6]CHASSOT, Attico. A Ciência é Masculina? São Leopoldo: Editora UNISINOS. (2a.ed, 2006), 2003.
[7] BARTHES, Roland, Mitologias, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001

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