domingo, setembro 03, 2006

Um périplo para disseminar cultura

O 24 de agosto tem marcas tristes tanto na história da civilização ocidental e também na brasileira. Recordamos que em 1572, na assim chamada Renascença, um número não definido – fala-se em algo entre 20 e 70 mil – de protestantes franceses (huguenotes) foram mortos por ordem da casa real católica francesa, liderada pela Rainha-mãe Catarina de Médici. A mortandade – mais uma em conseqüência de divergências religiosas – é conhecida como ‘Noite de São Bartolomeu’ pois dia 24 é a celebração litúrgica deste Apóstolo. No Brasil, a mesma data, em 1954, recordamos não apenas o suicídio de Getúlio Vargas, então presidente da República, mas também os atos de vandalismo que se seguiram em manifestações populares em diferentes cidades do Brasil.

Pois este meu 24 de agosto de 2006 também se fez histórico e afortunadamente de maneira festiva. Na minha memória, a data terá um novo marco: dia que falei acerca da Ciência como um óculo para ver o mundo natural para professoras e professores de Biologia e Química em três cidades diferente Ijuí, Cruz Alta e Santo Ângelo, e se adicionar Horizontina, onde falei na noite anterior, são quatro cidades em 21 horas. Se computar aos quase 400 km percorridos entre as quatro cidades, às duas viagem de 410 km que separam Porto Alegre de Ijuí, são mais de 1.200 km percorridos para esta maratona de falas.

Penso que vale a pena detalhar um pouco o contexto que tudo isso ocorreu. Como entrei nesse turbilhão apropriadamente chamado de Circão da Cultura? No entardecer da sexta-feira, dia 18, recebi um correio eletrônico, do qual transcrevo excertos: Professor Chassot! Que prazer em ter conseguido, finalmente, contato com o senhor. Já estava há vários dias tentando encontrá-lo [...] É o seguinte: sou coordenador do evento Circão da Cultura em Ijuí, que está na quarta edição. Este ano ocorreram todos os problemas possíveis na organização do mesmo: greve prolongada de professores, confusão que a Varig criou para deslocamento de palestrantes e outras mais. Havíamos até abortado a idéia de fazer o evento neste ano, porém, havia muitos professores querendo que o mesmo acontecesse. Então, um pouco de última hora estamos tentando viabilizá-lo. O mesmo estará, nos dois primeiros dias, ocorrendo por áreas do conhecimento: Matemática e Física, Química e Biologia, Gramática e Literatura, Educação Infantil e Séries Iniciais, História e Geografia. As palestras (oficinas) estarão ocorrendo em 4 pólos (Ijuí, Santo Ângelo, Horizontina e Cruz Alta). Então, como seu nome é muito forte na região, gostaria de ver a possibilidade do senhor fazer oficinas para o grupo de Química e Biologia, as quais acontecerão no próximo dia 23 (noite) e 24 de agosto. Os públicos terão em torno de 40 a 60 professores, provenientes de 68 cidades de toda a região. [...] Peço que o senhor pense com carinho e atenda a solicitação de um grande número de professores e esteja conosco neste evento. Peço gentileza manter contato o mais rápido possível para que possamos nos organizar. Grande abraço e fico no aguardo de um breve contato seu. Obrigado, Carlos César Inácio. Respondi, quando já preparava o fogo na lareira para iniciar o shabath: Meu caro Carlos César, isso é semana que vem!... Por sorte estou com esses dois dias livres. Aceito com prazer. Entremos logo em contato para detalhes. O fim de semana transcorreu sem notícias e imaginei, que tudo não passara de uma mensagem perdida, como tantas que ocorrem na Internet.

Na segunda-feira, na metade da manhã recebo uma mensagem: Professor Chassot, tudo ok. Que "baita" notícia saber que o senhor estará conosco. Só peço gentileza informar tema da palestra e recursos necessários. A Regina já está cuidando do seu deslocamento e estará enviando notícias na data de hoje. Obrigado. Carlos. Apenas entrou uma perturbação no sistema. Pensava que seriam oficinas e agora se pedia título de uma palestra. À tarde, vejo que a situação está mais que definida, quanto a viagem, pois recebo outra mensagem. Boa Tarde, professor Chassot! Estamos contentes com a sua vinda para viabilizar a sua passagem no dia 23, com saída de Porto Alegre, às 12h45min, por favor, dirigir-se ao guichê da Ouro e Prata na rodoviária na ala internacional e apresentar a sua identidade que sua passagem já está lá ok. Regina. Mas como segundas-feiras tenho três turnos na UNISINOS, a notícia pouco me ocupou. Na terça-feira a Regina me telefona e ajunta alguns esclarecimentos. Devo realmente viajar no dia seguinte, pois teria uma fala à noite. A história da palestra continuava nebulosa.

Na manhã de quarta-feira, preparo uma exposição centrada em uma alternativa de uma oficina, para um entorno de 2 horas, pois sabia que teria duas falas por turno tendo como tema: “Ciência: um óculo para ver o mundo natural” coloco, ainda, no pen-drive a palestra “A Ciência é masculina? E, sim senhora! ” que já fiz dezenas de vezes. Poderia precisar.

Vou a Rodoviária. Havia passagem para mim. A bordo do ônibus, vejo-me acidentalmente com dois vizinhos, que de sua conversa deduzo serem parceiros comigo na jornada missioneira. Nos identificamos: um era o escritor Carlos Urbin e outro o físico e romancista Carlos Alberto do Santos, autor do premiado “O plágio de Einstein". Não sabiam muito mais que eu acerca de nossa missão.

Chegamos a Ijuí, no entardecer de quarta-feira. Dizem-me levar ao Hotel para um descanso, mas sou informado para em CINCO minutos estar na Portaria. Desço e sei que minha primeira fala é em Horizontina. Uma van leva-me com mais quatro ‘missionários’. Estão comigo os professores Luis Dante da UNESP de Rio Claro, que falará a professoras e professores de Matemática e Física, Nelson Piletti, para Geografia e História, o editor e romancista Walmor Santos da área de Gramática e Literatura e a professora Maria Helena Zancan Frantz, de Ijuí, para trabalhar com professoras e professores de Educação Infantil e Séries Iniciais. Vencidos os 85 km, estávamos em mesa de abertura de um evento, com o Prefeito de Horizontina e outras autoridades municipais da região no ginásio do Colégio Cristo Rei. Desfeita a mesa, falei, então, para um grupo de professoras e professores de Biologia e Química. Voltamos, então para Ijuí.

Retornados ao hotel, só então, entendi o esquema do evento. Havia quatro quintetos que se alternariam nas quatro cidades-pólos de 68 municípios da região. Assim, na quinta-feira, com os mesmos colegas que comigo foram a Horizontina na noite anterior, iniciamos nossa peregrinação por Ijuí, com uma fala na Faculdade Geração Positiva, em Ijui. É esta novel instituição de ensino superior de Ijuí é que movimenta mais de duas mil pessoas no Circão da Cultura.

Ainda na manhã de 24 de agosto, depois da fala em Ijuí, o mesmo quinteto se deslocou nua viagem de 45 km para Cruz Alta. Na terra natal de Érico Veríssimo, falei uma vez mais para professoras e professores de Química e Biologia que estavam reunidos do Instituto de Educação Annes Dias. Após almoçamos com Prof. Rui Camini, coordenador da Faculdade Geração Positiva. Logo em seguida percorremos os 90 km que separam Cruz Alta de Santo Ângelo.

A tarde foi mais tranqüila, pois nosso quinteto fazia apenas a segunda série de palestras da tarde em Santo Ângelo. Falei, uma vez mais para colegas de Química e Biologia, das 15h30min às 17h no Centro Municipal de Cultura. Imediatamente fizemos os 45 km de retorno a Ijuí, com expectativa que meu retorno fosse às 19h... e era às 18h05min, mesma hora que chegava no hotel. Para minha sorte, deixara tudo pronto na portaria e ônibus que vinha de Santa Rosa atrasou um pouco o embarque. Cheguei um pouco depois da meia-noite em Porto Alegre ... muito feliz como minha gratificante jornada.

Uma decepção que também é uma prova do intenso rodar que vivemos. Um dos outros palestrantes que falou, ora antes, ora depois de mim, a colegas de Biologia e de Química foi o autor consagrado de livros didáticos de Química Antônio Lembo. Há anos buscamos nos encontrar. Quando vi seu nome na programação, disse-me: “É hoje!”, mas como ele me escreveu depois: “Quase deu! ... desta vez bateu na trave!’ Não nos vimos, mesmo tendo estado no mesmo período nas mesmas quatro cidades.

Há ainda algo a contar acerca do evento. Na sexta-feira, os participantes que assistiram atividades em Horizontina, Cruz Alta e Santo Ângelo convergiram à Ijuí, onde os cerca de 2000 participantes tiveram atividades conjuntas, com renomados conferencistas e espetáculos teatrais.

Ver uma instituição como a Faculdade Geração Positiva que hoje já marca positivamente o Noroeste do Estado catalisando a disseminação do saber é algo que merece aplauso, até porque o Carlos César Inácio e Rui Camini parecem estar conscientes de que o que separa os ricos dos pobres – não apenas as pessoas como os países – é que estes não têm apenas menos bens, mas é o fato de que a grande maioria deles está excluída da criação e dos benefícios do saber científico. É responsabilidade de uma instituição de ensino ajudar a minimizar essa exclusão. O Circão da Cultura – que sabe captar os incentivos da LIC – é um artefato cultural excelente no fazer que mais gente tenha acesso ao conhecimento.

1 Comentários:

  • Caro professor Chassot,

    costumo fazer uma varredura na internet em busca de notícias sobre o livro "O plágio de Einstein".
    Entre surpreso e contente cheguei no seu blog e na sua bela descrição sobre o Circão da Cultura.
    Grande abraço e obrigado pela referência ao livro.
    carlos alberto

    Por Anonymous Carlos Alberto, às 10:25 PM  

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