terça-feira, outubro 31, 2006

HÁ QUE SEMEAR LIVROS A MANCHEIAS

Em uma reunião de trabalho na Universidade, usei lateralmente a expressãoEla dissemina...’ e imediatamente recebi o protesto de uma muito competente (e não radical) lingüista. Argumentava: Se semente é o resultado da fecundação do óvulo pelo sêmen, a inseminação, a disseminação, a semeadura são ações masculinas que envolvem colocação do esperma. Logo não parece correto referirEla dissemina...’ podendo todavia dizerEle dissemina...’. Parece quase certo que essa observação não deve ter a adesão nem dos lingüistas mais ortodoxos. Penso queexagero. Há um tempo referir-se a um homem como histérico, podia ser objeto de uma vaia, até porque se acreditava quea histeria era uma doença nervosa que, supostamente, se originava no útero, caracterizada por convulsõeshoje a psicanálise define a histeria comoneurose na qual as moções pulsionais sofrem especialmente recalque e são inconscientemente traduzidas em sintomas corporais” e a psiquiatria comoneurose que se exprime por manifestações de ordem corporal, sem que haja qualquer problema orgânico funcionalHoje se fala até em histeria coletiva e, certamente, nesse universotambém homens.

Mas trago esse preâmbulo sem me ater à discussões epistemológicas, pois queria falar de uma outra semeadura. Não vou discutir as sementes que não são sementes. Hoje quero falar de disseminar livros, ou como pregava Monteiro Lobato ‘há que semear livros a mancheias”. Linda essa metáfora lobatiana de semear livros. E essas sementes são do tipo crioulas ou caipiras, logo fecundas. Não são daquelas híbridas que a biopirataria torna estéril em uma segunda geração e que foram objeto de comentários aqui, na minha segunda crônica nesse Caderno R.

Quero falar de um seminário – e vou de novo a etimologia de semente e aqui seminário é “canteiro onde se semeiam vegetais que depois serão transplantados’ – que faz semeadura de livros. Refiro-me ao £eia £ivro www.leialivro.sp.gov.br onde eu e muitos outros homens e mulheres buscamos divulgar o livro. Vou contar um pouco de minha presença nesse sítio.

Este texto foi originalmente produzido para celebrar, nesse mês de outubro, a publicação de minha qüinquagésima resenha no £eia £ivro. Retomo-o aqui para com a mirada na minha história ali, trazer às leitores e aos leitores do Caderno R a divulgação de um excelente local para muito boas busca de livros.

www Na noite de 8 de agosto de 2004, recebi de José Luiz Goldfarb uma destas mensagens que usualmente vão para a lixeira sem ler. Salvou-a conhecer o remetente, meu colega de lides na História da Ciência:

O site www.leialivro.com.br lançou uma nova promoção: o Clube do Leitor. Agora você pode ganhar livros novos publicando as suas sugestões de leitura no site. Funciona assim: você envia uma resenha pelo Leia Livro e se o seu texto render um boletim na Rádio Cultura, nós te mandamos um livro novo. Todas as semanas, a Rádio Cultura transmite sete novos boletins com sugestões dos participantes do Leia Livro.

Não esperei novo estímulo. Fiz uma resenha de Niketche: uma historia de poligamia que recém lera. O lindo romance de uma escritora moçambicana, Paulina Chiziane - uma negra de origem humilde, nascida em 1955 - foi minha resenha de estréia no £eia £ivro e comecei sorte. No dia seguinte recebi esta mensagem:

Olá! Meu nome é Fernanda e sou editora do site Leia Livro, o qual recebeu sua resenha. Sua dica foi escolhida para se tornar um boletim na rádio Cultura.

Nos 10 meses seguintes publiquei mais 32 resenhas, destas 20 se converteram em Boletins na Radio Cultura e algumas me renderam bons livros. [Três delas: a 13,15 e 16 foram publicadas com outra autoria]. Em maio de 2005, por razões que não merecem vir a publico, o namoro foi esfriando. Mas sempre havia uma pontinha de saudade. Treze meses depois, em junho de 2006, voltei. Cheguei mais tímido, mas as 18 resenhas produzidas nesses quatro meses, após o retorno, dão conta que o romance com o sítio volta ter a garra do início.

Destas 50 resenha 27 foram de livros de ficção, 22 não-ficção e uma infantil. Procuro alternar ficção e não ficção, mesmo sabendo o quanto, às vezes, essa diferença é tênue. Agora são 25 aquelas transformadas em Boletins na Rádio Cultura. É também muito bom, em mais de uma oportunidade, ter escutado colegas paulistas dizer que ouviram resenhas minhas radiofonizadas e aceitaram a sugestão de leituras. Continuo também amealhando livros supimpas com esse gostoso resenhar.

Por que escrevo resenhas? Gosto de ler e tenho uma imensa vontade de repartir meus prazeres para outros e isso é muito facilitado por um sítio como o £eia £ivro, pois esse é o local daqueles que gostam de curtir livrarias. Aliás, aqui parece que estamos em uma livraria cercado de apaixonados leitores. A resenha é um excelente facilitador de acesso ao livro. Fui editor de três revistas científicas onde privilegiava espaço para resenhas. Sempre estimulo meus orientandos a escrever resenhas, que com objetivos diferentes daqueles do £eia £ivro. Como editor coloco uma exigência a um resenhista: o leitor de uma resenha deve ser (des)entusiasmado a ler o livro. Numa resenha em uma revista acadêmica, os textos são de 5 a 10 páginas, em geral críticos ou até polêmicos. Aqui neste sítio as alternativas são sempre de recomendação. Tenho livros que me apeteceria desrecomendar, mas contradiz o próprio nome imperativo do sítio: £eia £ivro.

Quando havia escrito 19 resenhas aqui, quando encontrei uma maneira de violar essa necessidade de recomendar. Resolvi fazer algo diferente. No último dia 29 de novembro de 2004 postei o textoUma literatura asquerosapara a sessãoVocê é o autor” fazendo minha estréia nela. Com aparente menor visibilidade que as outras sessões o texto teve uma grande ressonância tendo sido enviado em lista para vários pontos do Brasil e para o exterior.

Com ele, não pretendia desencadear uma cruzada contra Gabriel García Márquez, nem fazendo patrulhamento do politicamente correto e muito menos pedindo a volta do "Index Librorum Prohibitorum" mas estava fazendo um chamamento para o quanto devemos estar atentos quando lemos acerca do quanto as leituras também a constituem nossa maneira de ver o mundo.

Então escrevia: “Há um livro, ainda não está traduzido para o português, mas que muito em breve chegará ao Brasil com aparatosa publicidade. Trata-se de ‘Memoria de mis putas tristes’. A edição que li traz uma cinta, com a informaçãoLançamento mundial em língua espanhola com 1.000.000 de exemplares’ e festeja a primeira novela de Gabriel García Márquez depois de 10 anos. Sim, um milhão de exemplares de uma novelinha curta de cerca de 100 páginas, sem nenhuma economia de espaços em branco, que certamente dará muito dinheiro ao nosso Nobel latino-americano e a seus editores”.

Um pouco adiante interrogava: “Uma linda história de amor? Talvez, até possamos nos seduzir pelo texto escrito com inegável lirismo... ou, é a exaltação literária de uma dolorosa mácula de nossa sociedade, onde uma menina virgem é preparada para ser objeto negociável para a perpetração (ou exemplificação) de mais uma violência contra mulheres indefesas?”

Encerrei assim minha anti-resenha: “Aqui, não ouso contradizer o nome deste tão importante sítio que faz semeaduras de livros, nem vou lançar uma cruzada nacional contra García Márquez, mas, com o mesmo empenho em que tenho dito em diferentes momentos ‘Leia Livro’ permito-me, aqui e agora, dizer que leiamos atentos acerca do quanto estas leituras também a constituem nossa maneira de ver o mundo”. Meses depois o livro foi traduzido para o português. Continua na lista dos mais vendidos.

A propósito da sessãoVocê é o autorem 30 de junho desse ano, usei-a com um propósito bem diverso. Com o textoNaquele tempo existia um homem. Ele existiu e existe, pois narramos sua história.” Parti da evocação de Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores vivo, escreveu um livro (Pessoas extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz. São Paulo: Paz e Terra, 1998) acerca de pessoas cujos nomes são conhecidos apenas pelos parentes e pelos vizinhos. Narrei, então, acerca de uma pessoa que também é extraordinária. Então contei que nos dias 7, 8 e 9 de julho, quase meia centena de pessoas se reuniria para celebrar o centenário de nascimento de Affonso Oscar Chassot, meu pai. Encerei o texto assim: Um de seus filhos lhe dedicou um livro que traz um ofertório, que certamente seria subscrito não apenas por seus descendentes e lhe evocam histórias, mas por aquelas e aqueles que o conheceram e talvez por alguns dos leitores deste texto. “Para Afonso Oscar Chassot (1906-1987), meu pai, que, mesmo nunca tendo visto seu nome impresso em um livro ou jornal, muito me ensinou: a gostar de ouvir notícias, instrumental importante para conhecer e entender a história, e a vibrar com a profissão, marceneiro hábil que era, trabalhando a madeira com amor. Para ele, este livro e estes versos, adaptados da poeta Hannah Szenes (1921-1944): Bendito o fósforo que ardeu e acendeu a fogueira! // Bendita a labareda que ardeu no âmago do coração! // Bendito o coração que soube parar com honra!" Vale dizer que além de onze ‘comente o texto’, recebi emocionadas mensagens.

Ainda na sessãoVocê é o autor”, aproveitando o ambiente futebolístico que envolvia o Brasil em busca do hexacampeonato, publiquei em 06 de junho uma historieta de amor, evocando a final da copa do mundo de 1962. Tive com ela alguns estimulantes retornos.

Talvez falte responder uma pergunta: quando escrevo as resenhas. Como podem ter visto fiz de ser resenhista um hobby. Usualmente não tenho muito tempo. Sou professor em tempo integral em um Programa de Pós-Graduação em Educação onde oriento mestrandos e doutorandos. Dou aulas na pós-graduação e na graduação que me exigem bastante preparo. Tenho também viagens profissionais a diferentes estados do Brasil em cursos e conferências. Respondo perguntas de professoras e professores acerca do ensino de Ciências no sítio ‘amaivos.com.br’. Tenho esta coluna semanal aqui no Caderno R do Jornal O Rebate. Estou ativamente no orkut, pois um grupo de professoras e professores da Bahia, fundou uma comunidade ligada ao meu trabalho com História da Ciência.

Comento isso para mostrar o quanto preciso achar tempo para escrever. Também preciso dizer que escrevo diários, numa prática que envolve um gostoso adolescer. Desde 1986 tenho para cada ano um volume, sem faltar o registro de um dia, escrevi até em salas de recuperação pós-operatória. Acerca da arte de escrever diários, escrevi um texto acadêmico, que apresentei em uma discussão mais ampla em um evento internacional dentro da temática colecionismo. Mais recentemente escrevo diariamente no meu blog http://achassot.blog.uol.com.br/ que surpreendentemente é bem visitado.

Uma das realidades que me encanta está no binômio lerD escrever. Estou, com muita freqüência, gestando textos. Brinco que não uso um laptop, mas um lapkopf. Aqui a alusão é a kopf, “cabeçaem alemão. No meu lapkopf estou, muito usualmente, produzindo textos, preparando aulas ou estabelecendo seqüências para uma palestra. Os textos são lançados no receptivo disco não tão rígido do cérebro nas vigílias de um chamar o sono, ou em insones madrugadas, ou ainda em embalos nem tão ritmados do ônibus no ir e vir para / da Universidade. Há períodos de fertilidade, mastempos em que a imagem do solo crestado é uma metáfora adequada para a esterilidade intelectual. Há momentos, ou porque a idéia parece imperdível ou porque não se confia na memória, em que o primeiro papel que se encontra recebe algumas palavras que serão chave para composições futuras. Quanta nota de compra ou verso de passagem de ônibus se transformou em portadora de senha preciosa para comandar, depois, teclares produtivos!

Logo, escrever uma resenha para o £eia £ivro se constitui, antes de qualquer coisa, em algo prazeroso. Assim, quando estou lendo livro estou pensando naquilo que gostaria de chamar atenção aos outros. Logo não é por acaso que as minhas 50 resenhas se dividam quase paritariamente entre ficção e não ficção, até porque algumas das resenhas do £eia £ivro estão nos alertas de ‘para saber mais presentes em minhas aulas. Assim, depois de algumas horas de trabalho, por exemplo, fazendo uma, às vezes, tediosa revisão de uma dissertação ou pesquisando para um seminário que tenha que dar, me premio com um tempo para me por a resenhar. Isso tem um dulçor quase erótico.

Quero registrar que tive satisfações pessoais por resenhar no £eia £ivro. Um autor premiado escreveu-me dizendo que lera minha resenha acerca de seuA margem imóvel do rio e não a agradecia, mas pedia para juntá-la em sua página pessoal. Recuperei o contato com outra autora, quando ao ler resenhaO preço da leitura’ escreveu recordando dos tempos que fora minha aluna. Resenhei ‘Uma história social do conhecimento tendo encontrado Peter Burke em um evento referi-lhe a resenha e a enviei a Cambridge. Uma delas ‘O brilho da Lua os editores do sítio encaminharam para publicação em ‘Discutindo Literatura’ [v. 5, p. 64 - 64, 01 ago. 2005] a revista que circula em suporte papel. que citei algumas de minhas resenhas, deixe-me contar aquela que mais me deu alegria em fazer, talvez porque tenha envolvido nela minha mulher. disse que tenho um sonho de ir ao cinema com a ‘Moça com brinco de pérolapara conhecer Delft.

Tenho orgulho muito especial, pois de pelo menos um de competentes e produtivos resenhistas deste sítio foi seduzido ao por mim. do Rio Grande do Norte Nelson Marques faz parceria comigo aqui no Rio Grande do Sul na disseminação do amor aos livros.

Por um capricho dos deuses que cuidam de nossas agendas, preparo ‘Uma rapsódia por uma resenha jubilar assistindo peloPortal da ABL” a posse do bibliófilo José Mindlin, na Cadeira nº 29 da ABL. Ele começa pedindo desculpas por não trazer um texto escrito, pois está com problemas de visão, mas promete aos presentes o texto ao final. Também faz reverente homenagem à sua esposa Gita Mindlin, recém falecida. Não posso deixar de recordar, quandoum ano ele assistiu uma fala minha acerca de diários como forma de colecionismo e deixou um autógrafo no meu diário, na data de 31AGO05. Vale agora receber a aula do consagrado bibliófilo. E, também por isso esse registro aqui, soube dessa transmissão e mesmo do portal da ABL pelo £eia £ivro.

Por fim, na celebração de minha 50ª resenha auguro vida longa ao £eia £ivro e cada uma e cada um de seus leitores. A minha gratidão ao Juliano, à Izabel, à Josiane, à Bel – recordo também o Leandro, a Fernanda, a Juliana parceiros de outros tempos – e seus muito competentes colegas pela maneira dedicada como mantêm o £eia £ivro. É muito bom que vocês existam. Obrigado, também por isso. vvv

Esse foi o que publiquei na £eia £ivro como “Uma rapsódia para uma resenha jubilar”. O texto recebeu alguns comentários. Reparto com as leitoras e os leitores do Caderno R um de Luciana Fátima. Ela escreveu: “Puxa! Que texto emocionante...! Se todas as pessoas tivessem ao menos uma centelha desse amor à literatura, o mundo talvez fosse um pouquinho melhor!!” Isso valeu a rapsódia.

terça-feira, outubro 24, 2006

Ratos gostam de Queijo

Ratos gostam de queijo
Há duas semanas, escrevi aqui no Caderno R uma crônica com título antípoda a de agora: “Ratos não gostam de queijo”. Trazer, agora, um assunto antíctone – numa linguagem dicionarizada, nada simpática – não significa que eu tenha mudado de opinião ou que outros cientistas tenham ratificado aquilo que era antes ‘a Verdade’ universalmente aceita. Também não significa que vá, examinar o outro lado da moeda. A partir de prosaica notícia demolidora de algo que, desde nossa infância, aprendemos ser objeto de desejo dos ratos (se é que eles têm desejos), discuti, então, tendo parceria de Feyerabend e de Kuhn o quanto há verdades científicas que aprendemos e até ensinamos e depois tivemos / temos que abandonar. Comentou-se, então, o quanto as verdades são provisórias: que hoje é tido como certo, amanhã pode não ser. Falei então da mudança de paradigmas; estes mostrados por Kuhn como modelos para fazermos descrições do mundo natural. As grandes revoluções científicas (a copernicana, a lavosierana, a darwiniana) foram trazidas como exemplos. Talvez se pudesse, uma vez mais, recordar acerca da importância de aprendermos a trabalhar com a incerteza, quando é oportuno ter presente Ilya Prigogine (1917-2003) – Prêmio Nobel de Química: “Só tenho uma certeza: as minhas incertezas!”!
Hoje a proposta é considerar o quanto a difusão de certos mitos podem lhes dar cientificidade. Isso posto, parece importante discutir a quem interessa a sedimentação de um mito. Assim, não é relevante discutir (ou até saber) se ratos gostam ou não de queijo, mas sim, reconhecer a quem interessa a ratificação de um mito. Aliás, minha frase teria um simbólico duplo significado se a escrevesse: ‘reconhecer a quem interessa o rato de um mito’ pois rato é, também, sinônimo de ratificação.
Por exemplo, aquela série de mitos sob os quais muitos de nós fomos educados, como “Não se pode comer manga com leite!”, “Uva com melancia mata!” foram inculcados para fazer com que os servos não comessem aquilo que se tinha como propriedades dos patrões. Quantos mitos relacionados com a atividade sexual eram / são usados no sentido de determinar disciplinamento dos corpos; assim se difundia que a masturbação debilita o sangue ou que faz crescer pelo nas mãos, ou acerca da maneira de se reconhecer se uma moça ainda é virgem. Já ouvi relatos, trazidos à sala de aula, de meninas que após perderem a virgindade (aliás, talvez não haja nenhuma membrana mais mitificada que o hímen) só usavam soquetes (ou carpins), pois se dizia / diz que moça de canela grossa não é mais virgem. Quanta insônia ou até medo do fogo eterno deve ter ocorrido depois de uma salutar masturbação. Ouvi contar, por um membro de uma ordem religiosa masculina sobre a existência, em tempos não muito distantes, de uma pinça nos mictórios conventuais para evitar o toque no pênis no ato de urinar. Recordo que no Colégio Marista onde fiz o Ginásio a placa “Deus me vê” era onipresente,
Assim a persuasão de não verdades e sua conversão em verdades nada tem de inocente. Ao contrário. Escrevo esse texto nos dias (2 e 29 de outubro de 2006) que medeiam os dois turnos das eleições para Presidente e para Governadores (em alguns Estados) no Brasil. Algumas ações da mídia fazem lembrar o sucesso que teve o todo poderoso Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do Reich. Esse homem talvez possa ser considerado alguém (tristemente celebre) que melhor usou a mídia para convencimento de massas. Os motivos não importavam, desde que os objetivos fossem alcançados, até porque para ele “Se uma mentira se repete um número suficiente vezes, termina por converter-se na Verdade.”
Entre alternativas propagandistícas, o superpoderoso Goebbels usou com muito êxito o cinema. Há um filme “O judeu eterno” [Der ewige Jude // The eternal jew], produzido em 1940, que foi especialmente eficiente para difundir a acusação de quanto a natureza intrinsecamente pervertida do povo judeu, preparando a aceitação pública para a deportação em massa, o confinamento e a matança. São particularmente atacados os judeu-poloneses, para justificar a tomada da Polônia, pois é um povo feio, corrupto, perverso e preguiçoso. Disseminava-se que são estrangeiros que querem tomar o mundo, especialmente os negócios e as finanças. Outras etnias consideradas inferiores: tchecos, russos, ciganos são alvo da propaganda que busca mostrar a superioridade e a pureza da raça ariana.
Por uma infame coincidência com o título desta crônica, no filme de então, se compara o povo judeu com ratos, mostrando esses roedores como espécies abjetas dentro do mundo animal. As comparações são as mais hediondas, trazendo a analogia de judeus e ratos quanto incontrolada reprodução, saque a alimentos, furtos etc.
Aliás, o filme é a trazida de um mito de 1542. Então surgia a figura que se tornaria lendária de Ahasverus
[1], o Judeu Eterno e Errante, criada pelo pastor luterano Paulus von Eitzen, quando encontrou um vagabundo barbudo com este nome numa igreja de Hamburgo. Ahasverus veio a ser o judeu que escarneceu de Jesus no Gólgota e, conseqüentemente, teria sido condenado por Cristo moribundo a uma vida errante e sem prazer até o Dia do Juízo Final; embora isto não seja encontrado em parte alguma dos Evangelhos a figura mítica se tornou vigoroso e muito difundida.
Há relatos dessa mesma figura em narrativas do século 4º, mas a figura de Ahasverus reaparece na Europa a partir de 1228, quando um arcebispo armênio, visitando a Inglaterra, mais precisamente o convento de Saint’Albans, revelou conhecer em seu país uma testemunha viva da paixão de Cristo
[2]. Pode-se imaginar a agitação trazida à religiosidade: 12 séculos depois haver uma testemunha ocular da via-sacra. Tratava-se do judeu Ahasverus, agora convertido e batizado por Ananias – que também batizara o apóstolo Paulo – com o nome de Cartaphilus. Este é o mesmo que esmurrara o Salvador quando este, sob o peso da cruz, tombara diante de sua porta.
Há detalhes apócrifos do encontro. Jesus, humilhado, açoitado e sangrando, deteve-se um mínimo instante à sua porta no caminho ao suplício. Ahasverus parou seus afazeres – ele era um carpinteiro, que trabalhava em sua tenda [há outras versões que fazem sapateiro] chegou-se para perto Jesus e, empurrando-o, esbravejou colérico: “Vai andando! Vai logo!” O condenado apenas olhou-o e respondeu-lhe: “Eu vou e tu ficarás até a minha volta!...”. Esse mito confundia-se como se tivesse a autenticidade de um relato bíblico.
Há um poema atribuído a Castro Alves em que está descrita essa saga de Ahasverus
[3]. No folclore brasileiro se diz que o Judeu Errante aparece na Semana santa, quando das celebrações dos rituais da paixão[4]. Há também uma peça teatral “Viver” atribuída a Machado de Assis[5], onde Ahasverus surge nos fins dos tempos, quando já não resta mais nenhum homem ou mulher sobre a terra, sentado em uma rocha, medita, depois sonha, dialogando com Prometeu – aquele que fora castigado por Zeus por ter dado o fogo aos humanos – para quem sua conta história acerca do ocorrido com ele no dia da crucifixão e sua condenação por Jesus a tornar-se errante.
Muitos judeus, por determinação consentida de tal mito eram mortos, mas sempre o judeu errante terminava reaparecendo em uma outra figura. E, há os que afirmam, Ahasverus está até hoje errando pelo mundo, sem caminho certo, sem morrer, mas sem descanso, esperando e esperando pela volta do Senhor. Logo, não se surpreenda se amanhã uma testemunha ocular da via-crúcis não surgir no seu caminho. Aproveite para conhecer detalhes desse momento tão significativo em que um judeu foi crucificado, mesmo que fosse o filho de Deus.
Depois desta viajada por muitos séculos aonde vimos a astúcia na construção de um mito e como esse foi usado para eliminar milhões de seres humanos, vale olharmos mais acerca do quanto mítico se confunde com religioso. Em minha infância, quando tinha cerca de cinco anos, meus pais tiveram uma menina natimorta. Como não pode ser batizada, se dizia, com muita dor – e sei o quanto todos sofríamos – com isso que ela estava no ‘limbo’. Este é para os católicos a morada das almas que, não tendo cometido pecado mortal, estão afastadas da presença de Deus, por não haverem sido remidas do pecado original pelo batismo. Essa foi uma criação de São Gregório, no século 4º, e aperfeiçoada por Santo Tomás de Aquino, no século 13. O limbo é chamado por alguns críticos mais sarcásticos de mezzanino do inferno. Recentemente (setembro de 2006) Bento 16, fez uma espécie de "reengenharia celestial" e excluiu o conceito do limbo da teologia católica. De quanta angústia teríamos sido privados se essa invenção do limbo não tivesse sido trazida para dentro da Igreja. Certamente o bondoso Papa promoveu todas as almas que estavam no limpo aos céus.
O livro A Ciência é Masculina?
[6] mostra como os mitos se constituíram / se constituem como se fossem livros sagrados de muitos povos. Há aqueles que consideram as assim chamadas ‘revelações divinas’, como aquelas que estão, por exemplo, no Gênese (criação do mundo, dilúvio...) da Bíblia judaico-cristã como míticas. Se olharmos especialmente os relatos mitológicos gregos e como ‘se construíam’ os deuses isso fica por demais evidente. Diferentes povos têm suas cosmogonias em seus relatos fundantes.
Mas olhemos os mitos com exemplificações dos dias atuais, pois parece que a Ciência muitas vezes ‘tentou sufocar’ explicações mitológica para as cosmogonias e recordar o que ensina Roland Barthes em seu livro Mitologias
[7] ao explicar como se constrói os mitos, descreve quando se refere a saponáceos e detergentes por exemplo, quando se santificou o Omo, em seu duelo – sempre vencedor – contra a sujeira ou de como esta deve ser retirada da profundidade, até porque o sabão maravilhoso é aquele que arranca a sujeira de seus esconderijos mais secretos (p. 58). Aliás, é o semiólogo francês que diz que cada objeto do mundo pode passar de uma existência fechada, muda, a um estado oral, aberto à apropriação da sociedade, pois nenhuma lei, natural ou não, pode impedir-nos a falar das coisas (ibidem p. 131), isso é fazê-las mitos. Mostro no livro A Ciência é Masculina? que parece fácil perceber, por exemplo, o quanto o mito de Pandora – primeira mulher dada aos humanos, na mitologia grega, que deve ter marcado imaginário grego; também mesmo o relato bíblico da criação e do pecado de Eva, fortemente capturados na tradição judaico cristã, nos fizeram machista.
Como encerramento, permito-me ratificar que interessa muito menos sabermos se ratos gostam ou não de queijo. É significativo que saibamos a quem interessa que vingue uma ou outra decisão. Parece importante aceitar que existem diferentes perspectivas para olharmos o mundo natural: podemos fazê-lo com os óculos das religiões, dos mitos, da ciência, do senso comum, dos saberes populares. Assim, mesmo aceitando o heliocentrismo, podemos ter posturas geocêntricas quando mudamos a posição de nossa cadeira em uma manhã de verão para nos protegermos de exposição direta do sol. É verdade que com leituras oferecidas pela Ciência é que ficamos sabendo da periculosidade de certas radiações – não desconhecendo também que foram as agressões dos humanos que fizeram com que muitas dessas radiações chegassem até nós – e aprendemos sobre a necessidade de usarmos protetores. Veja que estamos nesse caso usando o senso comum e Ciência. Quanto aos mitos, talvez valesse recordar o dito espanhol "yo no creo em brujas pero que las hay las hay"




[1] O Google oferece mais de cem mil registro à solicitação “Ahasverus“; devo registrar que não conhecia esse nome (sabia vagamente da lenda) até redigir esse texto.
[2] A Wikipédia em língua alemã http://de.wikipedia.org/wiki/Ewiger_Jude traz um extenso detalhamentos acerca de sucessivos reaparecimentos de Ahasverus em diferentes datas (1567-1868) e locais da Europa e da América, destacando também sua presença na literatura (há pelo menos cinco romances publicados na Alemanha entre 1959-2005), nas artes e na música.
[3] [www.revista.agulha.nom.br/calve148.html]. Esse poema aparece com os mesmos créditos a Castro Alves na Wikisource, a biblioteca livre http://pt.wikisource.org/wiki/ Ahasverus_e_o_G%C3%AAnio
[4] João Ribeiro, O Folclore, p.308 in CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988 (6a. ed)
[5] www.geocities.com/brasilsefarad/viver.htm Essa mesma peça teatral aparece com os mesmos créditos a Machado de Assis na Wikisource, a biblioteca livre http://pt.wikisource.org/wiki/Viver%21
[6]CHASSOT, Attico. A Ciência é Masculina? São Leopoldo: Editora UNISINOS. (2a.ed, 2006), 2003.
[7] BARTHES, Roland, Mitologias, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001

domingo, outubro 15, 2006

A Escola tem futuro?

Esta é uma crônica especial para mim no Caderno R. É minha crônica número 10. Isso é algo relevante. Gostamos de festejar números redondos. Assim celebro aqui e agora a minha 10ª crônica, sonhando com momentos em que talvez festeje a 25ª ou a 50ª, já numa expectativa mais remota penso nas celebrações da centenária – dentro de nossa simpatia pelos números redondos. Parece que se gosta menos dos números primos. Quem festeja o 17, o 53 ou o 71? Olhem como foram as badalações na virada do milênio, que recordo serem apenas marcos simbólicos no mundo cristão já que, por exemplo, nos calendários judeu ou islâmico isso ocorre em outros tempos.
Expando o do tom intimista do parágrafo de abertura e faço um outro emocionado festejamento. Faço a postagem desse texto no dia do Professor, profissão que há muito exerço com paixão. Na celebração da data há uma querida coincidência que me permito dividir com os leitores e leitoras dessa crônica. Hoje é o aniversário de minha filha Ana Lúcia. Ela é uma competente cirurgiã dentista em Estrela e também professora na UNISC em Santa Cruz do Sul muito reconhecida. Dos meus quatro filhos é a única que se envolve profissionalmente com o magistério. Assim, quando deixei a intimidade ser invadida pela emoção que se conjuga na data, permito dedicar à Ana Lúcia, uma filha muito amorosa, essa crônica, no seu ímpar aniversário – aqui o adjetivo porta um duplo sentido.
Nossos textos têm histórias. Quero matizar um pouco a construção deste. Há cerca de um mês, recebi uma mensagem eletrônica, da qual subtraio excertos e altero nomes para resguardar colegas por comentário que faço no encerramento deste texto:
Bom dia professor! Sou aluna de licenciatura numa disciplina ministrada pela professora Rosa Flores dos Campos, acho que o senhor se lembra dela. Bem, um trabalho que precisamos fazer é uma "entrevista" com diferentes pessoas, apresentando a questão: "a escola tem futuro?". Como a professora mencionou que o senhor participou de muitos eventos envolvendo o ensino, inclusive esteve aqui [...] esse ano, pensei que seria interessante ver seu ponto de vista da questão. Se o senhor estiver disposto a responder, eu agradeceria muito! Não é nada longo, apenas sua opinião, respondendo à pergunta acima mencionada. Muito obrigada pela atenção dispensada! Cristina.
Mensagem como essa são muito freqüentes. Há aquelas que nos sentimos fazendo ‘os deveres de casa’ de estudantes. Ainda quero contar aqui no Caderno R acerca de um trabalho que faço em um sítio de consultas relacionado com problemas de sala de aula. Aguardem. Sensibilizei-me com a pergunta da aluna de uma colega muito querida. Fiz uma resposta que não brotou do nada e exigiu um tempo subtraído de outros fazeres. Eis minha resposta.
Estimada Cristina, fazes-me uma pergunta difícil. Melhor seria inventar que não tenho tempo (o que não seria falso) e dizer que não posso atender teu pedido. Mas sendo uma questão catalisada pela querida e muito especial Professora Rosa não posso furtar-me. Aliás, perguntas-me também: “acho que o senhor se lembra dela?” Quem pode esquecer uma criatura tão amável e competente.
Mas esse preâmbulo todo pode parecer para não responder tua pergunta: "A escola tem futuro?" Vou tentar responder. Vê que esse tentar me exime de qualquer pretensão de saber responder.
Talvez devêssemos perguntar primeiro de que Escola estamos falando. Então, antes de falar de futuro eu trago uma outra questão para o presente: A Escola mudou ou foi mudada? Tenho algumas respostas para isso.
A Escola mudou? A Escola foi mudada? Recordo o período de final do meu curso primário
[1], quando se fazia análise lógica se classificavam as ações verbais como estando na voz ativa ou na voz passiva. Isso era matéria certa no exame de admissão[2]. Surge, agora a pergunta: A Escola mudou ou foi mudada? Talvez possa parecer irrelevante se a Escola seja o sujeito ou o predicado. No contexto de mudanças em diferentes setores, a Escola não é algo exótico ao mundo onde está inserida e dele faz – necessariamente – parte. Talvez se possa apenas dizer: se a Escola ainda não mudou, ou ainda não foi mudada, ela deverá necessariamente mudar!
A Escola - na acepção de instituição que faz ensino formal, em qualquer nível de escolarização - nestes tempos de globalização está sendo mudada. E, estamos nos referindo a algo em um amplo espectro, que vai desde a Escola infantil até a Universidade. As mudanças ocorrem em qualquer estabelecimento envolvido formalmente em Educação.
Não vou fazer, aqui e agora, comentários dos apossamentos que faz Organização Mundial do Comércio da fatia Educação para dirigir sua voracidade por lucros, onde se favorece a comercialização internacional dos serviços da Educação como uma mercadoria qualquer. Parece não existir outro bem comerciável que segure um consumidor cativo por quatro ou mais anos, como o estudante que “compra ensino” de uma Escola. Pois para os que fazem comércio da Educação a resposta é óbvia: a escola tem futuro.
Quando olhamos as fantásticas transformações nos cenários do trabalho, onde a cada dia nos surpreendemos com inovações e com o alijamento de homens e mulheres de postos de trabalho, não nos damos conta da rapidação com que acontecem estas modificações. Parece que estamos falando de tempos quase jurássicos, quando se diz, por exemplo, que há 15 anos, não conhecíamos telefone celular, fax, CD ou Internet. Os discos de vinila com 78, 45 ou 33 rotações por minuto, são algo de um passado tão distante, quando era para alguns de nós o gramofone, com corda manual e reprodução que classificávamos de “taquara rachada”. O novo se faz velho rapidamente. Basta nos darmos conta da dificuldade que temos, por exemplo, em classificar se um determinado modelo de telefone celular é novo ou não, tão rapidamente este se desatualizam.
Recordo seguidamente uma charge publicada na primeira semana de janeiro de 1999, no USA Today
[3] que traduz um pouco essa nossa dificuldade em lidar com este conceito de “um novo que se faz quase repentinamente velho”. Um cliente chega a uma loja com um computador, logo depois das festas de Ano Novo, e diz: “Eu quero trocar este computador por uma versão mais nova e atualizada!” A vendedora pergunta-lhe: “Você o tem há muito tempo?" Ele responde: “Desde o Natal...” Na maioria das vezes, lamentavelmente, já nem trocamos muitos de nossos fantásticos equipamentos. Eles se fazem apenas algo descartável. Somos cada vez mais geradores de uma significativa quantidade de lixo tecnológico.
Hoje, quando temos que viver – diria mais, adequadamente, suportar a vida – sem computador por algum tempo ou se estamos impossibilitados ao acesso do correio eletrônico ficamos desconcertados. Parece que nos tornamos impotentes em muitos de nossos fazeres. Aqueles que acham que exagero, dêem-se conta de quantas neuroses nos afligem estas máquinas tão poderosas, que nos fazem paradoxalmente cada vez mais impotentes (no trato com elas).
Como essas modificações, que estão presentes no cenário mundial, repercutem na Educação, ou mais especificamente nas nossas salas de aula? E talvez aqui, Cristina, começo a responder tua pergunta. Não temos dúvidas a respeito do quanto a globalização confere novas realidades à Educação. Há os que dizem que a Escola não mudou. Se não mudou, foi mudada nestes últimos anos. Assim, uma Escola diferente, tem futuro, sim. O dito conservadorismo da Escola, marcado por suas origens na aurora da modernidade manteve-se por mais de quatro séculos numa quase artesania, que não mais resistiu ao ocaso do século 20. Hoje já se fala em Bibliotecas sem livros. A educação a distância é uma realidade irreversível, mesmo que com razão ainda questionável. A realidade desta aurora trimilenar já é muito diferente daquilo que nós – homens e mulheres do século passado – vivemos há não pouco tempo.
Também, não preciso destacar as fantásticas modificações no mundo de hoje e de quanto estas atingem – e uso este verbo na sua plenitude de significados - a Educação, ou mais especificamente, as salas de aula. Não temos dúvidas do quanto a globalização confere novas realidades à Educação. Talvez, para uma facilitação, pudéssemos fazer nossas olhadas em duas direções. Primeira, como são diferentes as múltiplas entradas que o mundo exterior faz na sala de aula e, a outra direção, como esta sala de aula se exterioriza, atualmente, de uma maneira diferenciada.
Sobre a primeira das situações não precisamos fazer muitas ilustrações. Comparem, por exemplo, o quanto eram clausuradas às invasões externas, as Escolas de nossos avós em relação às interferências do mundo externo com as que existem em nossas salas de aulas hoje. A Escola era referência na comunidade pelo quanto ela detinha o conhecimento. Quanto à segunda, consideremos apenas a parcela de informações que nossos alunos e alunas trazem hoje à escola. Aqui temos que reconhecer que estes, não raro, superam as professoras e os professores nas possibilidades de acessos às fontes de informações. Há situações, onde temos docentes desplugados ou sem televisão, que ensinam a alunos que surfam na Internet ou estão conectados a redes de TV a cabo perdendo a Escola (e o Professor) o papel de centro de referência do saber. A proletarização dos profissionais da Educação os faz excluídos dos meios que transformam o Planeta, onde a quantidade e a velocidade de informações o faz parecer cada vez menor. Esse é o trágico em não poucas das contemplações da Escola hoje.
Assim, parece que se pode afirmar, que a globalização determinou em tempos que nos são muito próximos uma inversão no fluxo do conhecimento. Se antes o sentido era da Escola para a comunidade, hoje é o mundo exterior que invade a Escola. Assim, a Escola pode não ter mudado; entretanto, pode-se afirmar que ela foi mudada. Não há, evidentemente, a necessidade (nem a possibilidade) de fazermos uma reconversão. Todavia é permitido reivindicar para Escola um papel mais atuante na disseminação do conhecimento. E, talvez não diríamos isso há 10 anos. Isso determina a existência de dois tipos de professores.
O professor informador – refiro-me àquela ou àquele que se gratifica com ser transmissor de conteúdo – está superado. Ele é um sério candidato ao desemprego ou será aproveitado pelo sistema para continuar fazendo algo (in)útil nesta tendência neoliberal de transformar o ensino (não a Educação) em uma mercadoria para fazer clientes satisfeitos, como apregoam os adeptos da Qualidade Total.
O professor formador ou a professora formadora será cada vez mais importante. Por paradoxal que possa parecer, a melhor receita para esse novo educador é ensinar menos. Não é o quanto se sabe que nos faz diferente. O decisivo é como se sabe descobrir novos conhecimentos e, especialmente, como usá-los. Os pregoeiros do conteudismo ou aqueles que valorizam o saber de cor ou memória mecânica, muito provavelmente se horrorizam ante esta alternativa para um novo fazer Educação. Em homenagem a eles me permito repetir: a melhor receita para educador deste novo milênio, muito provavelmente é ensinar menos.
Assim, sonhadoramente, podemos pensar a Escola do futuro – logo ela tem futuro – como sendo pólo de disseminação de informações privilegiadas. Há uma quase certeza, que é a Escola e também a Educação não formal, que transformará nossas alunas e nossos alunos em cidadãs e cidadãos mais críticos. Estas são utopias – e aqui acredito que tenha como parceiro a ti Cristina e a cada uma e cada de alunas e alunos da Professora Rosa – que a Educação possa ser cada vez transformadora do mundo em que vivemos e o transforme para melhor. É isso que quer ser para num Futuro da Escola.
Acho que respondi, pelo menos um pouco, Attico Chassot. Morada dos Afagos, na overture da primavera de 2006.
Essa foi a resposta que enviei à solicitante em 22 de setembro. Quando já havia enviado a Cristina esse texto a cerca do futuro da Escola, sonhando que novas tecnologias ajudem a professoras e professores a fazer melhor Educação, vivi uma experiência, no terceiro turno de um dia de trabalho assim registrada assim em meu blog: “Cheguei não muito de São Leopoldo, tomado de dois sentimentos. Um de revolta. Não recordo que já tenha me sido oferecido tão precárias condições de trabalho. Quando me avisaram que não teria data-show, para uma palestra que Dora convidado, gastei em lâminas para retro projetor. Lá chegado havia um aparelho para ser dividido com mais duas colegas em outras salas. Faltava tudo e as alunas e os alunos, isso é 25 professoras e professores da área de Ciências, também se sentiam humilhados. Isso que esse curso para o qual fora convidado se diz ser integrante de um convênio 2ª CRE/UNISINOS/UNESCO. Por outro lado, foram fortes as emoções em dar nesta noite aula em uma mesma sala que há 42 anos dera aula de Química. Em 1964, quando do golpe militar eu era também presidente do Grêmio de Professores do Colégio Pedro Schneider. Desde então nunca mais havia voltado àquela Escola. Não preciso dizer mais. Talvez, acrescentar ainda, que aquela sala de aula parou no tempo. Afortunadamente, eu não.” Acredito que os leitores e as leitores aderem comigo à minha sensação de revolta e também à forte emoção que é retornar a mesma sala de aula e encontrá-la talvez pior em termos de recursos.
Uma informação suplementar. A Cristina, a distinta destinatária da parte central deste texto que se crônica no dia das professoras e dos professores, mesmo decorrido mais de três semanas de minha mensagem, nunca se manifestou em resposta. Teria sido bom se eu houvesse recebido um ‘obrigado’. Não precisava nem comentar. Talvez ela não tenha recebido a resposta.
Mas a Escola tem futuro e com esse texto homenageio – e arvoro-me a fazê-lo também em nome do Caderno R – a cada um e cada uma dos homens e mulheres que têm no fazer Educação sua profissão. Vale a pena com nossa profissão, sonhadoramente, ajudar transformar o mundo para melhor.
[1] Até a reforma do ensino que ocorreu com a lei 5692/71 que alterou o ensino anterior a Universidade, os atuais oito anos de ensino fundamental, eram divididos em dois ciclos: cinco anos de ensino primário e quatro de ensino ginasial.
[2] O acesso ao ginásio – de duração de 4 anos – se dava através do “exame de admissão” que era realizado independente (que poderia ser em outra Escola) da situação de se estar aprovado ou não no 5º ano primário.
[3] Charge reproduzida na p. 1.6 da Folha de S. Paulo de 08 jan. 99