domingo, agosto 20, 2006

Agricultores que cultivam milho crioulo são pesquisadores

Na segunda-feira, 14 de agosto de 2006, no Programa de Pós-Graduação em Educação da UNISINOS foi defendida uma dissertação reconhecida com significativa. Antônio Valmor de Campos mostrou o quanto agricultores que cultivam milho crioulo são pesquisadores e por esta razão detêm propriedade intelectual sobre as sementes às quais agregam valores.

A dissertação “O RECONHECIMENTO DE AGRICULTORES DO MUNICÍPIO DE ANCHIETA-SC, QUE CULTIVAM SEMENTES DE MILHO CRIOULO, COMO PESQUISADORES E DETENTORES DE DIREITO DA PROPRIEDADE INTELECTUAL SOBRE A MELHORIA DESSAS SEMENTES” narra o trabalho de agricultores de Anchieta, SC e de municípios lindeiros, na seleção e na produção de sementes de milho crioulo, resistindo aos oligopólios das sementeiras que seduzem os agricultores para que adiram ao plantio de milho híbrido, cujas ‘sementes não são sementespois na safra seguintes são estéreis, obrigando aos agricultores a comprar, a cada plantação, novas sementes.

Antônio que é graduado em Biologia e em Direito acompanhou durante quase um ano o processo de seleção de mais de uma dezena de variedade de semente de milho e o cruzamento destas para a produção de novas variedades que apresentam características nutricionais e de resistência a pragas com vantagens se comparadas, inclusive, com as alardeadas sementes híbridas. Uma característica fundamental destas sementes caipiras ou crioulas: por não serem patenteadas por transnacionais, elas continuam sendo patrimônio da humanidade, comomilênios. Em uma analogia com os softwares livres na área de informática, na dissertação foi defendida a busca de alternativas para que esses agricultores tenham seu trabalho de pesquisa protegido pela autorga de propriedade intelectual sobre o mesmo, para a preservação contra a biopirataria.

O novo mestre em Educação, que é professor na URI de Frederico Westphalen, obteve seu título no mestrado Interinstitucional que a URI realiza com a UNISINOS. A banca examinadora formadas pelas professoras doutoras Edite Maria Sudbrack da URI e Gelsa Knijnik da UNISINOS reconheceu o trabalho como de profundo significado político e ético, destacando o consistente balizamento teórico-metodológico, recomendando a publicação do mesmo. O orientador foi o professor Attico Chassot. A sessão de defesa foi prestigiada também por lideres sindicais catarinense, pois o agora mestre em Educação Antônio Valmor de Campos é dirigente do Sindicato de Professores da Rede Publica Estadual de Santa Catarina.

No trabalho trazido à defesa foi destacado como homens e mulheres que resistem ao ato predador das apátridas empresas de sementes, não estão apenas defendendo a biodiversidade de espécies, mas estão lutando pela não ruptura cultural. Esta conseqüência danosa determinada pelo oligopólio sementeiro tem custo ambiental difícil de mensurar. Assim como em meu texto da semana anterior dizias queDesertos também pode ser verdes’ aproveito essa referência ao trabalho de Antônio Valmor de Campos para destacar que, quando se tem em mente o anunciado projeto de reflorestar com eucaliptos o Rio Grande do Sul, não é apenas a desertificação da metade sul do estado que vamos legar para os filhos de nossos filhos, mas estamos terminando com todo uma cultura queum tempo se chamava ‘modo de viver no pampa’. Também, no caso das sementes, e vale também para as matrizes animais como as galinhas ou suínos, estamos cometendo um epistemicídio, pois se está terminando com toda uma cultura a respeito da preservação da biodiversidade. Não é sem razão que Anchieta, SC, hoje é reconhecida como capital nacional do milho crioulo.

Quando visitei com o Antônio os agricultores do Oeste Catarinense, apenas me convenci o quanto aqueles homens e mulheres que resistem a sedução do milho híbrido que encantou a nossos avós assim como as sereias seduziram a Ulisses e seus navegadores, como aprendemos na Odisséia, são realmente geneticistas que repetem com milho aquelas experiências que monge agostiniano Gregor Mendel fazia com ervilhas nos jardins do monastério onde vivia há 1,5 século. Não sei quantos de vocês conseguem imaginar o que significa resistir a promessa de lucros fáceis quando se passa a usar sementes produzidas por empresas biopiratas? É uma situação desigual. No meu livro Educação ConsCiência (Santa Cruz do Sul, EdUNISC, 2003) ao tratar desse assunto evoco o bíblico duelo Davi lutando contra Golias. Aliás, nos dias dessa guerra horrenda termos uma inversão de personagens, pois o pequeno Davi se converteu em uma belicosa nação que para guerrear se faz gigante.

Esperamos que muito em breve possa anunciar aqui o livro que deverá ser produzido a partir dessa dissertação. Antecipo que estamos diante de sementes que não são estéreis.

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