quinta-feira, agosto 17, 2006

Os desertos também podem ser verdes

Attico Chassot

Nesta quarta-feira (16AGO06) enviei ao Ministro da Justiça esta mensagem: Senhor Prof. Dr. Márcio Thomas Bastos, M. D. Ministro da Justiça, acredito no empenho patriótico e justo de Vossa Excelência para que as terras dos povos Tupiniquim e Guarani, no Espírito Santo, voltem a seus donos deixando de ser desertificadas pela Aracruz com o plantio de eucalipto. Com expectativas, attico chassot.

Orgulhoso pelo convite de fazer parte dos colunistas do Caderno R, pareceu-me oportuno trazer um assunto polêmico para minha estréia. O tema é mais que polêmico, ele dolorosamente triste.

Neste 20 de agosto, a Funai (Fundação Nacional do Índio) entregará o relatório final sobre os 18 mil hectares de terras indígenas no norte do Espírito Santo, hoje sob posse da empresa Aracruz Celulose. A área é originária dos povos Tupiniquim e Guarani, mas em 1967, a companhia começou a plantar eucaliptos indiscriminadamente e expulsou as aldeias da região. Antes da chegada da Aracruz, havia 40 aldeias indígenas no estado. Hoje são apenas sete. Na mesma época, a empresa também entrou nas terras de mais de 10 mil quilombolas e camponeses que viviam como posseiros no estado. Uma das responsáveis pela extinção dos povos indígenas, a Aracruz extirpa cultura e seres humanos.

No Rio Grande do Sul há um projeto dantesco: Pretende-se reflorestar a metade sul do Estado com eucaliptos para transformar, posteriormente a madeira em celulose. Isso fazer um deserto verde.

Recentemente (março de 2006) o governador do Rio Grande do Sul classificou como crime hediondo e um ato de banditismo o protesto político de mulheres trabalhadoras, que em manifestações alusivas ao Dia Internacional da Mulher, destruíram viveiros com milhares de mudas de eucalipto que seriam usadas por uma transnacional da celulose para reflorestamento de extensas regiões do Estado. O ato foi descrito por certa imprensa - que aplaudiu as bravatas palacianas - como a destruição de lavouras, quando, diferentemente do que foi alardeado, os viveiros atacados nem são locais de pesquisa.

Nas aulas que ministrei no Curso de Pedagogia e no Programa de Pós-Graduação em Educação da UNISINOS, nos dias subseqüentes a esse acontecimento, não apenas desagravei as mulheres ofendidas pelo Governador, como expressei minha admiração pelo ato realizado pelas mulheres trabalhadoras; que via como defesa da vida da nossa e de gerações futuras, mostrando que com florestas também se faz desertos. O significativo que, nas diferentes turmas, havia alunas e alunos cujos pais já tiveram suas terras tornadas devolutas devido ao plantio de eucaliptos.

Sabemos o quanto o eucalipto é um predador de nossos solos, alterando a produtividade dos mesmos com modificações drásticas de ecossistemas. Terras onde houve reflorestamento com eucalipto depois se tornaram devolutas; mananciais aqüíferos (inclusive grandes açudes) secaram e o solo ficou pobre, pois nutrientes como fosfatos são literalmente exauridos de onde cresce o eucalipto. É preciso lembrar que numa floresta dessa planta exótica para nós não chegam pássaros e nem mesmo insetos.

Essa plantação de eucaliptos tem conseqüências maiores. Não são apenas as terras que ficam devolutas. O crime não termina aí.

Por quê antes se afirmou que essas empresas fazem de nossas terras e nossas águas seu quarto de despejo? Cortadas as árvores dos toros se retira a celulose. Esse não é um processo trivial. Exige beneficiamentos químicos que não podem ser comentados aqui e agora, mas que representam agressões ao ar e às águas. Não é sem razão que essas indústrias se instalam em países periféricos, para depois da matéria pré-pronta se enviá-la aos países centrais, que têm seu ambiente preservado. Algo que quase não se refere nessas discussões é o que se chama hoje de exportação de água virtual. Pois quando exportamos mil toneladas de trigo, por exemplo, exportamos um bilhão de toneladas de água (pois se consome cerca de 1m³ de água para a produção de cada quilograma de trigo). Podemos imaginar qual seja as exigências de água para beneficiar uma tonelada de celulose.

Situações como essas são agressões contra os países em desenvolvimento, e colaboram, ou melhor, dificultam e até proíbem o acesso da maior parte da população mundial à água de qualidade. Vale lembrar que se as mortes de cerca de três mil inocentes, quando do ataque às torres do WTC em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001, têm sido muito recordadas - e não sem merecido pesar - a cada dia morrem cerca de 30 mil pessoas (sim, a cada dia morre o equivalente a 10 vezes os mortos no 11S)[1] por falta de água e de esgoto. Dessa informação vale, questionar também as responsabilidades sociais da Ciência. A pergunta que mais uma vez não nos deixa calar: quem chora por esses que morrem a cada dia devido a insensibilidade daqueles e daquelas que apenas se preocupam em fazer crescer o seu lucro? É talvez nessa voracidade do capital que se traduz mais uma das vinganças da tecnologia, quando os bens essenciais são sonegados a alguns, mesmo enquanto outros desfrutam das mais sofisticadas benesses da tecnologia.

Não é apenas a desertificação da metade sul do estado que vamos legar para os filhos de nossos filhos, mas estamos terminando com todo uma cultura que uma vez se chamava ‘modo de viver no pampa’. Acerca desse epistemicídio ainda não estamos sendo cobrado, pois ele é mascarado na promessa de lucros fáceis e na valorização ‘momentâneas’ de terras.

Para garantir a demarcação das terras, os indígenas iniciaram uma campanha de envio de correios eletrônicos ao ministro Márcio Thomas Bastos. Sou daqueles que apoio a iniciativa e espero que, em alguma medida, a dívida histórica com esses povos seja reparada. Apelo em minha estréia aqui no Caderno R a todos e todas, em nome dos verdadeiros donos das terras brasileiras, a se somarem nessa corrente de solidariedade. Para participar, escreva para: gabinetemj@mj.gov.br Os verdadeiros donos da terra agradecem essa ajuda.

[1]Ouvi essa afirmação dolorosa de Riccardo Petrella, economista italiano, professor na Universidade Católica de Lovaina, Bélgica, que esteve na UNISINOS, participando em setembro de 2004, do Simpósio Internacional Água: Bem Público Universal com a palestra “Água: o desafio do bem comum”. A palestra está publicada no livro NEUTZLING, Inácio, Água: Bem Público Universal. São Leopoldo: Editora Unisinos. 2004, p. 9-31.

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