domingo, outubro 15, 2006

A Escola tem futuro?

Esta é uma crônica especial para mim no Caderno R. É minha crônica número 10. Isso é algo relevante. Gostamos de festejar números redondos. Assim celebro aqui e agora a minha 10ª crônica, sonhando com momentos em que talvez festeje a 25ª ou a 50ª, já numa expectativa mais remota penso nas celebrações da centenária – dentro de nossa simpatia pelos números redondos. Parece que se gosta menos dos números primos. Quem festeja o 17, o 53 ou o 71? Olhem como foram as badalações na virada do milênio, que recordo serem apenas marcos simbólicos no mundo cristão já que, por exemplo, nos calendários judeu ou islâmico isso ocorre em outros tempos.
Expando o do tom intimista do parágrafo de abertura e faço um outro emocionado festejamento. Faço a postagem desse texto no dia do Professor, profissão que há muito exerço com paixão. Na celebração da data há uma querida coincidência que me permito dividir com os leitores e leitoras dessa crônica. Hoje é o aniversário de minha filha Ana Lúcia. Ela é uma competente cirurgiã dentista em Estrela e também professora na UNISC em Santa Cruz do Sul muito reconhecida. Dos meus quatro filhos é a única que se envolve profissionalmente com o magistério. Assim, quando deixei a intimidade ser invadida pela emoção que se conjuga na data, permito dedicar à Ana Lúcia, uma filha muito amorosa, essa crônica, no seu ímpar aniversário – aqui o adjetivo porta um duplo sentido.
Nossos textos têm histórias. Quero matizar um pouco a construção deste. Há cerca de um mês, recebi uma mensagem eletrônica, da qual subtraio excertos e altero nomes para resguardar colegas por comentário que faço no encerramento deste texto:
Bom dia professor! Sou aluna de licenciatura numa disciplina ministrada pela professora Rosa Flores dos Campos, acho que o senhor se lembra dela. Bem, um trabalho que precisamos fazer é uma "entrevista" com diferentes pessoas, apresentando a questão: "a escola tem futuro?". Como a professora mencionou que o senhor participou de muitos eventos envolvendo o ensino, inclusive esteve aqui [...] esse ano, pensei que seria interessante ver seu ponto de vista da questão. Se o senhor estiver disposto a responder, eu agradeceria muito! Não é nada longo, apenas sua opinião, respondendo à pergunta acima mencionada. Muito obrigada pela atenção dispensada! Cristina.
Mensagem como essa são muito freqüentes. Há aquelas que nos sentimos fazendo ‘os deveres de casa’ de estudantes. Ainda quero contar aqui no Caderno R acerca de um trabalho que faço em um sítio de consultas relacionado com problemas de sala de aula. Aguardem. Sensibilizei-me com a pergunta da aluna de uma colega muito querida. Fiz uma resposta que não brotou do nada e exigiu um tempo subtraído de outros fazeres. Eis minha resposta.
Estimada Cristina, fazes-me uma pergunta difícil. Melhor seria inventar que não tenho tempo (o que não seria falso) e dizer que não posso atender teu pedido. Mas sendo uma questão catalisada pela querida e muito especial Professora Rosa não posso furtar-me. Aliás, perguntas-me também: “acho que o senhor se lembra dela?” Quem pode esquecer uma criatura tão amável e competente.
Mas esse preâmbulo todo pode parecer para não responder tua pergunta: "A escola tem futuro?" Vou tentar responder. Vê que esse tentar me exime de qualquer pretensão de saber responder.
Talvez devêssemos perguntar primeiro de que Escola estamos falando. Então, antes de falar de futuro eu trago uma outra questão para o presente: A Escola mudou ou foi mudada? Tenho algumas respostas para isso.
A Escola mudou? A Escola foi mudada? Recordo o período de final do meu curso primário
[1], quando se fazia análise lógica se classificavam as ações verbais como estando na voz ativa ou na voz passiva. Isso era matéria certa no exame de admissão[2]. Surge, agora a pergunta: A Escola mudou ou foi mudada? Talvez possa parecer irrelevante se a Escola seja o sujeito ou o predicado. No contexto de mudanças em diferentes setores, a Escola não é algo exótico ao mundo onde está inserida e dele faz – necessariamente – parte. Talvez se possa apenas dizer: se a Escola ainda não mudou, ou ainda não foi mudada, ela deverá necessariamente mudar!
A Escola - na acepção de instituição que faz ensino formal, em qualquer nível de escolarização - nestes tempos de globalização está sendo mudada. E, estamos nos referindo a algo em um amplo espectro, que vai desde a Escola infantil até a Universidade. As mudanças ocorrem em qualquer estabelecimento envolvido formalmente em Educação.
Não vou fazer, aqui e agora, comentários dos apossamentos que faz Organização Mundial do Comércio da fatia Educação para dirigir sua voracidade por lucros, onde se favorece a comercialização internacional dos serviços da Educação como uma mercadoria qualquer. Parece não existir outro bem comerciável que segure um consumidor cativo por quatro ou mais anos, como o estudante que “compra ensino” de uma Escola. Pois para os que fazem comércio da Educação a resposta é óbvia: a escola tem futuro.
Quando olhamos as fantásticas transformações nos cenários do trabalho, onde a cada dia nos surpreendemos com inovações e com o alijamento de homens e mulheres de postos de trabalho, não nos damos conta da rapidação com que acontecem estas modificações. Parece que estamos falando de tempos quase jurássicos, quando se diz, por exemplo, que há 15 anos, não conhecíamos telefone celular, fax, CD ou Internet. Os discos de vinila com 78, 45 ou 33 rotações por minuto, são algo de um passado tão distante, quando era para alguns de nós o gramofone, com corda manual e reprodução que classificávamos de “taquara rachada”. O novo se faz velho rapidamente. Basta nos darmos conta da dificuldade que temos, por exemplo, em classificar se um determinado modelo de telefone celular é novo ou não, tão rapidamente este se desatualizam.
Recordo seguidamente uma charge publicada na primeira semana de janeiro de 1999, no USA Today
[3] que traduz um pouco essa nossa dificuldade em lidar com este conceito de “um novo que se faz quase repentinamente velho”. Um cliente chega a uma loja com um computador, logo depois das festas de Ano Novo, e diz: “Eu quero trocar este computador por uma versão mais nova e atualizada!” A vendedora pergunta-lhe: “Você o tem há muito tempo?" Ele responde: “Desde o Natal...” Na maioria das vezes, lamentavelmente, já nem trocamos muitos de nossos fantásticos equipamentos. Eles se fazem apenas algo descartável. Somos cada vez mais geradores de uma significativa quantidade de lixo tecnológico.
Hoje, quando temos que viver – diria mais, adequadamente, suportar a vida – sem computador por algum tempo ou se estamos impossibilitados ao acesso do correio eletrônico ficamos desconcertados. Parece que nos tornamos impotentes em muitos de nossos fazeres. Aqueles que acham que exagero, dêem-se conta de quantas neuroses nos afligem estas máquinas tão poderosas, que nos fazem paradoxalmente cada vez mais impotentes (no trato com elas).
Como essas modificações, que estão presentes no cenário mundial, repercutem na Educação, ou mais especificamente nas nossas salas de aula? E talvez aqui, Cristina, começo a responder tua pergunta. Não temos dúvidas a respeito do quanto a globalização confere novas realidades à Educação. Há os que dizem que a Escola não mudou. Se não mudou, foi mudada nestes últimos anos. Assim, uma Escola diferente, tem futuro, sim. O dito conservadorismo da Escola, marcado por suas origens na aurora da modernidade manteve-se por mais de quatro séculos numa quase artesania, que não mais resistiu ao ocaso do século 20. Hoje já se fala em Bibliotecas sem livros. A educação a distância é uma realidade irreversível, mesmo que com razão ainda questionável. A realidade desta aurora trimilenar já é muito diferente daquilo que nós – homens e mulheres do século passado – vivemos há não pouco tempo.
Também, não preciso destacar as fantásticas modificações no mundo de hoje e de quanto estas atingem – e uso este verbo na sua plenitude de significados - a Educação, ou mais especificamente, as salas de aula. Não temos dúvidas do quanto a globalização confere novas realidades à Educação. Talvez, para uma facilitação, pudéssemos fazer nossas olhadas em duas direções. Primeira, como são diferentes as múltiplas entradas que o mundo exterior faz na sala de aula e, a outra direção, como esta sala de aula se exterioriza, atualmente, de uma maneira diferenciada.
Sobre a primeira das situações não precisamos fazer muitas ilustrações. Comparem, por exemplo, o quanto eram clausuradas às invasões externas, as Escolas de nossos avós em relação às interferências do mundo externo com as que existem em nossas salas de aulas hoje. A Escola era referência na comunidade pelo quanto ela detinha o conhecimento. Quanto à segunda, consideremos apenas a parcela de informações que nossos alunos e alunas trazem hoje à escola. Aqui temos que reconhecer que estes, não raro, superam as professoras e os professores nas possibilidades de acessos às fontes de informações. Há situações, onde temos docentes desplugados ou sem televisão, que ensinam a alunos que surfam na Internet ou estão conectados a redes de TV a cabo perdendo a Escola (e o Professor) o papel de centro de referência do saber. A proletarização dos profissionais da Educação os faz excluídos dos meios que transformam o Planeta, onde a quantidade e a velocidade de informações o faz parecer cada vez menor. Esse é o trágico em não poucas das contemplações da Escola hoje.
Assim, parece que se pode afirmar, que a globalização determinou em tempos que nos são muito próximos uma inversão no fluxo do conhecimento. Se antes o sentido era da Escola para a comunidade, hoje é o mundo exterior que invade a Escola. Assim, a Escola pode não ter mudado; entretanto, pode-se afirmar que ela foi mudada. Não há, evidentemente, a necessidade (nem a possibilidade) de fazermos uma reconversão. Todavia é permitido reivindicar para Escola um papel mais atuante na disseminação do conhecimento. E, talvez não diríamos isso há 10 anos. Isso determina a existência de dois tipos de professores.
O professor informador – refiro-me àquela ou àquele que se gratifica com ser transmissor de conteúdo – está superado. Ele é um sério candidato ao desemprego ou será aproveitado pelo sistema para continuar fazendo algo (in)útil nesta tendência neoliberal de transformar o ensino (não a Educação) em uma mercadoria para fazer clientes satisfeitos, como apregoam os adeptos da Qualidade Total.
O professor formador ou a professora formadora será cada vez mais importante. Por paradoxal que possa parecer, a melhor receita para esse novo educador é ensinar menos. Não é o quanto se sabe que nos faz diferente. O decisivo é como se sabe descobrir novos conhecimentos e, especialmente, como usá-los. Os pregoeiros do conteudismo ou aqueles que valorizam o saber de cor ou memória mecânica, muito provavelmente se horrorizam ante esta alternativa para um novo fazer Educação. Em homenagem a eles me permito repetir: a melhor receita para educador deste novo milênio, muito provavelmente é ensinar menos.
Assim, sonhadoramente, podemos pensar a Escola do futuro – logo ela tem futuro – como sendo pólo de disseminação de informações privilegiadas. Há uma quase certeza, que é a Escola e também a Educação não formal, que transformará nossas alunas e nossos alunos em cidadãs e cidadãos mais críticos. Estas são utopias – e aqui acredito que tenha como parceiro a ti Cristina e a cada uma e cada de alunas e alunos da Professora Rosa – que a Educação possa ser cada vez transformadora do mundo em que vivemos e o transforme para melhor. É isso que quer ser para num Futuro da Escola.
Acho que respondi, pelo menos um pouco, Attico Chassot. Morada dos Afagos, na overture da primavera de 2006.
Essa foi a resposta que enviei à solicitante em 22 de setembro. Quando já havia enviado a Cristina esse texto a cerca do futuro da Escola, sonhando que novas tecnologias ajudem a professoras e professores a fazer melhor Educação, vivi uma experiência, no terceiro turno de um dia de trabalho assim registrada assim em meu blog: “Cheguei não muito de São Leopoldo, tomado de dois sentimentos. Um de revolta. Não recordo que já tenha me sido oferecido tão precárias condições de trabalho. Quando me avisaram que não teria data-show, para uma palestra que Dora convidado, gastei em lâminas para retro projetor. Lá chegado havia um aparelho para ser dividido com mais duas colegas em outras salas. Faltava tudo e as alunas e os alunos, isso é 25 professoras e professores da área de Ciências, também se sentiam humilhados. Isso que esse curso para o qual fora convidado se diz ser integrante de um convênio 2ª CRE/UNISINOS/UNESCO. Por outro lado, foram fortes as emoções em dar nesta noite aula em uma mesma sala que há 42 anos dera aula de Química. Em 1964, quando do golpe militar eu era também presidente do Grêmio de Professores do Colégio Pedro Schneider. Desde então nunca mais havia voltado àquela Escola. Não preciso dizer mais. Talvez, acrescentar ainda, que aquela sala de aula parou no tempo. Afortunadamente, eu não.” Acredito que os leitores e as leitores aderem comigo à minha sensação de revolta e também à forte emoção que é retornar a mesma sala de aula e encontrá-la talvez pior em termos de recursos.
Uma informação suplementar. A Cristina, a distinta destinatária da parte central deste texto que se crônica no dia das professoras e dos professores, mesmo decorrido mais de três semanas de minha mensagem, nunca se manifestou em resposta. Teria sido bom se eu houvesse recebido um ‘obrigado’. Não precisava nem comentar. Talvez ela não tenha recebido a resposta.
Mas a Escola tem futuro e com esse texto homenageio – e arvoro-me a fazê-lo também em nome do Caderno R – a cada um e cada uma dos homens e mulheres que têm no fazer Educação sua profissão. Vale a pena com nossa profissão, sonhadoramente, ajudar transformar o mundo para melhor.
[1] Até a reforma do ensino que ocorreu com a lei 5692/71 que alterou o ensino anterior a Universidade, os atuais oito anos de ensino fundamental, eram divididos em dois ciclos: cinco anos de ensino primário e quatro de ensino ginasial.
[2] O acesso ao ginásio – de duração de 4 anos – se dava através do “exame de admissão” que era realizado independente (que poderia ser em outra Escola) da situação de se estar aprovado ou não no 5º ano primário.
[3] Charge reproduzida na p. 1.6 da Folha de S. Paulo de 08 jan. 99

7 Comentários:

  • Parabéns a todos os meus colegas de profissão. Que as coisas em relação a educação mudem neste país.

    Obs: adoro números primos!

    Um abraço

    Marco Aurélio

    Por Blogger Marco Aurélio, às 3:40 PM  

  • Se um pedido de desculpas ainda for válido, faço-o agora. Eu pensei ter respondido a mensagem, como fiz com outros entrevistados.
    Recebi a resposta e gostei muito de ter tido atenção, sabendo quão ocupado o senhor é.

    Agradeço também a notificação da publicação dessa crônica.

    Por fim, agradeço outra vez e devolvo os parabéns por essa data tão pouco lembrada ou reconhecida.

    Até!

    Por Anonymous "Cristina", às 8:38 PM  

  • Professor Chassot,
    Como sempre, sábias palavras! Sim, a Escola tem futuro! E aos educadores(as) - como nós, Professor - a homenagem através de Cora Coralina:
    "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."
    Um forte e carinhoso abra@o, Adriana.

    Por Anonymous Adriana Magedanz, às 10:22 PM  

  • Pai
    Fiquei muito feliz com a tua homenagem. Lendo este texto me veio novamente uma frase na cabeça, frase esta que sempre penso quando leio algo escrito por ti "nossa como o pai é inteligente, como escreve bem". Mas muito mais do que isto eu me impressiono como tu és um pai maravilhoso. Obrigada por todos incentivos, estímulos, carinhos. Se hoje eu me sinto assim tão realizada tu tens uma parcela importante de responsabilidade. Te amo. Da tua filha Ana

    Por Anonymous Ana Lucia, às 7:07 PM  

  • Para a minha querida homenageada neste texto,
    obrigado por tuas palavra carinhosas. Sou também muito orgulhoso de ti,
    teu pai

    Por Blogger achassot, às 7:07 AM  

  • Sou eu... a professora Rosa Flores do Campo... tão florida, agradecida e comovida... Chassot, obrigada pelo presente em forma de crônica... Abraços grandes
    Inês

    Por Anonymous Rosa Flores, às 7:27 AM  

  • Professor, quero agradecer a reflexão. Penso que a escola tenha futuro. Certamente seu futuro ( o da escola que sonhamos) depende de muita luta, da sábia escolha de nossos dirigentes e da participação efetiva que precisamos ter, enquanto professores e cidadãos, para garanti-lo. O futuro da escola também depende das escolhas que fazemos nas eleições.
    Também, não queremos qualquer futuro. Mas um futuro que seja promissor, que seja alternativo e que considere o homem e a mulher, o jovem, o velho e a criança, como princípio, meio e fim. Não sozinhos, isolados, mas em harmonia consigo mesmos, com os outros e as outras e com a natureza, o cosmos.
    Abraços professor e vida longa. Muito longa! Para que possa aproveitar cada vez mais as suas palavras sinceras, sábias e, por isso, revestidas de uma realidade ímpar e profunda (estas últimas referem-se a seu comentário sobre o jubilamento = se entendi bem).
    CVCassol = alguém que sempre está aprendendo com o Senhor!

    Por Anonymous Anônimo, às 3:20 PM  

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