quinta-feira, setembro 14, 2006

Uma outra leitura do 11 de setembro de 2001.

Escrevo esse texto em 11 de setembro. Esta é uma crônica datada, sobre o ocorrido há cinco anos. Não vou trazer extensos comentários, aqui e agora, acerca do trágico e global 11 de setembro de 2001. Os jornais de hoje e os do fim de semana rememoram isso a rodo. Soubemos, por exemplo, que o grande xerife do mundo, aquele responsável por milhares de mortes no Afeganistão e no Iraque, hoje, com compunção, reza pelos mortos de então. Espera-se que seja uma atitude não fingida.
A propósito do número de mortos, nunca é demais recordar o que já disse em Os desertos também podem ser verdes, neste Caderno R: houve quase três mil pessoas mortas, quando do ataque às torres do WTC em Nova Iorque, sem dúvidas inocentes e mártires de fundamentalismos; estas têm sido muito recordadas - e não sem merecido pesar – mas, não se pode esquecer que o cada dia morre cerca de 30 mil pessoas (sim, a cada dia morre o equivalente a 10 vezes os mortos no 11S!) por falta de água e de esgoto. Dessa informação vale, questionar também as responsabilidades sociais da Ciência. A pergunta que mais uma vez não nos deixa calar: quem chora por esses que morrem a cada dia devido à insensibilidade daqueles e daquelas que apenas se preocupam em fazer crescer o seu lucro? É talvez nessa voracidade do capital que se traduz, mais uma das vinganças odiosas daqueles que se insurgem contra as nações mais poderosas do Planeta, quando os bens essenciais são sonegados a alguns, mesmo enquanto outros desfrutam das mais sofisticadas benesses da tecnologia.
Como anunciei, esse texto é sobre o meu 11 de setembro de 2001. Perdoem-me leitoras e leitores do Caderno R se hoje dou azo ao meu lado intimista e fale de um 11S diferente. Cada uma e cada um que me prestigia aqui com sua leitura terá evocações de onde estava e do que fazia na metade da manhã (horário de Brasília) daquele dia em que a primavera se antecipava no hemisfério Sul. Ainda hoje sabemos dizer de nossas surpresas e do quanto migramos da incredulidade para assumir a dura realidade de catástrofe. Vimos também, repetido ad nauseam, como os aviões terroristas violaram todas as regras de segurança e se abateram primeiro em uma e depois na outra torre.
No recesso natalino de 2005, estive a primeira vez em Nova York e fui visitar o local. O que mais me impactou, então, foi como os imponentes edifícios em volta as duas torres permaneceram intactos. Quanta destreza e conhecimento de aerodinâmica envolveu o atentado. Mas me permitam repartir o porquê meu 11S de cinco anos passados foi inesquecível.
Há uma razão muito especial. Mesmo que eu também comungasse do transtorno global ante ao inusitado, minhas evocações têm dimensões muito pessoais. No exato momento em que Nova Iorque e Washington foram tomadas de um pânico inédito, que se espalhou pelo Planeta, minha mãe, era enterrada, aos 92 anos, no bucólico cemitério do Faxinal, em Montenegro. Naquele dia praticamente todos os meus colegas do Programa de Pós Graduação em Educação da UNISINOS se juntaram à dor que dividia com meus familiares e unindo-se a dezenas de pessoas da Comunidade montenegrina para homenagear àquela mulher, que mesmo sendo apenas conhecida por parentes e vizinhos era uma figura extraordinária, como ensina um dos maiores historiadores vivo, Eric Hobsbawm, em seu livro Pessoas extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz (São Paulo: Paz e Terra, 1998)
Quando deixava o local, cercado de bergamoteiras que douravam ao sol os últimos frutos da safra, recebi os primeiros informes da tragédia. No retorno à Porto Alegre a Gelsa e eu éramos alimentados por notícias. Chegado em casa adormeci para me reconfortar da noite insone em que pela última fiquei, fisicamente, com minha mãe. Mais tarde parecia que assistia a um filme de ficção. Não havia outras notícias no Planeta: tudo se relacionava às suas torres.
Pode ser senso comum, mas vi então, e ratifico agora, passado cinco anos, que sempre é prematuro se perder a mãe. Mesmo já sexagenário e ela se aproximando do centenário, parecia / parece que ainda não era hora de vê-la ser sepultada ao lado de meu pai, ali já há 14 anos. Assim, me condôo sempre quando sei de mortes de jovens mães, pois então temos crianças tornando-se órfãos.
Maria Clara Volkweiss Chassot (1909-2001) foi esposa, mãe e avó extremosa. Foi por um tempo professora e uma dedicada líder comunitária, tendo na produção artesanal de flores e adornos para vestidos de festas uma fonte de suplemento à magra pensão que recebia da aposentadoria de meu pai Afonso Oscar Chassot (1906-1987) que fora ferroviário aposentado. Sobre ele escrevi Naquele tempo existia um homem. Ele existiu e existe, pois narramos sua história, que está em www.leialivro.com.br/texto.php?uid=9854 Minha mãe continua uma presença nos muitos ensinamentos que deixou, alguns dos quais estão recordados no capítulo Presenteísmo é uma conspiração contra o passado que ameaça o futuro do meu livro Alfabetização científica: questões e desafios para Educação (Ijuí: Editora UNIJUí 2000 [4ªed 200]), quando revisito a cozinha de minha infância, no início da segunda metade do século passado. Para mim é muito bom repartir com os leitores e leitoras do Caderno R evocações que para mim são prenhes de emoções. Recordo por exemplo, que há mais de 60 anos, quando ainda não era alfabetizado, minha mãe me ensinou a responder as orações da missa em latim – língua litúrgica dos cultos da Igreja Católica a qual ela era vinculada com fervor – sem que também ela entendesse o que poderia estar significando: “Dominus vobiscum!, Sursum corda!, Orate fratres! ou Ite missa est!” Lembro de sua angustia em muitos noites, quando se interrogava: ”O que vou cozinhar amanhã” pois sabia que os sete filhos e o marido precisavam ser alimentados no dia seguinte.
No texto do Alfabetização científica que antes referi narro diferentes trabalhos domésticos que hoje não são mais parte das rotinas de crianças urbanas, como arrumar o fogo para o dia seguinte, ajudar na produção do pão, no carneio do parco, criação de galinhas... Dou destaque a apenas uma.
Tratava-se de um trabalho doméstico que era sazonal. Ocorria nas férias de verão e coincidia com a época da maturação da goiaba, da pêra, da uva... Então se preparava a “schmier” ou “chimia” – é uma geléia para passar no pão. No Brasil de influência alemã, a chimia é algo indispensável no café da manhã – ou a goiabada, a perada para um ano inteiro. Esta importante produção caseira, que movimentava toda a família exigia, muitos fazeres, que começavam com a aquisição das frutas. Na noite anterior ao cozimento das tachadas a família era envolvida no descascar e moer as frutas. A produção de goiabada era mais exigente pois os frutos, cujos odores ainda estão presentes no meu imaginário, tinham que ser muito selecionados, pois era usual estarem bichados. Havia também a necessidade de a criançada ser contida no comer exagerado de goiabas, não apenas porque o maior consumo diminuiria a produção, mas, principalmente, porque se dizia que as sementes poderiam causar um entupimento que dificultaria depois a evacuação. Uns descascavam e outros moíam as frutas. Para a moagem era usada uma máquina de moer carne manual. Aliás, esta ferramenta era algo presente em qualquer cozinha de então e era usada, além de sua finalidade primeira (a carne), para a moagem de frutas, massas, amendoim. O preparo de derivados da uva tinha outros detalhes, pois não havia a etapa da moagem.
A etapa mais trabalhosa começava no dia seguinte muito cedo. Um grande tacho de cobre era colocado sobre um tripé com fogo. Começava então a demorada etapa de mexer a massa durante o cozimento. Mexer a massa com longa colher de pau era uma tarefa que nos envolvia com duas dificuldades: a fumaça que atingia os olhos e os respingos ferventes da massa que era cozida. Para cada um destes dolorosos inconvenientes nos preveníamos com diferentes habilidades, como óculos e proteções para as pernas. Dividíamo-nos em jornadas de trabalho, e muitas vezes o quarto ou plantão de um mexer era negociado com o outro. O momento mais esperado era aquele em que se via o fundo do tacho, o que indicava que a operação chegava próximo de seu sonhado final. Então as etapas de cada um diminuíam de ½ hora ou ¼ de hora para 5 ou 10 minutos. A habilidade dos mexedores era medida pelo fato de não se deixar queimar nada no fundo do tacho. Havia descontentamento entre os mexedores quando uma tachada ou parte desta era destinada a ser cozida por mais tempo para ser endurecida para que tivéssemos depois, em nossas merendas, uma fatia de goiabada ou de perada. Mais açúcar era colocado no tacho e vinha então mais um bom tempo de mexidas com respingos e fumaças.
Ao final havia uma premiação. Podíamos raspar o tacho, e sempre havia uma recomendação muito repetida: fazê-lo rápido, pois o azinhavre ou zinabre – camada verde de bicarbonato de cobre que se forma nos objetos de cobre expostos ao ar e à umidade – que se formava era venenoso.
Um trabalho seguinte, ainda relacionado com este fabrico, era o embalar a produção. A chimia que serviria para ser passada no pão era embalada em latas, que, rotuladas com datas e tipo de frutas, eram armazenadas na despensa. Aquela destinada ao endurecimento para depois ser fatiada era colocada em caixas de madeiras revestidas internamente com papel encerado e que também eram rotuladas antes do armazenamento. É fácil imaginar a provisão que precisava ser feita, em uma grande família, para durar até o próximo verão, quando de novo haveria frutas.
Assim parece fácil imaginar o quanto desde ontem, dia do quinto ano de sua morte e hoje dia da recordação de seu sepultamento sua memória está forte comigo. Aliás, as evocações lutuosas de ontem foram catalisadas pela estada durante algum tempo no cemitério judaico da cidade de Santa Maria, que tem assemelhados ao cemitério do Faxinal por seu jeito campesino. O campo santo é lugar de recordar a vida dos que foram, como ensinou ontem o Rabino Jehuda, convidando a que as tristezas fossem substituídas por recordações dos que ali jaziam. A Gelsa eu fôramos para lá na véspera para a descoberta da matzeiva – uma celebração judaica para a inauguração da lápide tumular em até um ano após a morte de uma pessoa – de Jacob Salomão Seligman (1923-2005). Reverenciar o médico e humanista foi muito significativo. Lembro-me que o tio Salomão – um precioso tio que me foi presenteado, juntamente com a doce tia Teresa, no meu casamento com a Gelsa – tinha orgulho de ter sido Professor. Foi diretor da Faculdade de Medicina da UFSM, que ajudou a fundar integrando a primeira Universidade Federal numa cidade que não fosse capital de Estado.
Assim parece fácil que meu 11 de setembro tenha também marcas de saudades. É muito bom poder reparti-las para leitoras e leitores do Caderno R.

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