domingo, setembro 24, 2006

E para continuar a falar em Ratisbona.

Durante a celebração do Ramadã islâmico e

na aurora do novo ano judaico de 5767.

Muito provavelmente, nenhum leitor da provável meia dúzia que devo ter aqui no Caderno R – se é que não estou super-dimensionando meu universo – deve estar imaginando o que quero com um título tão exótico. Certamente dirão que nem se falou em Ratisbona nos últimos tempos. Falou-se; e falou-se muito. Eu quero falar mais, mesmo que não vá discutir o assunto que catapultou Regensburg, digo Ratisbona, para turbilhão noticioso.

Alguns, a partir da última afirmação, já devem ter sacado as razões de meu título. Ratisbona é o nome latino de Regensburg e foi aí que o Papa Bento 16 deu a segunda grande furada em seu ainda nascente pontificado. A primeira rateada foi quando esteve em Auschwitz, em maio deste ano, e perguntava: “Onde estavas tu, Deus, quando isso aconteceu?”. Ou, uma outra versão à pergunta do papa “Deus, por que o Senhor ficou em silêncio?” que deu margens a sérios questionamentos: Por que Ratzinger ficou em silêncio e não fez um mea culpa pela omissão da Igreja no auge de anti-semitismo quando do nazismo. Comentaristas também se perguntaram sobre o papel do Vaticano durante o Holocausto. O Papa Pio 12, líder da Igreja Católica à época, não veio a público condenar a opressão nazista contra os judeus. Um ponto polêmico é o fato de o Vaticano não ter aberto a historiadores seus registros da época da guerra. Os pesquisadores desejam saber o que Pio 12 sabia, quando tomou conhecimento disso e o que discutiu com seus assessores.

Uma vez mais temos as diferentes leituras para o mesmo episódio. Por exemplo, ao se referir aos silêncios de Bento 16, o diário católico "La Croix", da França, afirmou que dar destaque ao que não foi dito pelo Papa é uma atitude que corre o risco de "ignorar a grande profundidade do que ele afirmou" sobre a ausência de Deus e o silêncio diante de tal maldade.

Agora em Ratisbona, e mais uma vez é na sua Alemanha, o Papa faz um estrago muito maior. Desta vez não é o silêncio em favor dos judeus. É uma investida que feriu aos islâmicos. Bento 16, no último dia 12 de setembro, encontrou-se com cerca de 1500 representantes da área científica no auditório da Universidade de Regensburg (e é oportuno recordar que Ratzinger fora ali professor de Teologia entre 1969-1977) onde proferiu uma palestra intitulada "Fé, razão e universidade – lembranças e reflexões". Portanto uma conferência densa, preparada e não uma fala de improviso, até por que traz no seu título que são reflexões.

Aliás, na leitura do discurso completo de então, há uma outra passagem, anterior àquela que foi o polêmico catalisador de discórdias, que se fosse pinçada do contexto, poderia ter ferido duramente muitos crentes. Em uma parte de seu discurso o Papa recorda que um de seus colegas de Universidade (aqui, o Papa está se referindo a Universidade de Bonn – que se orgulha de ter duas faculdades de teologia –, onde Ratzinger lecionara a partir de 1959) comentava que havia algo estranho nessa Universidade: duas faculdades que se ocupam de algo que não existia: Deus. Imaginem se imprensa tivesse dito, atribuindo ao Papa, somente: “...em nossa Universidade havia algo estranho: duas faculdades que se ocupam de algo que não existia: Deus.”

Em seguida, ele proferiu o seguinte trecho polêmico de sua palestra (em tradução livre, a partir do texto original em alemão, que retirei www.deutsche-welle.com/dw e que foi publicado no sítio oficial do Vaticano):

"Tudo isso novamente me veio à mente, quando, há pouco, li a parte do diálogo que o sábio imperador bizantino Manuel 2º Paleólogo manteve em 1391, na residência de inverno em Ancara com um estudioso persa sobre o cristianismo e o islã e as verdades de ambas [religiões], e que foi editado pelo teólogo Theodore Khoury (Münster). O imperador provavelmente anotou o diálogo durante a ocupação de Constantinopla entre 1394 e 1402; assim se entende porque suas explicações são muito mais minuciosas do que as de seu interlocutor persa.

O diálogo abrange todo o espectro da estruturação da fé descrita pela Bíblia e pelo Corão e gira em torno da imagem de Deus e do ser humano, mas também sempre necessariamente em torno da relação das chamadas "três leis" ou "três ordens de vida": Antigo Testamento – Novo Testamento – Corão.

Aqui, nesta palestra, não desejo tratar disso, apenas tocar num ponto marginal da construção do diálogo, que, em relação ao tema fé e razão, me fascinou e que serve de ponto de partida para minhas reflexões sobre este tema.

Na sétima parte das conversações (Controversas), editada pelo professor Khoury, o imperador aborda o tema do jihad, da guerra santa. O imperador sabia, certamente, que na sura [capitulo do Corão] 2, 256 está escrito: Nenhuma coação em coisas da religião – trata-se de uma das mais antigas suras, como os peritos nos dizem, da época em que o próprio Maomé ainda era impotente e ameaçado.

Mas o imperador naturalmente conhecia também a determinação escrita no Corão – surgida mais tarde – sobre a guerra santa. Sem entrar em detalhes, como o tratamento diferenciado de "detentores da escrita" e "incrédulos", ele se dirige de forma brusca ao seu interlocutor, surpreendentemente brusca para nós, simplesmente com a questão central da relação entre religião e violência: "Mostre-me então, o que Maomé trouxe de novo, e ali só encontrarás coisas más e desumanas, como esta, de que ele determinou, que se propague através da espada a fé que ele prega".

Após ter atacado deste jeito, o imperador argumenta, então, pormenorizadamente, por que a propagação da fé através da violência é absurda. Ela está em contradição com a essência de Deus e da alma. "Deus não tem prazer no sangue", diz ele, "e agir de forma irracional contraria a essência de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Quem, portanto, pretende conduzir alguém à fé, precisa da habilidade do bom discurso e de um raciocínio correto, mas não de violência e ameaça... Para convencer uma alma sensata, necessita-se não de seu braço, não de instrumentos de agressão nem de outros meios pelos quais se pode ameaçar alguém de morte ..."

Parece não sobrar dúvidas a trazida da frase "Mostre-me então, o que Maomé trouxe de novo, e ali só encontrarás coisas más e desumanas, como esta, de que ele determinou, que se propague, através da espada, a fé que ele prega" do douto imperador bizantino Manuel 2º Paleólogo, é realmente eivada de preconceitos. Aliás, o Papa ao fazer a citação reconhece que a citação é brusca, isso é, grosseira.

Há quem diga que a infeliz e inadequada citação do Papa há de servir para que os islâmicos mostrem ao mundo que não aprovam a Jidah (=Guerra Santa), Oxalá! E, eu permito-me traduzir essa interjeição: Assim, queira Alá.

As revoltas e a indignação desencadeadas de Regensburg também serviram para mostrar o quanto, o outro lado também abençoou guerras santas, antes da observação de Manuel 2º Paleólogo. Trago apenas uma amostra. Papa Urbano II (papa de 1088 a 1099), em 1096, no Concílio de Clermont, assim conclamou e abençoou os francos no desencadeamento da 1ª Cruzada:

[...] Ó Francos, a quem, pois, deve ser dirigida a tarefa de vingança tão santa quanto a espada de São Miguel? A quem Nosso Senhor poderia confiar tal tarefa senão aos seus mais abençoados e fiéis filhos? Ó Francos, vocês não são habilidosos cavaleiros? Poderosos guerreiros na palavra de Deus? Próximos a São Miguel na habilidade de expurgar o mal pela espada? Dêem um passo a frente! Não mais levantarão as espadas entre si, ceifando vidas e pecando contra a palavra. Aproximem-se guerreiros abençoados. Os que dentre vocês roubaram tornem-se agora soldados, pois a causa é suprema. Aqueles que cultivam mágoas juntem-se aos seus causadores, pois a irmandade é essencial ao objetivo. Aproximem-se os que desejam vida eterna, aproximem-se os que desejam absolvição no sagrado. Saibam que Nosso Senhor espera seus filhos em lugar abençoado. Na palavra do Santíssimo seguirão e combaterão, não deixem que obstáculos os parem, creiam na palavra e nada os deterá. Deixem todas as controvérsias para trás! Unam-se e acreditem! Não permitam que posses ou família os detenham. Lembrem-se das palavras de Nosso Salvador, “Aquele que abandonar sua morada, família, riqueza, títulos, pai ou mãe pelo meu nome, receberá mil vezes mais e herdará a vida eterna”. Se os Macabeus dos tempos de outrora conquistaram glória pela sua luta de fé, da mesma forma a chance é ofertada a vocês. Resgatem a Cruz, o Sangue e a Tumba. Resgatem o Gólgota e santifiquem o local. [...] Francos! A Palestina é lugar de leite e mel fluindo, território precioso aos olhos de Deus. Um lugar a ser conquistado e mantido apenas pela fé. Pois chamamos por suas espadas! Lutem contra a amaldiçoada raça que avilta a terra sagrada, Jerusalém, fértil acima de todas outras. Glorifiquem suas peregrinações para o centro do mundo, consagrem-se em Sua paixão! Alcancem a redenção pela Sua morte! Glorificado pelo Seu túmulo! O caminho será longo, a fé no Onipotente tornar-lhe-á possível e frutífera. Não temam Francos! Não temam tortura, pois nela reside a glória do martírio! Não temam a morte, pois nela reside a vida eterna! Não temam dor, pois serão resignados! Os anjos apresentarão suas almas a Deus, o Santíssimo será glorificado pelos atos de seus filhos! Vejam a sua frente aquele que é voz de Nosso Senhor! Sigam Sua presença e palavras eternas! Marchem certos da expiação de seus pecados, na certeza da glória imortal. Deixem as hordas do Cristo Rei se atracar com o inimigo! Os anjos cantarão suas vitórias! Que os conhecedores Da palavra entrem em Jerusalém portando o estandarte de Nosso Senhor e salvador! Que o símbolo da fé seja mostrado em vermelho sobre o imaculado branco, pureza e sofrimento expressados! E que Sua palavra se faça ouvida como retumbante trovão, trazendo medo e luz para os infiéis! Que agora o exército do Deus único grite em glória sobre os Seus inimigos!”

Mas anunciara que comentaria algo de Ratisbona e já gastei muita missa com o Papa, que entre outras – mesmo que a um preço caríssimo – nos fez ir a dicionários para ver qual era a especialização de Manuel 2º, que determinava o epíteto, de ‘paleólogo’ após o nome. Certamente era um erudito em coisas (línguas) antigas. Queria, como encerramento, trazer algo da história de Ratisbona e o faço em homenagem aos de fé judaica, até porque escrevo na aurora do novo ano de 5767.

Ratisbona ou Regensburgo é uma das cidades mais antigas da Alemanha. É também uma das poucas cidades da Alemanha que foram ocupadas pelo romanos. A história documentada de começa com a construção de um castelo para uma coorte (um décimo de uma legião romana) em cerca de 79 da era cristã, após séculos em que esta zona foi povoada por tribos celtas e que chamavam à zona "Ratasbona" ou "Ratisbona". No ano 179, o imperador Marco Aurélio fez da cidade um ponto forte militar da província de Raetia, mandando construir um acampamento de legionários chamado "Castra Regina".

Ratisbona é um dos bispados mais antigos da Alemanha, já existente mesmo antes de 739, ano em que Bonifácio a colocou sobre jurisdição do direito canônico e como tal, dependente de Roma. Regensburgo tornou-se protestante em 1542, porém manteve-se sempre um bispado católico, mesmo que por vezes administrada por outros bispados.

Atualmente, a cidade tem cerca de 150 000 habitantes, a quarta maior cidade da Baviera, depois de Nunique, Nuremberg e Augsburgo. A cidade é sede de um bispado da diocese católica de Regensburgo. A maioria da população é católica, como é usual na Baviera.

Depois de panorama histórico-geográfico, trago algo menos conhecido de Ratisbona. Aquelas e aqueles de fé judaica têm uma ligação muito forte com Ratisbona. É na olhada de um pequeno excerto desta história que faço minha evocação do Rosh Hashaná.

A comunidade judaica de Ratisbona aparece referenciada pala primeira vez num documento oficial de 981, sendo certo que ela já existia pelo menos desde o século 8º. Nos séculos 11 e 12, a escola talmúdica de Regensburg era um centro de culto judaico muito importante. A partir do século 11, a relação entre judeus e cristãos degradou-se. Em 1096, os judeus de Ratisbona foram obrigados a aceitar o batismo. No entanto, um ano depois, o Imperador Heinrich 4º autorizou o regresso dos convertidos ao judaísmo.

No século 15, como em muitas outras cidades européias, a propaganda anti-semita voltou a crescer. Os judeus eram acusados do roubo de hóstias e de praticarem rituais macabros em que crianças cristãs eram assassinadas. Se dizia que as celebrações do shabath eram cultos ao demônio. Os de fé judaica foram tidos como inimigos da crença cristã, sendo discriminados e deportados. Em Regensburg, isso aconteceu com brutalidade em fevereiro de 1519.

Em 1519 foram expulsos os judeus da cidade, (cerca de quinhentos), tendo assim sido destruída uma das comunidades judaicas mais antigas da Alemanha. A expulsão só foi possível porque Maximiliano 1º faleceu no dia de ano novo de 1519, sem deixar estipulado quem seria o seu sucessor. No tempo que foi necessário a Carlos 4º para se tornar rei alemão e depois imperador, os habitantes cristãos de Regensburgo tiveram a oportunidade de expulsar os seus concidadãos judeus.

Na perseguição aos judeus de Regensburg em 1519, um episódio ilustra bem o fanatismo anti-semita daqueles tempos, chegando as raias do absurdo: na destruição da sinagoga de Regensburg, em 1519, um pedreiro cristão feriu-se com gravidade. Passados alguns dias, porém, este homem foi tido curado. Imediatamente esta cura foi tida por um milagre, atribuído à Virgem Maria. Foi construída uma igreja no local, a Capela de Maria, que passou a ser centro de peregrinação, devido ao suposto milagre. Pouco interessou aos peregrinos que o fiel pedreiro anti-semita tivesse falecido no mesmo ano de 1519, vítima dos ferimentos e que a sua suposta cura foi apenas temporária. O mito de um milagre prevaleceu e a peregrinação subsistiu. Com a construção de uma igreja no local, ainda antes do reinado do novo imperador, tornava-se consumada e irreversível a expulsão dos judeus da cidade.

Inicialmente, na sua pressa, os cristãos de Regensburg construíram apenas uma capela de madeira. Já em 1521, ela foi substituída por uma construção de pedra. Entre 1519 e 1522, Regensburg foi um dos maiores centros de peregrinação do seu tempo na Europa Central, mobilizado por esse pseudo-milagre.

Mesmo que tivéssemos falado de tristezas e de ódios, foi bom -- muito ajudado pela Wikepédia -- falar de Ratisbona, tão presente ontem e hoje na História dos (des)humanos. Que, eu e meus leitores do Caderno R, ajudemos a construir a Paz. Shalom Shana Tova.

6 Comentários:

  • Brilhante seus comentários.
    Carla

    Por Anonymous Anônimo, às 2:49 PM  

  • Alicerçada pela interpretação perspicaz de uma mente espanhola acerca da expressão comumente brasileira interessante, limito-me na fala: "Crônica interessante". "Reflexões geniais." Um forte abra@o, Adriana.

    Por Anonymous Adriana Magedanz, às 8:19 AM  

  • Catolicismo Religião ou Política?
    Que pena que no Século XXI ainda tenha que existi "Papa".

    Por Blogger lferpribeiro, às 2:41 PM  

  • Catolicismo religião ou política?
    É uma pena que no sécilo XXI ainda tenha que existir "Papa"

    Por Blogger lferpribeiro, às 2:43 PM  

  • Muito bom!O texto me fez pensar como o poder transforma as pessoas, até as mais brilhantes, em hipocritas. Alias a hipocrisia não poupa quase ninguém. Jesus demonstrou a fragilidade humana inumeras vezes, teve dor, raiva, medo, etc. e nos disse: "Aquele que hoje está em pé cuide para que amanhã não caia". Seria bom que lembrassemos disso de vez em quando não é?

    Por Anonymous Desimary, às 5:48 PM  

  • Seus comentários são bárbaros. Realmente uma magnifica abordagem em relação as verdades que não são ditas.

    Por Anonymous Anônimo, às 6:55 AM  

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