domingo, setembro 17, 2006

Um preito a Edward Said (1935-2003) na evocação dos três anos de sua morte

Este texto é dedicado a

Gelsa Knijnik,

cuja paixão intelectual por Edward Said me levou a admirá-lo.


Escrevo catalisado por duas dimensões: a primeira um presente que recebo de meu querido amigo e colega Mansur Lutfi, da direção do Instituto de Cultura Árabe: um livro sobre o intelectual Edward Said; a segunda, a recordação especial que merece o próximo dia 25 de setembro: a evocação da morte de Said ocorrida há três anos, após 11 anos de luta contra a leucemia. Assim, aqui neste Caderno R, minha singela homenagem, na lembrança de uma notícia que em 2003, comovia a muitos: “O intelectual palestino Edward Said morreu nesta quinta-feira, dia 25 em Nova York, aos 67 anos, após uma longa batalha contra a leucemia, afirmou à imprensa um colega da Universidade de Columbia”.

Paradoxalmente, minha homenagem a um pacifista, começa com a trazida de algo que não tem marcas de amor. Nos dias em que fluíam no Ocidente e no Oriente comoções pela morte daquele que defendia a existência de um estado palestino e de um estado judeu, homens e mulheres de fé judaica, celebravam o dia do perdão, dentro dos rituais que envolviam a passagem de mais um ano novo. Nesse clima próspero à contrição, um articulista da Folha de S. Paulo, escreve um artigo virulento e marcado pelo ódio e pelo racismo. Recordo bem, o anoitecer de 29 de setembro, uma segunda-feira primaveril, ao chegar da universidade e, então tive acesso ao jornal. A leitura daquele artigo me contristou, e mais me revoltou. O artigo começava assim: “[...] a leucemia que, há poucos dias, matou Edward Said prolongou-se o bastante para que o polemista e ativista político radicado nos Estados Unidos pudesse assistir à falência de seus projetos e expectativas”. Imediatamente escrevo para a coluna do leitor do jornal: “Quando o senhor Nelson Archer escreveu seu antinecrológio de Edward Said poderia ter lembrando de uma recomendação dos romanos: "Dos mortos, nada a não ser o bem! ou a sabedoria popular que diz: "Em cachorro morto não se bate!". Lamentável e doloroso seu texto na contracapa da Ilustrada desta segunda-feira, escrito quando parece se devia estar vivendo tempos de perdão. A um cronista destes não pode causar espanto que alguém atire bombas, pois ele semeia ódio. Attico Chassot” . Claro que, mais uma vez, minha carta não é publicada.

Mas, evidentemente não fora eu o único violentado com artigo. Em São Paulo um grupo de intelectuais lideram um manifesto, que em poucas horas colhe 187 assinaturas com os mais expressivos nomes (como Antônio Candido, Celso Furtado, Francisco de Oliveira, Marilena Chauí, Emir Sader, Roberto Schwartz, Jacob Gorender, Milton Hatoum...) e enviam ao jornal clamando: “O artigo [...] é uma ofensa a todos os que alimentam – como fez o intelectual palestino durante toda a sua vida – a esperança de ver israelenses e palestinos conviverem em paz, com justiça. O escrito é de uma baixeza deliberada e covarde, que merece repúdio e não resposta”. Desta vez, ante a quantidade e significância dos signatários, a Folha de S. Paulo publicou o texto, no Painel do Leitor de 4 de outubro, com uma parte dos nomes das quase duas centenas de signatários.

E aqui um paradoxo, ou melhor, uma confirmação da sabedoria popular: Há males que vêm para o bem. O infame texto de Nelson Arché, marcado pela vilania, não apenas catalisa o manifesto de desagravo, depois conhecido como o Manifesto dos 187. A ele segue-se em 11 de dezembro de 2003, em São Paulo, no Clube Homs um “Ato em Homenagem a Edward Said”, com a presença de intelectuais brasileiros de proa, sendo que vários destes apresentam distinguidas contribuições acerca do homenageado. Deste ato surge o livro que referi no parágrafo de abertura e que comentarei adiante. Mas há outro produto significativo da homenagem.

Ela termina por ser o gérmen de cristalização para surgimento do Instituto de Cultura Árabe – vale visitar o sítio www.icarabe.org – o que ocorreu em outubro de 2004. Claro que é inadmissível sonhar que o ICARABE venha ter as dimensões portentosas do Instituto do Mundo Árabe, às margens do Sena em Paris. Mas ele busca não apenas congregar os cerca de 10 milhões de brasileiros de origem árabe, mas valorizar uma cultura que está fortemente presente no Brasil, como por exemplo, na existência em nossa língua portuguesa cerca de 3 mil palavras de origens árabes, incorporadas especialmente nos sete séculos (do 8º ao 15) quando a península hispânica foi árabe.

Sem pretender na limitação deste texto fazer uma biografia, vale recordar que Said nasceu em Jerusalém, no seio de uma família abastada, em 1935, quando a Palestina estava sob mandato britânico. Foi educado na tradição cristã anglicana. Aos 12 anos acompanha a família que se muda para o Cairo, onde segue cursando escolas destinadas aos filhos de ingleses que servem nas colônias. Como seu pai havia adquirido a cidadania estadunidense, já no término da Primeira Guerra Mundial, tornou-se facilitada a mudança da família para os Estados Unidos, em 1951, onde Edward torna-se cidadão dos Estados Unidos.

Em 1963 torna-se professor de literatura comparada inglesa e estadunidense na Universidade de Columbia. Entre seus livros estão "Orientalismo", "A Questão da Palestina" e "O Fim do Processo de Paz". De sua vasta produção pode-se escolher diferentes imagens de um caleidoscópio colorido: a excelente ficção autobiográfica de Joseph Conrad; a crítica literária de Intenção e método; obras de um musicólogo erudito, vale lembrar que ele era um exímio pianista; o narrador de viagens a sua terra natal; ou ainda, o analista político, implacável observador do das dolorosas tentativas de se conseguir a paz entre palestinos e judeus.

Mas, a meu juízo, merece destaque "Orientalismo", publicado em 1978 e ainda de vibrante atualidade. Nesta obra, Said, com um rigor implacável, expôs os mecanismos da fabricação do Outro, já que desde a Idade Média o Ocidente tem construído um projeto orientalista. A obra, que no Brasil [São Paulo: Companhia das Letras, 1990 ISBN, 85-7164-133-1, presentemente esgotado] ganhou um adequado sub-título: O Oriente como invenção do Ocidente recebeu duras críticas e apaixonadas defesas, mas ninguém pode ficar indiferente a essa obra que passou a ser referência para uma leitura menos enviesada do Oriente. Esta obra segundo a opinião abalizada de José Arbex Jr. “é um clássico absolutamente necessário a todos os que queiram entender profundamente o imperialismo e os mecanismos de construção cultural do estrangeiro e de sua exclusão da vida “normal” como encarnação do exótico – não raro, secretamente desejado, eventualmente odiado e sempre estigmatizado como marginal, obscuro e inferior”

A Companhia das Letras publicou, além do Orientalismo, outros quatro títulos daquele que durantes anos foi confidente de Yasser Arafat: Cultura e imperialismo, Fora do lugar, Paralelos e paradoxos, Reflexões sobre o exílio, Representações sobre o intelectual. Já a Editora Boitempo de São Paulo publicou dois títulos de Said Cultura e Política e Freud e os não-europeus.

Através de sua obra escrita e de seus discursos, Said tornou-se uma voz universal na luta palestina pela independência. Um ano antes de morrer recebeu um dos mais distinguidos prêmios, pela sua contribuição a harmonia entre os povos: o Prêmio Príncipe de Astúrias 2002. Ao aceitá-lo, ao referir sua trajetória como um palestino que buscava uma Pátria destaca o exemplo do país que lhe outorgava um dos seus maiores galardões como exemplo de convivência pacífica entre diferentes culturas: Para mim um dos feitos notáveis da identidade espanhola é que se trata de uma nação que tem negociado com sucesso o pluralismo, inclusive as contradições ocorridas na história de uma identidade complexa. As histórias islâmicas, judaicas e cristãs da Espanha proporcionam conjuntamente um modelo de convivência de tradições e de crenças. O que poderia haver sido uma guerra civil interminável desembocou no reconhecimento de um passado multicultural e uma fonte de esperança e inspiração, em vez de antagonismos e desacordos. O que no passado se reprimia ou se negava na comprida história da Espanha, recebeu um devido reconhecimento graças aos esforços do respeito da História.

Sobre o livro [1], que referi na abertura ter sido o presente que catalisou este artigo, é formado por quase duas dezenas de pequenos artigos, de cerca de 3 ou 4 páginas, escritos por figuras acadêmicas de renome, alguns deles citados em parágrafo precedente deste texto. Vários deles se constituem nas falas que se fizeram na homenagem a Said. Há textos onde são destacados: o exemplo de honestidade intelectual (José Arbex Jr.) os ensinamentos para (re)aprender a enxergar o colonialismo (Aziz Ab’Saber), uma nova construção do “oriente” e os fundamentalismos (Marilena Chauí). Francisco de Oliveira coloca o louvor da tolerância como o legado de Said; Mamede Jarouche mostra um ocidental de muitos Orientes; e, Lejeune Mato Grosso Xavier de Carvalho traz algo da vida e obra do intelectual palestino. Há ainda em um dos artigos a proposta de fundação do Instituto de Cultura Árabe, que como foi antes referida, se concretiza quase um ano depois.

Ainda sobre esta publicação um pequeno reparo. Ele poderia ser acusado de propaganda enganosa. Um leitor mais desavisado, que só visse a capa, poderia supor que fosse um livro de (= escrito por) Edward Said; trata-se de uma antologia sobre ele, mesmo que haja excertos de textos de sua autoria. Dois pontos após o nome de homenageado no titulo de capa fazem falta Edward Said Trabalho intectual e crítica social. Na ficha catalográfica essa inadequação está resolvida, inclusive com os créditos de organizadora conferidos à Arlene Clemesha, cujo nome deveria constar na capa. Essa resvalada promocional não faz que deixe de recomendar com entusiasmo às leitoras e aos leitores do Caderno R os textos amealhados e nessa recomendação fazer a homenagem essa figura extraordinária, que ante as muitas perseguições que sofreu (e mostrei que estas ocorreram até depois de sua morte) disse “[...] acho que o que eles querem é meu silêncio, mas até a minha morte isso não vai acontecer.” Mas Said também não foi calado pela morte. Seus escritos estão servindo para sulear muitas das ações de um número significativo de homens e mulheres que buscam a harmonia entre os povos.

[1] Vários Colaboradores. Edward Said: Trabalho intectual e crítica social (organização Arlene Clemesha) São Paulo: Editora Casa Amarela, 2005. 88 p. ISBN: 85-86821-68-3. Escrevi sobre o mesmo um texto no sítio £eia £ivro : http://www.leialivro.sp.gov.br/texto.php?uid=11261

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