domingo, setembro 24, 2006

E para continuar a falar em Ratisbona.

Durante a celebração do Ramadã islâmico e

na aurora do novo ano judaico de 5767.

Muito provavelmente, nenhum leitor da provável meia dúzia que devo ter aqui no Caderno R – se é que não estou super-dimensionando meu universo – deve estar imaginando o que quero com um título tão exótico. Certamente dirão que nem se falou em Ratisbona nos últimos tempos. Falou-se; e falou-se muito. Eu quero falar mais, mesmo que não vá discutir o assunto que catapultou Regensburg, digo Ratisbona, para turbilhão noticioso.

Alguns, a partir da última afirmação, já devem ter sacado as razões de meu título. Ratisbona é o nome latino de Regensburg e foi aí que o Papa Bento 16 deu a segunda grande furada em seu ainda nascente pontificado. A primeira rateada foi quando esteve em Auschwitz, em maio deste ano, e perguntava: “Onde estavas tu, Deus, quando isso aconteceu?”. Ou, uma outra versão à pergunta do papa “Deus, por que o Senhor ficou em silêncio?” que deu margens a sérios questionamentos: Por que Ratzinger ficou em silêncio e não fez um mea culpa pela omissão da Igreja no auge de anti-semitismo quando do nazismo. Comentaristas também se perguntaram sobre o papel do Vaticano durante o Holocausto. O Papa Pio 12, líder da Igreja Católica à época, não veio a público condenar a opressão nazista contra os judeus. Um ponto polêmico é o fato de o Vaticano não ter aberto a historiadores seus registros da época da guerra. Os pesquisadores desejam saber o que Pio 12 sabia, quando tomou conhecimento disso e o que discutiu com seus assessores.

Uma vez mais temos as diferentes leituras para o mesmo episódio. Por exemplo, ao se referir aos silêncios de Bento 16, o diário católico "La Croix", da França, afirmou que dar destaque ao que não foi dito pelo Papa é uma atitude que corre o risco de "ignorar a grande profundidade do que ele afirmou" sobre a ausência de Deus e o silêncio diante de tal maldade.

Agora em Ratisbona, e mais uma vez é na sua Alemanha, o Papa faz um estrago muito maior. Desta vez não é o silêncio em favor dos judeus. É uma investida que feriu aos islâmicos. Bento 16, no último dia 12 de setembro, encontrou-se com cerca de 1500 representantes da área científica no auditório da Universidade de Regensburg (e é oportuno recordar que Ratzinger fora ali professor de Teologia entre 1969-1977) onde proferiu uma palestra intitulada "Fé, razão e universidade – lembranças e reflexões". Portanto uma conferência densa, preparada e não uma fala de improviso, até por que traz no seu título que são reflexões.

Aliás, na leitura do discurso completo de então, há uma outra passagem, anterior àquela que foi o polêmico catalisador de discórdias, que se fosse pinçada do contexto, poderia ter ferido duramente muitos crentes. Em uma parte de seu discurso o Papa recorda que um de seus colegas de Universidade (aqui, o Papa está se referindo a Universidade de Bonn – que se orgulha de ter duas faculdades de teologia –, onde Ratzinger lecionara a partir de 1959) comentava que havia algo estranho nessa Universidade: duas faculdades que se ocupam de algo que não existia: Deus. Imaginem se imprensa tivesse dito, atribuindo ao Papa, somente: “...em nossa Universidade havia algo estranho: duas faculdades que se ocupam de algo que não existia: Deus.”

Em seguida, ele proferiu o seguinte trecho polêmico de sua palestra (em tradução livre, a partir do texto original em alemão, que retirei www.deutsche-welle.com/dw e que foi publicado no sítio oficial do Vaticano):

"Tudo isso novamente me veio à mente, quando, há pouco, li a parte do diálogo que o sábio imperador bizantino Manuel 2º Paleólogo manteve em 1391, na residência de inverno em Ancara com um estudioso persa sobre o cristianismo e o islã e as verdades de ambas [religiões], e que foi editado pelo teólogo Theodore Khoury (Münster). O imperador provavelmente anotou o diálogo durante a ocupação de Constantinopla entre 1394 e 1402; assim se entende porque suas explicações são muito mais minuciosas do que as de seu interlocutor persa.

O diálogo abrange todo o espectro da estruturação da fé descrita pela Bíblia e pelo Corão e gira em torno da imagem de Deus e do ser humano, mas também sempre necessariamente em torno da relação das chamadas "três leis" ou "três ordens de vida": Antigo Testamento – Novo Testamento – Corão.

Aqui, nesta palestra, não desejo tratar disso, apenas tocar num ponto marginal da construção do diálogo, que, em relação ao tema fé e razão, me fascinou e que serve de ponto de partida para minhas reflexões sobre este tema.

Na sétima parte das conversações (Controversas), editada pelo professor Khoury, o imperador aborda o tema do jihad, da guerra santa. O imperador sabia, certamente, que na sura [capitulo do Corão] 2, 256 está escrito: Nenhuma coação em coisas da religião – trata-se de uma das mais antigas suras, como os peritos nos dizem, da época em que o próprio Maomé ainda era impotente e ameaçado.

Mas o imperador naturalmente conhecia também a determinação escrita no Corão – surgida mais tarde – sobre a guerra santa. Sem entrar em detalhes, como o tratamento diferenciado de "detentores da escrita" e "incrédulos", ele se dirige de forma brusca ao seu interlocutor, surpreendentemente brusca para nós, simplesmente com a questão central da relação entre religião e violência: "Mostre-me então, o que Maomé trouxe de novo, e ali só encontrarás coisas más e desumanas, como esta, de que ele determinou, que se propague através da espada a fé que ele prega".

Após ter atacado deste jeito, o imperador argumenta, então, pormenorizadamente, por que a propagação da fé através da violência é absurda. Ela está em contradição com a essência de Deus e da alma. "Deus não tem prazer no sangue", diz ele, "e agir de forma irracional contraria a essência de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Quem, portanto, pretende conduzir alguém à fé, precisa da habilidade do bom discurso e de um raciocínio correto, mas não de violência e ameaça... Para convencer uma alma sensata, necessita-se não de seu braço, não de instrumentos de agressão nem de outros meios pelos quais se pode ameaçar alguém de morte ..."

Parece não sobrar dúvidas a trazida da frase "Mostre-me então, o que Maomé trouxe de novo, e ali só encontrarás coisas más e desumanas, como esta, de que ele determinou, que se propague, através da espada, a fé que ele prega" do douto imperador bizantino Manuel 2º Paleólogo, é realmente eivada de preconceitos. Aliás, o Papa ao fazer a citação reconhece que a citação é brusca, isso é, grosseira.

Há quem diga que a infeliz e inadequada citação do Papa há de servir para que os islâmicos mostrem ao mundo que não aprovam a Jidah (=Guerra Santa), Oxalá! E, eu permito-me traduzir essa interjeição: Assim, queira Alá.

As revoltas e a indignação desencadeadas de Regensburg também serviram para mostrar o quanto, o outro lado também abençoou guerras santas, antes da observação de Manuel 2º Paleólogo. Trago apenas uma amostra. Papa Urbano II (papa de 1088 a 1099), em 1096, no Concílio de Clermont, assim conclamou e abençoou os francos no desencadeamento da 1ª Cruzada:

[...] Ó Francos, a quem, pois, deve ser dirigida a tarefa de vingança tão santa quanto a espada de São Miguel? A quem Nosso Senhor poderia confiar tal tarefa senão aos seus mais abençoados e fiéis filhos? Ó Francos, vocês não são habilidosos cavaleiros? Poderosos guerreiros na palavra de Deus? Próximos a São Miguel na habilidade de expurgar o mal pela espada? Dêem um passo a frente! Não mais levantarão as espadas entre si, ceifando vidas e pecando contra a palavra. Aproximem-se guerreiros abençoados. Os que dentre vocês roubaram tornem-se agora soldados, pois a causa é suprema. Aqueles que cultivam mágoas juntem-se aos seus causadores, pois a irmandade é essencial ao objetivo. Aproximem-se os que desejam vida eterna, aproximem-se os que desejam absolvição no sagrado. Saibam que Nosso Senhor espera seus filhos em lugar abençoado. Na palavra do Santíssimo seguirão e combaterão, não deixem que obstáculos os parem, creiam na palavra e nada os deterá. Deixem todas as controvérsias para trás! Unam-se e acreditem! Não permitam que posses ou família os detenham. Lembrem-se das palavras de Nosso Salvador, “Aquele que abandonar sua morada, família, riqueza, títulos, pai ou mãe pelo meu nome, receberá mil vezes mais e herdará a vida eterna”. Se os Macabeus dos tempos de outrora conquistaram glória pela sua luta de fé, da mesma forma a chance é ofertada a vocês. Resgatem a Cruz, o Sangue e a Tumba. Resgatem o Gólgota e santifiquem o local. [...] Francos! A Palestina é lugar de leite e mel fluindo, território precioso aos olhos de Deus. Um lugar a ser conquistado e mantido apenas pela fé. Pois chamamos por suas espadas! Lutem contra a amaldiçoada raça que avilta a terra sagrada, Jerusalém, fértil acima de todas outras. Glorifiquem suas peregrinações para o centro do mundo, consagrem-se em Sua paixão! Alcancem a redenção pela Sua morte! Glorificado pelo Seu túmulo! O caminho será longo, a fé no Onipotente tornar-lhe-á possível e frutífera. Não temam Francos! Não temam tortura, pois nela reside a glória do martírio! Não temam a morte, pois nela reside a vida eterna! Não temam dor, pois serão resignados! Os anjos apresentarão suas almas a Deus, o Santíssimo será glorificado pelos atos de seus filhos! Vejam a sua frente aquele que é voz de Nosso Senhor! Sigam Sua presença e palavras eternas! Marchem certos da expiação de seus pecados, na certeza da glória imortal. Deixem as hordas do Cristo Rei se atracar com o inimigo! Os anjos cantarão suas vitórias! Que os conhecedores Da palavra entrem em Jerusalém portando o estandarte de Nosso Senhor e salvador! Que o símbolo da fé seja mostrado em vermelho sobre o imaculado branco, pureza e sofrimento expressados! E que Sua palavra se faça ouvida como retumbante trovão, trazendo medo e luz para os infiéis! Que agora o exército do Deus único grite em glória sobre os Seus inimigos!”

Mas anunciara que comentaria algo de Ratisbona e já gastei muita missa com o Papa, que entre outras – mesmo que a um preço caríssimo – nos fez ir a dicionários para ver qual era a especialização de Manuel 2º, que determinava o epíteto, de ‘paleólogo’ após o nome. Certamente era um erudito em coisas (línguas) antigas. Queria, como encerramento, trazer algo da história de Ratisbona e o faço em homenagem aos de fé judaica, até porque escrevo na aurora do novo ano de 5767.

Ratisbona ou Regensburgo é uma das cidades mais antigas da Alemanha. É também uma das poucas cidades da Alemanha que foram ocupadas pelo romanos. A história documentada de começa com a construção de um castelo para uma coorte (um décimo de uma legião romana) em cerca de 79 da era cristã, após séculos em que esta zona foi povoada por tribos celtas e que chamavam à zona "Ratasbona" ou "Ratisbona". No ano 179, o imperador Marco Aurélio fez da cidade um ponto forte militar da província de Raetia, mandando construir um acampamento de legionários chamado "Castra Regina".

Ratisbona é um dos bispados mais antigos da Alemanha, já existente mesmo antes de 739, ano em que Bonifácio a colocou sobre jurisdição do direito canônico e como tal, dependente de Roma. Regensburgo tornou-se protestante em 1542, porém manteve-se sempre um bispado católico, mesmo que por vezes administrada por outros bispados.

Atualmente, a cidade tem cerca de 150 000 habitantes, a quarta maior cidade da Baviera, depois de Nunique, Nuremberg e Augsburgo. A cidade é sede de um bispado da diocese católica de Regensburgo. A maioria da população é católica, como é usual na Baviera.

Depois de panorama histórico-geográfico, trago algo menos conhecido de Ratisbona. Aquelas e aqueles de fé judaica têm uma ligação muito forte com Ratisbona. É na olhada de um pequeno excerto desta história que faço minha evocação do Rosh Hashaná.

A comunidade judaica de Ratisbona aparece referenciada pala primeira vez num documento oficial de 981, sendo certo que ela já existia pelo menos desde o século 8º. Nos séculos 11 e 12, a escola talmúdica de Regensburg era um centro de culto judaico muito importante. A partir do século 11, a relação entre judeus e cristãos degradou-se. Em 1096, os judeus de Ratisbona foram obrigados a aceitar o batismo. No entanto, um ano depois, o Imperador Heinrich 4º autorizou o regresso dos convertidos ao judaísmo.

No século 15, como em muitas outras cidades européias, a propaganda anti-semita voltou a crescer. Os judeus eram acusados do roubo de hóstias e de praticarem rituais macabros em que crianças cristãs eram assassinadas. Se dizia que as celebrações do shabath eram cultos ao demônio. Os de fé judaica foram tidos como inimigos da crença cristã, sendo discriminados e deportados. Em Regensburg, isso aconteceu com brutalidade em fevereiro de 1519.

Em 1519 foram expulsos os judeus da cidade, (cerca de quinhentos), tendo assim sido destruída uma das comunidades judaicas mais antigas da Alemanha. A expulsão só foi possível porque Maximiliano 1º faleceu no dia de ano novo de 1519, sem deixar estipulado quem seria o seu sucessor. No tempo que foi necessário a Carlos 4º para se tornar rei alemão e depois imperador, os habitantes cristãos de Regensburgo tiveram a oportunidade de expulsar os seus concidadãos judeus.

Na perseguição aos judeus de Regensburg em 1519, um episódio ilustra bem o fanatismo anti-semita daqueles tempos, chegando as raias do absurdo: na destruição da sinagoga de Regensburg, em 1519, um pedreiro cristão feriu-se com gravidade. Passados alguns dias, porém, este homem foi tido curado. Imediatamente esta cura foi tida por um milagre, atribuído à Virgem Maria. Foi construída uma igreja no local, a Capela de Maria, que passou a ser centro de peregrinação, devido ao suposto milagre. Pouco interessou aos peregrinos que o fiel pedreiro anti-semita tivesse falecido no mesmo ano de 1519, vítima dos ferimentos e que a sua suposta cura foi apenas temporária. O mito de um milagre prevaleceu e a peregrinação subsistiu. Com a construção de uma igreja no local, ainda antes do reinado do novo imperador, tornava-se consumada e irreversível a expulsão dos judeus da cidade.

Inicialmente, na sua pressa, os cristãos de Regensburg construíram apenas uma capela de madeira. Já em 1521, ela foi substituída por uma construção de pedra. Entre 1519 e 1522, Regensburg foi um dos maiores centros de peregrinação do seu tempo na Europa Central, mobilizado por esse pseudo-milagre.

Mesmo que tivéssemos falado de tristezas e de ódios, foi bom -- muito ajudado pela Wikepédia -- falar de Ratisbona, tão presente ontem e hoje na História dos (des)humanos. Que, eu e meus leitores do Caderno R, ajudemos a construir a Paz. Shalom Shana Tova.

domingo, setembro 17, 2006

Um preito a Edward Said (1935-2003) na evocação dos três anos de sua morte

Este texto é dedicado a

Gelsa Knijnik,

cuja paixão intelectual por Edward Said me levou a admirá-lo.


Escrevo catalisado por duas dimensões: a primeira um presente que recebo de meu querido amigo e colega Mansur Lutfi, da direção do Instituto de Cultura Árabe: um livro sobre o intelectual Edward Said; a segunda, a recordação especial que merece o próximo dia 25 de setembro: a evocação da morte de Said ocorrida há três anos, após 11 anos de luta contra a leucemia. Assim, aqui neste Caderno R, minha singela homenagem, na lembrança de uma notícia que em 2003, comovia a muitos: “O intelectual palestino Edward Said morreu nesta quinta-feira, dia 25 em Nova York, aos 67 anos, após uma longa batalha contra a leucemia, afirmou à imprensa um colega da Universidade de Columbia”.

Paradoxalmente, minha homenagem a um pacifista, começa com a trazida de algo que não tem marcas de amor. Nos dias em que fluíam no Ocidente e no Oriente comoções pela morte daquele que defendia a existência de um estado palestino e de um estado judeu, homens e mulheres de fé judaica, celebravam o dia do perdão, dentro dos rituais que envolviam a passagem de mais um ano novo. Nesse clima próspero à contrição, um articulista da Folha de S. Paulo, escreve um artigo virulento e marcado pelo ódio e pelo racismo. Recordo bem, o anoitecer de 29 de setembro, uma segunda-feira primaveril, ao chegar da universidade e, então tive acesso ao jornal. A leitura daquele artigo me contristou, e mais me revoltou. O artigo começava assim: “[...] a leucemia que, há poucos dias, matou Edward Said prolongou-se o bastante para que o polemista e ativista político radicado nos Estados Unidos pudesse assistir à falência de seus projetos e expectativas”. Imediatamente escrevo para a coluna do leitor do jornal: “Quando o senhor Nelson Archer escreveu seu antinecrológio de Edward Said poderia ter lembrando de uma recomendação dos romanos: "Dos mortos, nada a não ser o bem! ou a sabedoria popular que diz: "Em cachorro morto não se bate!". Lamentável e doloroso seu texto na contracapa da Ilustrada desta segunda-feira, escrito quando parece se devia estar vivendo tempos de perdão. A um cronista destes não pode causar espanto que alguém atire bombas, pois ele semeia ódio. Attico Chassot” . Claro que, mais uma vez, minha carta não é publicada.

Mas, evidentemente não fora eu o único violentado com artigo. Em São Paulo um grupo de intelectuais lideram um manifesto, que em poucas horas colhe 187 assinaturas com os mais expressivos nomes (como Antônio Candido, Celso Furtado, Francisco de Oliveira, Marilena Chauí, Emir Sader, Roberto Schwartz, Jacob Gorender, Milton Hatoum...) e enviam ao jornal clamando: “O artigo [...] é uma ofensa a todos os que alimentam – como fez o intelectual palestino durante toda a sua vida – a esperança de ver israelenses e palestinos conviverem em paz, com justiça. O escrito é de uma baixeza deliberada e covarde, que merece repúdio e não resposta”. Desta vez, ante a quantidade e significância dos signatários, a Folha de S. Paulo publicou o texto, no Painel do Leitor de 4 de outubro, com uma parte dos nomes das quase duas centenas de signatários.

E aqui um paradoxo, ou melhor, uma confirmação da sabedoria popular: Há males que vêm para o bem. O infame texto de Nelson Arché, marcado pela vilania, não apenas catalisa o manifesto de desagravo, depois conhecido como o Manifesto dos 187. A ele segue-se em 11 de dezembro de 2003, em São Paulo, no Clube Homs um “Ato em Homenagem a Edward Said”, com a presença de intelectuais brasileiros de proa, sendo que vários destes apresentam distinguidas contribuições acerca do homenageado. Deste ato surge o livro que referi no parágrafo de abertura e que comentarei adiante. Mas há outro produto significativo da homenagem.

Ela termina por ser o gérmen de cristalização para surgimento do Instituto de Cultura Árabe – vale visitar o sítio www.icarabe.org – o que ocorreu em outubro de 2004. Claro que é inadmissível sonhar que o ICARABE venha ter as dimensões portentosas do Instituto do Mundo Árabe, às margens do Sena em Paris. Mas ele busca não apenas congregar os cerca de 10 milhões de brasileiros de origem árabe, mas valorizar uma cultura que está fortemente presente no Brasil, como por exemplo, na existência em nossa língua portuguesa cerca de 3 mil palavras de origens árabes, incorporadas especialmente nos sete séculos (do 8º ao 15) quando a península hispânica foi árabe.

Sem pretender na limitação deste texto fazer uma biografia, vale recordar que Said nasceu em Jerusalém, no seio de uma família abastada, em 1935, quando a Palestina estava sob mandato britânico. Foi educado na tradição cristã anglicana. Aos 12 anos acompanha a família que se muda para o Cairo, onde segue cursando escolas destinadas aos filhos de ingleses que servem nas colônias. Como seu pai havia adquirido a cidadania estadunidense, já no término da Primeira Guerra Mundial, tornou-se facilitada a mudança da família para os Estados Unidos, em 1951, onde Edward torna-se cidadão dos Estados Unidos.

Em 1963 torna-se professor de literatura comparada inglesa e estadunidense na Universidade de Columbia. Entre seus livros estão "Orientalismo", "A Questão da Palestina" e "O Fim do Processo de Paz". De sua vasta produção pode-se escolher diferentes imagens de um caleidoscópio colorido: a excelente ficção autobiográfica de Joseph Conrad; a crítica literária de Intenção e método; obras de um musicólogo erudito, vale lembrar que ele era um exímio pianista; o narrador de viagens a sua terra natal; ou ainda, o analista político, implacável observador do das dolorosas tentativas de se conseguir a paz entre palestinos e judeus.

Mas, a meu juízo, merece destaque "Orientalismo", publicado em 1978 e ainda de vibrante atualidade. Nesta obra, Said, com um rigor implacável, expôs os mecanismos da fabricação do Outro, já que desde a Idade Média o Ocidente tem construído um projeto orientalista. A obra, que no Brasil [São Paulo: Companhia das Letras, 1990 ISBN, 85-7164-133-1, presentemente esgotado] ganhou um adequado sub-título: O Oriente como invenção do Ocidente recebeu duras críticas e apaixonadas defesas, mas ninguém pode ficar indiferente a essa obra que passou a ser referência para uma leitura menos enviesada do Oriente. Esta obra segundo a opinião abalizada de José Arbex Jr. “é um clássico absolutamente necessário a todos os que queiram entender profundamente o imperialismo e os mecanismos de construção cultural do estrangeiro e de sua exclusão da vida “normal” como encarnação do exótico – não raro, secretamente desejado, eventualmente odiado e sempre estigmatizado como marginal, obscuro e inferior”

A Companhia das Letras publicou, além do Orientalismo, outros quatro títulos daquele que durantes anos foi confidente de Yasser Arafat: Cultura e imperialismo, Fora do lugar, Paralelos e paradoxos, Reflexões sobre o exílio, Representações sobre o intelectual. Já a Editora Boitempo de São Paulo publicou dois títulos de Said Cultura e Política e Freud e os não-europeus.

Através de sua obra escrita e de seus discursos, Said tornou-se uma voz universal na luta palestina pela independência. Um ano antes de morrer recebeu um dos mais distinguidos prêmios, pela sua contribuição a harmonia entre os povos: o Prêmio Príncipe de Astúrias 2002. Ao aceitá-lo, ao referir sua trajetória como um palestino que buscava uma Pátria destaca o exemplo do país que lhe outorgava um dos seus maiores galardões como exemplo de convivência pacífica entre diferentes culturas: Para mim um dos feitos notáveis da identidade espanhola é que se trata de uma nação que tem negociado com sucesso o pluralismo, inclusive as contradições ocorridas na história de uma identidade complexa. As histórias islâmicas, judaicas e cristãs da Espanha proporcionam conjuntamente um modelo de convivência de tradições e de crenças. O que poderia haver sido uma guerra civil interminável desembocou no reconhecimento de um passado multicultural e uma fonte de esperança e inspiração, em vez de antagonismos e desacordos. O que no passado se reprimia ou se negava na comprida história da Espanha, recebeu um devido reconhecimento graças aos esforços do respeito da História.

Sobre o livro [1], que referi na abertura ter sido o presente que catalisou este artigo, é formado por quase duas dezenas de pequenos artigos, de cerca de 3 ou 4 páginas, escritos por figuras acadêmicas de renome, alguns deles citados em parágrafo precedente deste texto. Vários deles se constituem nas falas que se fizeram na homenagem a Said. Há textos onde são destacados: o exemplo de honestidade intelectual (José Arbex Jr.) os ensinamentos para (re)aprender a enxergar o colonialismo (Aziz Ab’Saber), uma nova construção do “oriente” e os fundamentalismos (Marilena Chauí). Francisco de Oliveira coloca o louvor da tolerância como o legado de Said; Mamede Jarouche mostra um ocidental de muitos Orientes; e, Lejeune Mato Grosso Xavier de Carvalho traz algo da vida e obra do intelectual palestino. Há ainda em um dos artigos a proposta de fundação do Instituto de Cultura Árabe, que como foi antes referida, se concretiza quase um ano depois.

Ainda sobre esta publicação um pequeno reparo. Ele poderia ser acusado de propaganda enganosa. Um leitor mais desavisado, que só visse a capa, poderia supor que fosse um livro de (= escrito por) Edward Said; trata-se de uma antologia sobre ele, mesmo que haja excertos de textos de sua autoria. Dois pontos após o nome de homenageado no titulo de capa fazem falta Edward Said Trabalho intectual e crítica social. Na ficha catalográfica essa inadequação está resolvida, inclusive com os créditos de organizadora conferidos à Arlene Clemesha, cujo nome deveria constar na capa. Essa resvalada promocional não faz que deixe de recomendar com entusiasmo às leitoras e aos leitores do Caderno R os textos amealhados e nessa recomendação fazer a homenagem essa figura extraordinária, que ante as muitas perseguições que sofreu (e mostrei que estas ocorreram até depois de sua morte) disse “[...] acho que o que eles querem é meu silêncio, mas até a minha morte isso não vai acontecer.” Mas Said também não foi calado pela morte. Seus escritos estão servindo para sulear muitas das ações de um número significativo de homens e mulheres que buscam a harmonia entre os povos.

[1] Vários Colaboradores. Edward Said: Trabalho intectual e crítica social (organização Arlene Clemesha) São Paulo: Editora Casa Amarela, 2005. 88 p. ISBN: 85-86821-68-3. Escrevi sobre o mesmo um texto no sítio £eia £ivro : http://www.leialivro.sp.gov.br/texto.php?uid=11261

quinta-feira, setembro 14, 2006

Uma outra leitura do 11 de setembro de 2001.

Escrevo esse texto em 11 de setembro. Esta é uma crônica datada, sobre o ocorrido há cinco anos. Não vou trazer extensos comentários, aqui e agora, acerca do trágico e global 11 de setembro de 2001. Os jornais de hoje e os do fim de semana rememoram isso a rodo. Soubemos, por exemplo, que o grande xerife do mundo, aquele responsável por milhares de mortes no Afeganistão e no Iraque, hoje, com compunção, reza pelos mortos de então. Espera-se que seja uma atitude não fingida.
A propósito do número de mortos, nunca é demais recordar o que já disse em Os desertos também podem ser verdes, neste Caderno R: houve quase três mil pessoas mortas, quando do ataque às torres do WTC em Nova Iorque, sem dúvidas inocentes e mártires de fundamentalismos; estas têm sido muito recordadas - e não sem merecido pesar – mas, não se pode esquecer que o cada dia morre cerca de 30 mil pessoas (sim, a cada dia morre o equivalente a 10 vezes os mortos no 11S!) por falta de água e de esgoto. Dessa informação vale, questionar também as responsabilidades sociais da Ciência. A pergunta que mais uma vez não nos deixa calar: quem chora por esses que morrem a cada dia devido à insensibilidade daqueles e daquelas que apenas se preocupam em fazer crescer o seu lucro? É talvez nessa voracidade do capital que se traduz, mais uma das vinganças odiosas daqueles que se insurgem contra as nações mais poderosas do Planeta, quando os bens essenciais são sonegados a alguns, mesmo enquanto outros desfrutam das mais sofisticadas benesses da tecnologia.
Como anunciei, esse texto é sobre o meu 11 de setembro de 2001. Perdoem-me leitoras e leitores do Caderno R se hoje dou azo ao meu lado intimista e fale de um 11S diferente. Cada uma e cada um que me prestigia aqui com sua leitura terá evocações de onde estava e do que fazia na metade da manhã (horário de Brasília) daquele dia em que a primavera se antecipava no hemisfério Sul. Ainda hoje sabemos dizer de nossas surpresas e do quanto migramos da incredulidade para assumir a dura realidade de catástrofe. Vimos também, repetido ad nauseam, como os aviões terroristas violaram todas as regras de segurança e se abateram primeiro em uma e depois na outra torre.
No recesso natalino de 2005, estive a primeira vez em Nova York e fui visitar o local. O que mais me impactou, então, foi como os imponentes edifícios em volta as duas torres permaneceram intactos. Quanta destreza e conhecimento de aerodinâmica envolveu o atentado. Mas me permitam repartir o porquê meu 11S de cinco anos passados foi inesquecível.
Há uma razão muito especial. Mesmo que eu também comungasse do transtorno global ante ao inusitado, minhas evocações têm dimensões muito pessoais. No exato momento em que Nova Iorque e Washington foram tomadas de um pânico inédito, que se espalhou pelo Planeta, minha mãe, era enterrada, aos 92 anos, no bucólico cemitério do Faxinal, em Montenegro. Naquele dia praticamente todos os meus colegas do Programa de Pós Graduação em Educação da UNISINOS se juntaram à dor que dividia com meus familiares e unindo-se a dezenas de pessoas da Comunidade montenegrina para homenagear àquela mulher, que mesmo sendo apenas conhecida por parentes e vizinhos era uma figura extraordinária, como ensina um dos maiores historiadores vivo, Eric Hobsbawm, em seu livro Pessoas extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz (São Paulo: Paz e Terra, 1998)
Quando deixava o local, cercado de bergamoteiras que douravam ao sol os últimos frutos da safra, recebi os primeiros informes da tragédia. No retorno à Porto Alegre a Gelsa e eu éramos alimentados por notícias. Chegado em casa adormeci para me reconfortar da noite insone em que pela última fiquei, fisicamente, com minha mãe. Mais tarde parecia que assistia a um filme de ficção. Não havia outras notícias no Planeta: tudo se relacionava às suas torres.
Pode ser senso comum, mas vi então, e ratifico agora, passado cinco anos, que sempre é prematuro se perder a mãe. Mesmo já sexagenário e ela se aproximando do centenário, parecia / parece que ainda não era hora de vê-la ser sepultada ao lado de meu pai, ali já há 14 anos. Assim, me condôo sempre quando sei de mortes de jovens mães, pois então temos crianças tornando-se órfãos.
Maria Clara Volkweiss Chassot (1909-2001) foi esposa, mãe e avó extremosa. Foi por um tempo professora e uma dedicada líder comunitária, tendo na produção artesanal de flores e adornos para vestidos de festas uma fonte de suplemento à magra pensão que recebia da aposentadoria de meu pai Afonso Oscar Chassot (1906-1987) que fora ferroviário aposentado. Sobre ele escrevi Naquele tempo existia um homem. Ele existiu e existe, pois narramos sua história, que está em www.leialivro.com.br/texto.php?uid=9854 Minha mãe continua uma presença nos muitos ensinamentos que deixou, alguns dos quais estão recordados no capítulo Presenteísmo é uma conspiração contra o passado que ameaça o futuro do meu livro Alfabetização científica: questões e desafios para Educação (Ijuí: Editora UNIJUí 2000 [4ªed 200]), quando revisito a cozinha de minha infância, no início da segunda metade do século passado. Para mim é muito bom repartir com os leitores e leitoras do Caderno R evocações que para mim são prenhes de emoções. Recordo por exemplo, que há mais de 60 anos, quando ainda não era alfabetizado, minha mãe me ensinou a responder as orações da missa em latim – língua litúrgica dos cultos da Igreja Católica a qual ela era vinculada com fervor – sem que também ela entendesse o que poderia estar significando: “Dominus vobiscum!, Sursum corda!, Orate fratres! ou Ite missa est!” Lembro de sua angustia em muitos noites, quando se interrogava: ”O que vou cozinhar amanhã” pois sabia que os sete filhos e o marido precisavam ser alimentados no dia seguinte.
No texto do Alfabetização científica que antes referi narro diferentes trabalhos domésticos que hoje não são mais parte das rotinas de crianças urbanas, como arrumar o fogo para o dia seguinte, ajudar na produção do pão, no carneio do parco, criação de galinhas... Dou destaque a apenas uma.
Tratava-se de um trabalho doméstico que era sazonal. Ocorria nas férias de verão e coincidia com a época da maturação da goiaba, da pêra, da uva... Então se preparava a “schmier” ou “chimia” – é uma geléia para passar no pão. No Brasil de influência alemã, a chimia é algo indispensável no café da manhã – ou a goiabada, a perada para um ano inteiro. Esta importante produção caseira, que movimentava toda a família exigia, muitos fazeres, que começavam com a aquisição das frutas. Na noite anterior ao cozimento das tachadas a família era envolvida no descascar e moer as frutas. A produção de goiabada era mais exigente pois os frutos, cujos odores ainda estão presentes no meu imaginário, tinham que ser muito selecionados, pois era usual estarem bichados. Havia também a necessidade de a criançada ser contida no comer exagerado de goiabas, não apenas porque o maior consumo diminuiria a produção, mas, principalmente, porque se dizia que as sementes poderiam causar um entupimento que dificultaria depois a evacuação. Uns descascavam e outros moíam as frutas. Para a moagem era usada uma máquina de moer carne manual. Aliás, esta ferramenta era algo presente em qualquer cozinha de então e era usada, além de sua finalidade primeira (a carne), para a moagem de frutas, massas, amendoim. O preparo de derivados da uva tinha outros detalhes, pois não havia a etapa da moagem.
A etapa mais trabalhosa começava no dia seguinte muito cedo. Um grande tacho de cobre era colocado sobre um tripé com fogo. Começava então a demorada etapa de mexer a massa durante o cozimento. Mexer a massa com longa colher de pau era uma tarefa que nos envolvia com duas dificuldades: a fumaça que atingia os olhos e os respingos ferventes da massa que era cozida. Para cada um destes dolorosos inconvenientes nos preveníamos com diferentes habilidades, como óculos e proteções para as pernas. Dividíamo-nos em jornadas de trabalho, e muitas vezes o quarto ou plantão de um mexer era negociado com o outro. O momento mais esperado era aquele em que se via o fundo do tacho, o que indicava que a operação chegava próximo de seu sonhado final. Então as etapas de cada um diminuíam de ½ hora ou ¼ de hora para 5 ou 10 minutos. A habilidade dos mexedores era medida pelo fato de não se deixar queimar nada no fundo do tacho. Havia descontentamento entre os mexedores quando uma tachada ou parte desta era destinada a ser cozida por mais tempo para ser endurecida para que tivéssemos depois, em nossas merendas, uma fatia de goiabada ou de perada. Mais açúcar era colocado no tacho e vinha então mais um bom tempo de mexidas com respingos e fumaças.
Ao final havia uma premiação. Podíamos raspar o tacho, e sempre havia uma recomendação muito repetida: fazê-lo rápido, pois o azinhavre ou zinabre – camada verde de bicarbonato de cobre que se forma nos objetos de cobre expostos ao ar e à umidade – que se formava era venenoso.
Um trabalho seguinte, ainda relacionado com este fabrico, era o embalar a produção. A chimia que serviria para ser passada no pão era embalada em latas, que, rotuladas com datas e tipo de frutas, eram armazenadas na despensa. Aquela destinada ao endurecimento para depois ser fatiada era colocada em caixas de madeiras revestidas internamente com papel encerado e que também eram rotuladas antes do armazenamento. É fácil imaginar a provisão que precisava ser feita, em uma grande família, para durar até o próximo verão, quando de novo haveria frutas.
Assim parece fácil imaginar o quanto desde ontem, dia do quinto ano de sua morte e hoje dia da recordação de seu sepultamento sua memória está forte comigo. Aliás, as evocações lutuosas de ontem foram catalisadas pela estada durante algum tempo no cemitério judaico da cidade de Santa Maria, que tem assemelhados ao cemitério do Faxinal por seu jeito campesino. O campo santo é lugar de recordar a vida dos que foram, como ensinou ontem o Rabino Jehuda, convidando a que as tristezas fossem substituídas por recordações dos que ali jaziam. A Gelsa eu fôramos para lá na véspera para a descoberta da matzeiva – uma celebração judaica para a inauguração da lápide tumular em até um ano após a morte de uma pessoa – de Jacob Salomão Seligman (1923-2005). Reverenciar o médico e humanista foi muito significativo. Lembro-me que o tio Salomão – um precioso tio que me foi presenteado, juntamente com a doce tia Teresa, no meu casamento com a Gelsa – tinha orgulho de ter sido Professor. Foi diretor da Faculdade de Medicina da UFSM, que ajudou a fundar integrando a primeira Universidade Federal numa cidade que não fosse capital de Estado.
Assim parece fácil que meu 11 de setembro tenha também marcas de saudades. É muito bom poder reparti-las para leitoras e leitores do Caderno R.

domingo, setembro 03, 2006

Um périplo para disseminar cultura

O 24 de agosto tem marcas tristes tanto na história da civilização ocidental e também na brasileira. Recordamos que em 1572, na assim chamada Renascença, um número não definido – fala-se em algo entre 20 e 70 mil – de protestantes franceses (huguenotes) foram mortos por ordem da casa real católica francesa, liderada pela Rainha-mãe Catarina de Médici. A mortandade – mais uma em conseqüência de divergências religiosas – é conhecida como ‘Noite de São Bartolomeu’ pois dia 24 é a celebração litúrgica deste Apóstolo. No Brasil, a mesma data, em 1954, recordamos não apenas o suicídio de Getúlio Vargas, então presidente da República, mas também os atos de vandalismo que se seguiram em manifestações populares em diferentes cidades do Brasil.

Pois este meu 24 de agosto de 2006 também se fez histórico e afortunadamente de maneira festiva. Na minha memória, a data terá um novo marco: dia que falei acerca da Ciência como um óculo para ver o mundo natural para professoras e professores de Biologia e Química em três cidades diferente Ijuí, Cruz Alta e Santo Ângelo, e se adicionar Horizontina, onde falei na noite anterior, são quatro cidades em 21 horas. Se computar aos quase 400 km percorridos entre as quatro cidades, às duas viagem de 410 km que separam Porto Alegre de Ijuí, são mais de 1.200 km percorridos para esta maratona de falas.

Penso que vale a pena detalhar um pouco o contexto que tudo isso ocorreu. Como entrei nesse turbilhão apropriadamente chamado de Circão da Cultura? No entardecer da sexta-feira, dia 18, recebi um correio eletrônico, do qual transcrevo excertos: Professor Chassot! Que prazer em ter conseguido, finalmente, contato com o senhor. Já estava há vários dias tentando encontrá-lo [...] É o seguinte: sou coordenador do evento Circão da Cultura em Ijuí, que está na quarta edição. Este ano ocorreram todos os problemas possíveis na organização do mesmo: greve prolongada de professores, confusão que a Varig criou para deslocamento de palestrantes e outras mais. Havíamos até abortado a idéia de fazer o evento neste ano, porém, havia muitos professores querendo que o mesmo acontecesse. Então, um pouco de última hora estamos tentando viabilizá-lo. O mesmo estará, nos dois primeiros dias, ocorrendo por áreas do conhecimento: Matemática e Física, Química e Biologia, Gramática e Literatura, Educação Infantil e Séries Iniciais, História e Geografia. As palestras (oficinas) estarão ocorrendo em 4 pólos (Ijuí, Santo Ângelo, Horizontina e Cruz Alta). Então, como seu nome é muito forte na região, gostaria de ver a possibilidade do senhor fazer oficinas para o grupo de Química e Biologia, as quais acontecerão no próximo dia 23 (noite) e 24 de agosto. Os públicos terão em torno de 40 a 60 professores, provenientes de 68 cidades de toda a região. [...] Peço que o senhor pense com carinho e atenda a solicitação de um grande número de professores e esteja conosco neste evento. Peço gentileza manter contato o mais rápido possível para que possamos nos organizar. Grande abraço e fico no aguardo de um breve contato seu. Obrigado, Carlos César Inácio. Respondi, quando já preparava o fogo na lareira para iniciar o shabath: Meu caro Carlos César, isso é semana que vem!... Por sorte estou com esses dois dias livres. Aceito com prazer. Entremos logo em contato para detalhes. O fim de semana transcorreu sem notícias e imaginei, que tudo não passara de uma mensagem perdida, como tantas que ocorrem na Internet.

Na segunda-feira, na metade da manhã recebo uma mensagem: Professor Chassot, tudo ok. Que "baita" notícia saber que o senhor estará conosco. Só peço gentileza informar tema da palestra e recursos necessários. A Regina já está cuidando do seu deslocamento e estará enviando notícias na data de hoje. Obrigado. Carlos. Apenas entrou uma perturbação no sistema. Pensava que seriam oficinas e agora se pedia título de uma palestra. À tarde, vejo que a situação está mais que definida, quanto a viagem, pois recebo outra mensagem. Boa Tarde, professor Chassot! Estamos contentes com a sua vinda para viabilizar a sua passagem no dia 23, com saída de Porto Alegre, às 12h45min, por favor, dirigir-se ao guichê da Ouro e Prata na rodoviária na ala internacional e apresentar a sua identidade que sua passagem já está lá ok. Regina. Mas como segundas-feiras tenho três turnos na UNISINOS, a notícia pouco me ocupou. Na terça-feira a Regina me telefona e ajunta alguns esclarecimentos. Devo realmente viajar no dia seguinte, pois teria uma fala à noite. A história da palestra continuava nebulosa.

Na manhã de quarta-feira, preparo uma exposição centrada em uma alternativa de uma oficina, para um entorno de 2 horas, pois sabia que teria duas falas por turno tendo como tema: “Ciência: um óculo para ver o mundo natural” coloco, ainda, no pen-drive a palestra “A Ciência é masculina? E, sim senhora! ” que já fiz dezenas de vezes. Poderia precisar.

Vou a Rodoviária. Havia passagem para mim. A bordo do ônibus, vejo-me acidentalmente com dois vizinhos, que de sua conversa deduzo serem parceiros comigo na jornada missioneira. Nos identificamos: um era o escritor Carlos Urbin e outro o físico e romancista Carlos Alberto do Santos, autor do premiado “O plágio de Einstein". Não sabiam muito mais que eu acerca de nossa missão.

Chegamos a Ijuí, no entardecer de quarta-feira. Dizem-me levar ao Hotel para um descanso, mas sou informado para em CINCO minutos estar na Portaria. Desço e sei que minha primeira fala é em Horizontina. Uma van leva-me com mais quatro ‘missionários’. Estão comigo os professores Luis Dante da UNESP de Rio Claro, que falará a professoras e professores de Matemática e Física, Nelson Piletti, para Geografia e História, o editor e romancista Walmor Santos da área de Gramática e Literatura e a professora Maria Helena Zancan Frantz, de Ijuí, para trabalhar com professoras e professores de Educação Infantil e Séries Iniciais. Vencidos os 85 km, estávamos em mesa de abertura de um evento, com o Prefeito de Horizontina e outras autoridades municipais da região no ginásio do Colégio Cristo Rei. Desfeita a mesa, falei, então, para um grupo de professoras e professores de Biologia e Química. Voltamos, então para Ijuí.

Retornados ao hotel, só então, entendi o esquema do evento. Havia quatro quintetos que se alternariam nas quatro cidades-pólos de 68 municípios da região. Assim, na quinta-feira, com os mesmos colegas que comigo foram a Horizontina na noite anterior, iniciamos nossa peregrinação por Ijuí, com uma fala na Faculdade Geração Positiva, em Ijui. É esta novel instituição de ensino superior de Ijuí é que movimenta mais de duas mil pessoas no Circão da Cultura.

Ainda na manhã de 24 de agosto, depois da fala em Ijuí, o mesmo quinteto se deslocou nua viagem de 45 km para Cruz Alta. Na terra natal de Érico Veríssimo, falei uma vez mais para professoras e professores de Química e Biologia que estavam reunidos do Instituto de Educação Annes Dias. Após almoçamos com Prof. Rui Camini, coordenador da Faculdade Geração Positiva. Logo em seguida percorremos os 90 km que separam Cruz Alta de Santo Ângelo.

A tarde foi mais tranqüila, pois nosso quinteto fazia apenas a segunda série de palestras da tarde em Santo Ângelo. Falei, uma vez mais para colegas de Química e Biologia, das 15h30min às 17h no Centro Municipal de Cultura. Imediatamente fizemos os 45 km de retorno a Ijuí, com expectativa que meu retorno fosse às 19h... e era às 18h05min, mesma hora que chegava no hotel. Para minha sorte, deixara tudo pronto na portaria e ônibus que vinha de Santa Rosa atrasou um pouco o embarque. Cheguei um pouco depois da meia-noite em Porto Alegre ... muito feliz como minha gratificante jornada.

Uma decepção que também é uma prova do intenso rodar que vivemos. Um dos outros palestrantes que falou, ora antes, ora depois de mim, a colegas de Biologia e de Química foi o autor consagrado de livros didáticos de Química Antônio Lembo. Há anos buscamos nos encontrar. Quando vi seu nome na programação, disse-me: “É hoje!”, mas como ele me escreveu depois: “Quase deu! ... desta vez bateu na trave!’ Não nos vimos, mesmo tendo estado no mesmo período nas mesmas quatro cidades.

Há ainda algo a contar acerca do evento. Na sexta-feira, os participantes que assistiram atividades em Horizontina, Cruz Alta e Santo Ângelo convergiram à Ijuí, onde os cerca de 2000 participantes tiveram atividades conjuntas, com renomados conferencistas e espetáculos teatrais.

Ver uma instituição como a Faculdade Geração Positiva que hoje já marca positivamente o Noroeste do Estado catalisando a disseminação do saber é algo que merece aplauso, até porque o Carlos César Inácio e Rui Camini parecem estar conscientes de que o que separa os ricos dos pobres – não apenas as pessoas como os países – é que estes não têm apenas menos bens, mas é o fato de que a grande maioria deles está excluída da criação e dos benefícios do saber científico. É responsabilidade de uma instituição de ensino ajudar a minimizar essa exclusão. O Circão da Cultura – que sabe captar os incentivos da LIC – é um artefato cultural excelente no fazer que mais gente tenha acesso ao conhecimento.