terça-feira, outubro 31, 2006

HÁ QUE SEMEAR LIVROS A MANCHEIAS

Em uma reunião de trabalho na Universidade, usei lateralmente a expressãoEla dissemina...’ e imediatamente recebi o protesto de uma muito competente (e não radical) lingüista. Argumentava: Se semente é o resultado da fecundação do óvulo pelo sêmen, a inseminação, a disseminação, a semeadura são ações masculinas que envolvem colocação do esperma. Logo não parece correto referirEla dissemina...’ podendo todavia dizerEle dissemina...’. Parece quase certo que essa observação não deve ter a adesão nem dos lingüistas mais ortodoxos. Penso queexagero. Há um tempo referir-se a um homem como histérico, podia ser objeto de uma vaia, até porque se acreditava quea histeria era uma doença nervosa que, supostamente, se originava no útero, caracterizada por convulsõeshoje a psicanálise define a histeria comoneurose na qual as moções pulsionais sofrem especialmente recalque e são inconscientemente traduzidas em sintomas corporais” e a psiquiatria comoneurose que se exprime por manifestações de ordem corporal, sem que haja qualquer problema orgânico funcionalHoje se fala até em histeria coletiva e, certamente, nesse universotambém homens.

Mas trago esse preâmbulo sem me ater à discussões epistemológicas, pois queria falar de uma outra semeadura. Não vou discutir as sementes que não são sementes. Hoje quero falar de disseminar livros, ou como pregava Monteiro Lobato ‘há que semear livros a mancheias”. Linda essa metáfora lobatiana de semear livros. E essas sementes são do tipo crioulas ou caipiras, logo fecundas. Não são daquelas híbridas que a biopirataria torna estéril em uma segunda geração e que foram objeto de comentários aqui, na minha segunda crônica nesse Caderno R.

Quero falar de um seminário – e vou de novo a etimologia de semente e aqui seminário é “canteiro onde se semeiam vegetais que depois serão transplantados’ – que faz semeadura de livros. Refiro-me ao £eia £ivro www.leialivro.sp.gov.br onde eu e muitos outros homens e mulheres buscamos divulgar o livro. Vou contar um pouco de minha presença nesse sítio.

Este texto foi originalmente produzido para celebrar, nesse mês de outubro, a publicação de minha qüinquagésima resenha no £eia £ivro. Retomo-o aqui para com a mirada na minha história ali, trazer às leitores e aos leitores do Caderno R a divulgação de um excelente local para muito boas busca de livros.

www Na noite de 8 de agosto de 2004, recebi de José Luiz Goldfarb uma destas mensagens que usualmente vão para a lixeira sem ler. Salvou-a conhecer o remetente, meu colega de lides na História da Ciência:

O site www.leialivro.com.br lançou uma nova promoção: o Clube do Leitor. Agora você pode ganhar livros novos publicando as suas sugestões de leitura no site. Funciona assim: você envia uma resenha pelo Leia Livro e se o seu texto render um boletim na Rádio Cultura, nós te mandamos um livro novo. Todas as semanas, a Rádio Cultura transmite sete novos boletins com sugestões dos participantes do Leia Livro.

Não esperei novo estímulo. Fiz uma resenha de Niketche: uma historia de poligamia que recém lera. O lindo romance de uma escritora moçambicana, Paulina Chiziane - uma negra de origem humilde, nascida em 1955 - foi minha resenha de estréia no £eia £ivro e comecei sorte. No dia seguinte recebi esta mensagem:

Olá! Meu nome é Fernanda e sou editora do site Leia Livro, o qual recebeu sua resenha. Sua dica foi escolhida para se tornar um boletim na rádio Cultura.

Nos 10 meses seguintes publiquei mais 32 resenhas, destas 20 se converteram em Boletins na Radio Cultura e algumas me renderam bons livros. [Três delas: a 13,15 e 16 foram publicadas com outra autoria]. Em maio de 2005, por razões que não merecem vir a publico, o namoro foi esfriando. Mas sempre havia uma pontinha de saudade. Treze meses depois, em junho de 2006, voltei. Cheguei mais tímido, mas as 18 resenhas produzidas nesses quatro meses, após o retorno, dão conta que o romance com o sítio volta ter a garra do início.

Destas 50 resenha 27 foram de livros de ficção, 22 não-ficção e uma infantil. Procuro alternar ficção e não ficção, mesmo sabendo o quanto, às vezes, essa diferença é tênue. Agora são 25 aquelas transformadas em Boletins na Rádio Cultura. É também muito bom, em mais de uma oportunidade, ter escutado colegas paulistas dizer que ouviram resenhas minhas radiofonizadas e aceitaram a sugestão de leituras. Continuo também amealhando livros supimpas com esse gostoso resenhar.

Por que escrevo resenhas? Gosto de ler e tenho uma imensa vontade de repartir meus prazeres para outros e isso é muito facilitado por um sítio como o £eia £ivro, pois esse é o local daqueles que gostam de curtir livrarias. Aliás, aqui parece que estamos em uma livraria cercado de apaixonados leitores. A resenha é um excelente facilitador de acesso ao livro. Fui editor de três revistas científicas onde privilegiava espaço para resenhas. Sempre estimulo meus orientandos a escrever resenhas, que com objetivos diferentes daqueles do £eia £ivro. Como editor coloco uma exigência a um resenhista: o leitor de uma resenha deve ser (des)entusiasmado a ler o livro. Numa resenha em uma revista acadêmica, os textos são de 5 a 10 páginas, em geral críticos ou até polêmicos. Aqui neste sítio as alternativas são sempre de recomendação. Tenho livros que me apeteceria desrecomendar, mas contradiz o próprio nome imperativo do sítio: £eia £ivro.

Quando havia escrito 19 resenhas aqui, quando encontrei uma maneira de violar essa necessidade de recomendar. Resolvi fazer algo diferente. No último dia 29 de novembro de 2004 postei o textoUma literatura asquerosapara a sessãoVocê é o autor” fazendo minha estréia nela. Com aparente menor visibilidade que as outras sessões o texto teve uma grande ressonância tendo sido enviado em lista para vários pontos do Brasil e para o exterior.

Com ele, não pretendia desencadear uma cruzada contra Gabriel García Márquez, nem fazendo patrulhamento do politicamente correto e muito menos pedindo a volta do "Index Librorum Prohibitorum" mas estava fazendo um chamamento para o quanto devemos estar atentos quando lemos acerca do quanto as leituras também a constituem nossa maneira de ver o mundo.

Então escrevia: “Há um livro, ainda não está traduzido para o português, mas que muito em breve chegará ao Brasil com aparatosa publicidade. Trata-se de ‘Memoria de mis putas tristes’. A edição que li traz uma cinta, com a informaçãoLançamento mundial em língua espanhola com 1.000.000 de exemplares’ e festeja a primeira novela de Gabriel García Márquez depois de 10 anos. Sim, um milhão de exemplares de uma novelinha curta de cerca de 100 páginas, sem nenhuma economia de espaços em branco, que certamente dará muito dinheiro ao nosso Nobel latino-americano e a seus editores”.

Um pouco adiante interrogava: “Uma linda história de amor? Talvez, até possamos nos seduzir pelo texto escrito com inegável lirismo... ou, é a exaltação literária de uma dolorosa mácula de nossa sociedade, onde uma menina virgem é preparada para ser objeto negociável para a perpetração (ou exemplificação) de mais uma violência contra mulheres indefesas?”

Encerrei assim minha anti-resenha: “Aqui, não ouso contradizer o nome deste tão importante sítio que faz semeaduras de livros, nem vou lançar uma cruzada nacional contra García Márquez, mas, com o mesmo empenho em que tenho dito em diferentes momentos ‘Leia Livro’ permito-me, aqui e agora, dizer que leiamos atentos acerca do quanto estas leituras também a constituem nossa maneira de ver o mundo”. Meses depois o livro foi traduzido para o português. Continua na lista dos mais vendidos.

A propósito da sessãoVocê é o autorem 30 de junho desse ano, usei-a com um propósito bem diverso. Com o textoNaquele tempo existia um homem. Ele existiu e existe, pois narramos sua história.” Parti da evocação de Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores vivo, escreveu um livro (Pessoas extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz. São Paulo: Paz e Terra, 1998) acerca de pessoas cujos nomes são conhecidos apenas pelos parentes e pelos vizinhos. Narrei, então, acerca de uma pessoa que também é extraordinária. Então contei que nos dias 7, 8 e 9 de julho, quase meia centena de pessoas se reuniria para celebrar o centenário de nascimento de Affonso Oscar Chassot, meu pai. Encerei o texto assim: Um de seus filhos lhe dedicou um livro que traz um ofertório, que certamente seria subscrito não apenas por seus descendentes e lhe evocam histórias, mas por aquelas e aqueles que o conheceram e talvez por alguns dos leitores deste texto. “Para Afonso Oscar Chassot (1906-1987), meu pai, que, mesmo nunca tendo visto seu nome impresso em um livro ou jornal, muito me ensinou: a gostar de ouvir notícias, instrumental importante para conhecer e entender a história, e a vibrar com a profissão, marceneiro hábil que era, trabalhando a madeira com amor. Para ele, este livro e estes versos, adaptados da poeta Hannah Szenes (1921-1944): Bendito o fósforo que ardeu e acendeu a fogueira! // Bendita a labareda que ardeu no âmago do coração! // Bendito o coração que soube parar com honra!" Vale dizer que além de onze ‘comente o texto’, recebi emocionadas mensagens.

Ainda na sessãoVocê é o autor”, aproveitando o ambiente futebolístico que envolvia o Brasil em busca do hexacampeonato, publiquei em 06 de junho uma historieta de amor, evocando a final da copa do mundo de 1962. Tive com ela alguns estimulantes retornos.

Talvez falte responder uma pergunta: quando escrevo as resenhas. Como podem ter visto fiz de ser resenhista um hobby. Usualmente não tenho muito tempo. Sou professor em tempo integral em um Programa de Pós-Graduação em Educação onde oriento mestrandos e doutorandos. Dou aulas na pós-graduação e na graduação que me exigem bastante preparo. Tenho também viagens profissionais a diferentes estados do Brasil em cursos e conferências. Respondo perguntas de professoras e professores acerca do ensino de Ciências no sítio ‘amaivos.com.br’. Tenho esta coluna semanal aqui no Caderno R do Jornal O Rebate. Estou ativamente no orkut, pois um grupo de professoras e professores da Bahia, fundou uma comunidade ligada ao meu trabalho com História da Ciência.

Comento isso para mostrar o quanto preciso achar tempo para escrever. Também preciso dizer que escrevo diários, numa prática que envolve um gostoso adolescer. Desde 1986 tenho para cada ano um volume, sem faltar o registro de um dia, escrevi até em salas de recuperação pós-operatória. Acerca da arte de escrever diários, escrevi um texto acadêmico, que apresentei em uma discussão mais ampla em um evento internacional dentro da temática colecionismo. Mais recentemente escrevo diariamente no meu blog http://achassot.blog.uol.com.br/ que surpreendentemente é bem visitado.

Uma das realidades que me encanta está no binômio lerD escrever. Estou, com muita freqüência, gestando textos. Brinco que não uso um laptop, mas um lapkopf. Aqui a alusão é a kopf, “cabeçaem alemão. No meu lapkopf estou, muito usualmente, produzindo textos, preparando aulas ou estabelecendo seqüências para uma palestra. Os textos são lançados no receptivo disco não tão rígido do cérebro nas vigílias de um chamar o sono, ou em insones madrugadas, ou ainda em embalos nem tão ritmados do ônibus no ir e vir para / da Universidade. Há períodos de fertilidade, mastempos em que a imagem do solo crestado é uma metáfora adequada para a esterilidade intelectual. Há momentos, ou porque a idéia parece imperdível ou porque não se confia na memória, em que o primeiro papel que se encontra recebe algumas palavras que serão chave para composições futuras. Quanta nota de compra ou verso de passagem de ônibus se transformou em portadora de senha preciosa para comandar, depois, teclares produtivos!

Logo, escrever uma resenha para o £eia £ivro se constitui, antes de qualquer coisa, em algo prazeroso. Assim, quando estou lendo livro estou pensando naquilo que gostaria de chamar atenção aos outros. Logo não é por acaso que as minhas 50 resenhas se dividam quase paritariamente entre ficção e não ficção, até porque algumas das resenhas do £eia £ivro estão nos alertas de ‘para saber mais presentes em minhas aulas. Assim, depois de algumas horas de trabalho, por exemplo, fazendo uma, às vezes, tediosa revisão de uma dissertação ou pesquisando para um seminário que tenha que dar, me premio com um tempo para me por a resenhar. Isso tem um dulçor quase erótico.

Quero registrar que tive satisfações pessoais por resenhar no £eia £ivro. Um autor premiado escreveu-me dizendo que lera minha resenha acerca de seuA margem imóvel do rio e não a agradecia, mas pedia para juntá-la em sua página pessoal. Recuperei o contato com outra autora, quando ao ler resenhaO preço da leitura’ escreveu recordando dos tempos que fora minha aluna. Resenhei ‘Uma história social do conhecimento tendo encontrado Peter Burke em um evento referi-lhe a resenha e a enviei a Cambridge. Uma delas ‘O brilho da Lua os editores do sítio encaminharam para publicação em ‘Discutindo Literatura’ [v. 5, p. 64 - 64, 01 ago. 2005] a revista que circula em suporte papel. que citei algumas de minhas resenhas, deixe-me contar aquela que mais me deu alegria em fazer, talvez porque tenha envolvido nela minha mulher. disse que tenho um sonho de ir ao cinema com a ‘Moça com brinco de pérolapara conhecer Delft.

Tenho orgulho muito especial, pois de pelo menos um de competentes e produtivos resenhistas deste sítio foi seduzido ao por mim. do Rio Grande do Norte Nelson Marques faz parceria comigo aqui no Rio Grande do Sul na disseminação do amor aos livros.

Por um capricho dos deuses que cuidam de nossas agendas, preparo ‘Uma rapsódia por uma resenha jubilar assistindo peloPortal da ABL” a posse do bibliófilo José Mindlin, na Cadeira nº 29 da ABL. Ele começa pedindo desculpas por não trazer um texto escrito, pois está com problemas de visão, mas promete aos presentes o texto ao final. Também faz reverente homenagem à sua esposa Gita Mindlin, recém falecida. Não posso deixar de recordar, quandoum ano ele assistiu uma fala minha acerca de diários como forma de colecionismo e deixou um autógrafo no meu diário, na data de 31AGO05. Vale agora receber a aula do consagrado bibliófilo. E, também por isso esse registro aqui, soube dessa transmissão e mesmo do portal da ABL pelo £eia £ivro.

Por fim, na celebração de minha 50ª resenha auguro vida longa ao £eia £ivro e cada uma e cada um de seus leitores. A minha gratidão ao Juliano, à Izabel, à Josiane, à Bel – recordo também o Leandro, a Fernanda, a Juliana parceiros de outros tempos – e seus muito competentes colegas pela maneira dedicada como mantêm o £eia £ivro. É muito bom que vocês existam. Obrigado, também por isso. vvv

Esse foi o que publiquei na £eia £ivro como “Uma rapsódia para uma resenha jubilar”. O texto recebeu alguns comentários. Reparto com as leitoras e os leitores do Caderno R um de Luciana Fátima. Ela escreveu: “Puxa! Que texto emocionante...! Se todas as pessoas tivessem ao menos uma centelha desse amor à literatura, o mundo talvez fosse um pouquinho melhor!!” Isso valeu a rapsódia.

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