terça-feira, agosto 29, 2006

Dividindo um frango e avaliando professoras e professores


Pantagruel deliciava-se com um frango inteiro. Seu bigode, recém untado aloirava-se com a farofa que acompanhava o dourado galináceo assado. Enquanto se locupletava com uma coxa em cada mão e dois olhos irradiando o saciar de sua gula, Lázaro aproximou-se da mesa. De seu olhar podia-se inferir que as paredes de seu estômago deveriam estar aderidas uma a outra, pois tudo indicava a vacuidade de mesmo. Pantagruel atira-lhe duas asícolas torradas que descartou da porção que devorava. Estas são apanhadas no ar por Lázaro e vão direto mitigar-lhe a fome. Um frango saciou a gula de um e amenizou a fome de outro. Um frango e dois homens. Estatisticamente: 50% de frango para cada um.


Lembrei-me desta historieta quando na minha Universidade, no início de um novo período letivo, há uma quase comoção de muitos colegas com a publicação do resultado da avaliação feita pelos clientes, digo por alunas e alunos, acerca do desempenho de professoras e professores no semestre passado. Há porquê para o desconforto.

Nesses tempos de economia neoliberal – em que a OMC legisla também acerca da gestão de uma fatia dourada de produto lançado a clientes ávidos: o ensino –, essa preocupação tem suas razões. Há sempre candidatos para assumirem postos que vagam, usualmente não pelo desejo daqueles que deixam um posto de trabalho.

Olho primeiro o resultado da minha avaliação. Fico sabendo primeiro acerca do tamanho da amostra. Das 61 alunas e um aluno que, nas noites de segundas-feiras, em 2006/1 cursaram comigo o Programa de Aprendizagem Saberes e Fazeres Pedagógicos: Educação Matemática e Ciências, na Atividade Educação em Ciências quatro estudantes foram, num período superior a 30 dias, ao sítio de avaliação do ensino para opinar sobre o meu desempenho como professor. Mesmo que esse número seja menos que 7% (em toda Universidade esse índice sobe a 16%) com ele se pode fazer inferências como aquela das duas pessoas em que juntas consumiram um frango. Dos quatro estudantes um deu-me nota 1, outro nota sete e dois nota dez. Assim fiquei com média 7.0, resultado da divisão por 4 dos 28 obtidos da adição de 1+7+ (2x10). Assim, sei que se apenas a aluna que me atribuiu nota sete tivesse respondido a pesquisa, se teria pelo menos economizado algumas tabelas e muitos cálculos, mas eu seria, para o sistema avaliativo, o mesmo professor média sete. Mas como eu ficaria se a única respondente fosse aquela que me deu nota um. Claro que em termos probabilístico seria mais provável que, se houvesse apenas uma participante da pesquisa, essa fosse uma da metade que me deu nota dez.

Mas essa avaliação evidencia algo mais, em termos quantitativos. Sou um professor 7.75 quanto ao Cumprimento do horário, mesmo que não houvesse deixado de dar nenhuma das aulas, nunca ter sido registrado um atraso ou término antecipado de uma aula. Aliás, 7.75 é minha maior nota, obtida pela maneira descrita, quando do cálculo do 7,00 como minha média geral. Obtive essa mesma média nos itens: Incentivo atitude investigativa // Atenção às dificuldades aprendizado // Postura ética, cidadã e solidária // Motivação para dar aula // Domínio do conteúdo aula // Capacidade de ensinar // Desenvolvimento programa da disciplina // Contribuição para a formação humana. Ou seja, em todos os itens fui ferreteado por um dos estudantes, um segundo me deu mais que de sete; a outra metade (dois estudantes) me atribuiu quase o máximo. Mesmo aquela aluna que aproveitou apenas duas asinhas do frango, digo de minhas aulas, teve significância para degradar em cerca de 25% todas as minhas notas, como se tivesse comido quase um frango inteiro.

Em outros itens tirei notas um pouco mais baixas: 7.0 nos quesitos: Exemplos relacionados áreas de atuação // Contribuição para formação profissional. A média diminuiu um pouco: 6.75 no item: Incentivo à participação dos alunos. Caiu para 6,50 em: Atenção ao mercado de trabalho // Relação da disciplina com o curso // Estímulo ao uso da bibliografia // Diversificação das aulas e minha pior média foi 6,25 em dois itens: Diversificação na avaliação // Adequação dos meios de avaliação. Poderia fazer algumas análises destes resultados, assim como fiz acerca do cumprimento do horário. Não vou fazê-lo, pois não sei o quanto um aluno possa avaliar, por exemplo, se tenho ou não domínio do conteúdo. Talvez a média 7,75, por exemplo, em Postura ética, cidadã e solidária seja determinada por uma (leia-se 25% dos respondentes) estudante a quem mais de uma vez exigi silêncio, quando outras alunas ou eu estivéssemos expondo algo para todos.

Mas alunas e alunos foram chamados a fazer observações qualitativas: O que mais você gostaria de comentar a respeito deste Professor /desta Professora?. Apenas duas alunas fizeram algum comentário. Uma disse com todas as letras: “o professor attico nunca sabe como dar aula, esta sempre fazendo o mesmo assunto todas as segundas feiras e quanto da trabalho nao sabe explicar como fazer; antes quando nao era pA era bem melhor os professores nao se preocupavam com notas mais sim com o que o aluno tinha aprendido, e agora os professores se preocupam com notas parece que quanto mais aluno passar mais eles ganho.” Vexei-me? Não. Primeiro, uma acadêmica que não sabe redigir menos que meia dúzia linhas, realmente deve achar que não sei dar aula. Certamente, para usufruir minhas falas se precisa algo mais. A comparação entre o sistema por disciplinas com o de Programas de Aprendizagem não procede, pois é o inverso, já que agora não há preocupação com notas. Prefiro ficar com opinião, mesmo que exagerada, de uma outra aluna: “Ele é um gênio, adoro ouvir ele falando.” Esta certamente aproveitou muito mais das aulas.

Por que torno público algo tão pessoal, que a Universidade confia, sob sigilo a cada professor. Primeiro, para dizer a alguns colegas, especialmente aqueles que ainda estão distante de estar vivendo nesse 2006 seu 46º ano de magistério, que essas pesquisas de opiniões representam um universo muito pequeno de estudantes e não traduz uma amostra representativa. Esse tipo de avaliação, muitas vezes, se converte em um bom momento para desrecalque. Quanta raiva armazenada numa hora desta extravasa, para ferretear o professor. Aqueles que usualmente se sentem reprimidos, quando trocam de lado, são excelentes repressores. Segundo, nenhuma instituição, e a UNISINOS é um bom exemplo disso, usaria dados tão claudicantes para demitir, ou prejudicar, um profissional. Que bom que se dê voz a alunas e alunos mesmo que depois se faça pouco com essas falas. É lamentável apenas que essa avaliação transtorne a alguns colegas no início de mais um semestre. Só posso dizer a esses: não se amofinem. Vale pensar que nesse semestre os bons alunos darão outros resultados a essa avaliação.


domingo, agosto 20, 2006

Agricultores que cultivam milho crioulo são pesquisadores

Na segunda-feira, 14 de agosto de 2006, no Programa de Pós-Graduação em Educação da UNISINOS foi defendida uma dissertação reconhecida com significativa. Antônio Valmor de Campos mostrou o quanto agricultores que cultivam milho crioulo são pesquisadores e por esta razão detêm propriedade intelectual sobre as sementes às quais agregam valores.

A dissertação “O RECONHECIMENTO DE AGRICULTORES DO MUNICÍPIO DE ANCHIETA-SC, QUE CULTIVAM SEMENTES DE MILHO CRIOULO, COMO PESQUISADORES E DETENTORES DE DIREITO DA PROPRIEDADE INTELECTUAL SOBRE A MELHORIA DESSAS SEMENTES” narra o trabalho de agricultores de Anchieta, SC e de municípios lindeiros, na seleção e na produção de sementes de milho crioulo, resistindo aos oligopólios das sementeiras que seduzem os agricultores para que adiram ao plantio de milho híbrido, cujas ‘sementes não são sementespois na safra seguintes são estéreis, obrigando aos agricultores a comprar, a cada plantação, novas sementes.

Antônio que é graduado em Biologia e em Direito acompanhou durante quase um ano o processo de seleção de mais de uma dezena de variedade de semente de milho e o cruzamento destas para a produção de novas variedades que apresentam características nutricionais e de resistência a pragas com vantagens se comparadas, inclusive, com as alardeadas sementes híbridas. Uma característica fundamental destas sementes caipiras ou crioulas: por não serem patenteadas por transnacionais, elas continuam sendo patrimônio da humanidade, comomilênios. Em uma analogia com os softwares livres na área de informática, na dissertação foi defendida a busca de alternativas para que esses agricultores tenham seu trabalho de pesquisa protegido pela autorga de propriedade intelectual sobre o mesmo, para a preservação contra a biopirataria.

O novo mestre em Educação, que é professor na URI de Frederico Westphalen, obteve seu título no mestrado Interinstitucional que a URI realiza com a UNISINOS. A banca examinadora formadas pelas professoras doutoras Edite Maria Sudbrack da URI e Gelsa Knijnik da UNISINOS reconheceu o trabalho como de profundo significado político e ético, destacando o consistente balizamento teórico-metodológico, recomendando a publicação do mesmo. O orientador foi o professor Attico Chassot. A sessão de defesa foi prestigiada também por lideres sindicais catarinense, pois o agora mestre em Educação Antônio Valmor de Campos é dirigente do Sindicato de Professores da Rede Publica Estadual de Santa Catarina.

No trabalho trazido à defesa foi destacado como homens e mulheres que resistem ao ato predador das apátridas empresas de sementes, não estão apenas defendendo a biodiversidade de espécies, mas estão lutando pela não ruptura cultural. Esta conseqüência danosa determinada pelo oligopólio sementeiro tem custo ambiental difícil de mensurar. Assim como em meu texto da semana anterior dizias queDesertos também pode ser verdes’ aproveito essa referência ao trabalho de Antônio Valmor de Campos para destacar que, quando se tem em mente o anunciado projeto de reflorestar com eucaliptos o Rio Grande do Sul, não é apenas a desertificação da metade sul do estado que vamos legar para os filhos de nossos filhos, mas estamos terminando com todo uma cultura queum tempo se chamava ‘modo de viver no pampa’. Também, no caso das sementes, e vale também para as matrizes animais como as galinhas ou suínos, estamos cometendo um epistemicídio, pois se está terminando com toda uma cultura a respeito da preservação da biodiversidade. Não é sem razão que Anchieta, SC, hoje é reconhecida como capital nacional do milho crioulo.

Quando visitei com o Antônio os agricultores do Oeste Catarinense, apenas me convenci o quanto aqueles homens e mulheres que resistem a sedução do milho híbrido que encantou a nossos avós assim como as sereias seduziram a Ulisses e seus navegadores, como aprendemos na Odisséia, são realmente geneticistas que repetem com milho aquelas experiências que monge agostiniano Gregor Mendel fazia com ervilhas nos jardins do monastério onde vivia há 1,5 século. Não sei quantos de vocês conseguem imaginar o que significa resistir a promessa de lucros fáceis quando se passa a usar sementes produzidas por empresas biopiratas? É uma situação desigual. No meu livro Educação ConsCiência (Santa Cruz do Sul, EdUNISC, 2003) ao tratar desse assunto evoco o bíblico duelo Davi lutando contra Golias. Aliás, nos dias dessa guerra horrenda termos uma inversão de personagens, pois o pequeno Davi se converteu em uma belicosa nação que para guerrear se faz gigante.

Esperamos que muito em breve possa anunciar aqui o livro que deverá ser produzido a partir dessa dissertação. Antecipo que estamos diante de sementes que não são estéreis.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Os desertos também podem ser verdes

Attico Chassot

Nesta quarta-feira (16AGO06) enviei ao Ministro da Justiça esta mensagem: Senhor Prof. Dr. Márcio Thomas Bastos, M. D. Ministro da Justiça, acredito no empenho patriótico e justo de Vossa Excelência para que as terras dos povos Tupiniquim e Guarani, no Espírito Santo, voltem a seus donos deixando de ser desertificadas pela Aracruz com o plantio de eucalipto. Com expectativas, attico chassot.

Orgulhoso pelo convite de fazer parte dos colunistas do Caderno R, pareceu-me oportuno trazer um assunto polêmico para minha estréia. O tema é mais que polêmico, ele dolorosamente triste.

Neste 20 de agosto, a Funai (Fundação Nacional do Índio) entregará o relatório final sobre os 18 mil hectares de terras indígenas no norte do Espírito Santo, hoje sob posse da empresa Aracruz Celulose. A área é originária dos povos Tupiniquim e Guarani, mas em 1967, a companhia começou a plantar eucaliptos indiscriminadamente e expulsou as aldeias da região. Antes da chegada da Aracruz, havia 40 aldeias indígenas no estado. Hoje são apenas sete. Na mesma época, a empresa também entrou nas terras de mais de 10 mil quilombolas e camponeses que viviam como posseiros no estado. Uma das responsáveis pela extinção dos povos indígenas, a Aracruz extirpa cultura e seres humanos.

No Rio Grande do Sul há um projeto dantesco: Pretende-se reflorestar a metade sul do Estado com eucaliptos para transformar, posteriormente a madeira em celulose. Isso fazer um deserto verde.

Recentemente (março de 2006) o governador do Rio Grande do Sul classificou como crime hediondo e um ato de banditismo o protesto político de mulheres trabalhadoras, que em manifestações alusivas ao Dia Internacional da Mulher, destruíram viveiros com milhares de mudas de eucalipto que seriam usadas por uma transnacional da celulose para reflorestamento de extensas regiões do Estado. O ato foi descrito por certa imprensa - que aplaudiu as bravatas palacianas - como a destruição de lavouras, quando, diferentemente do que foi alardeado, os viveiros atacados nem são locais de pesquisa.

Nas aulas que ministrei no Curso de Pedagogia e no Programa de Pós-Graduação em Educação da UNISINOS, nos dias subseqüentes a esse acontecimento, não apenas desagravei as mulheres ofendidas pelo Governador, como expressei minha admiração pelo ato realizado pelas mulheres trabalhadoras; que via como defesa da vida da nossa e de gerações futuras, mostrando que com florestas também se faz desertos. O significativo que, nas diferentes turmas, havia alunas e alunos cujos pais já tiveram suas terras tornadas devolutas devido ao plantio de eucaliptos.

Sabemos o quanto o eucalipto é um predador de nossos solos, alterando a produtividade dos mesmos com modificações drásticas de ecossistemas. Terras onde houve reflorestamento com eucalipto depois se tornaram devolutas; mananciais aqüíferos (inclusive grandes açudes) secaram e o solo ficou pobre, pois nutrientes como fosfatos são literalmente exauridos de onde cresce o eucalipto. É preciso lembrar que numa floresta dessa planta exótica para nós não chegam pássaros e nem mesmo insetos.

Essa plantação de eucaliptos tem conseqüências maiores. Não são apenas as terras que ficam devolutas. O crime não termina aí.

Por quê antes se afirmou que essas empresas fazem de nossas terras e nossas águas seu quarto de despejo? Cortadas as árvores dos toros se retira a celulose. Esse não é um processo trivial. Exige beneficiamentos químicos que não podem ser comentados aqui e agora, mas que representam agressões ao ar e às águas. Não é sem razão que essas indústrias se instalam em países periféricos, para depois da matéria pré-pronta se enviá-la aos países centrais, que têm seu ambiente preservado. Algo que quase não se refere nessas discussões é o que se chama hoje de exportação de água virtual. Pois quando exportamos mil toneladas de trigo, por exemplo, exportamos um bilhão de toneladas de água (pois se consome cerca de 1m³ de água para a produção de cada quilograma de trigo). Podemos imaginar qual seja as exigências de água para beneficiar uma tonelada de celulose.

Situações como essas são agressões contra os países em desenvolvimento, e colaboram, ou melhor, dificultam e até proíbem o acesso da maior parte da população mundial à água de qualidade. Vale lembrar que se as mortes de cerca de três mil inocentes, quando do ataque às torres do WTC em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001, têm sido muito recordadas - e não sem merecido pesar - a cada dia morrem cerca de 30 mil pessoas (sim, a cada dia morre o equivalente a 10 vezes os mortos no 11S)[1] por falta de água e de esgoto. Dessa informação vale, questionar também as responsabilidades sociais da Ciência. A pergunta que mais uma vez não nos deixa calar: quem chora por esses que morrem a cada dia devido a insensibilidade daqueles e daquelas que apenas se preocupam em fazer crescer o seu lucro? É talvez nessa voracidade do capital que se traduz mais uma das vinganças da tecnologia, quando os bens essenciais são sonegados a alguns, mesmo enquanto outros desfrutam das mais sofisticadas benesses da tecnologia.

Não é apenas a desertificação da metade sul do estado que vamos legar para os filhos de nossos filhos, mas estamos terminando com todo uma cultura que uma vez se chamava ‘modo de viver no pampa’. Acerca desse epistemicídio ainda não estamos sendo cobrado, pois ele é mascarado na promessa de lucros fáceis e na valorização ‘momentâneas’ de terras.

Para garantir a demarcação das terras, os indígenas iniciaram uma campanha de envio de correios eletrônicos ao ministro Márcio Thomas Bastos. Sou daqueles que apoio a iniciativa e espero que, em alguma medida, a dívida histórica com esses povos seja reparada. Apelo em minha estréia aqui no Caderno R a todos e todas, em nome dos verdadeiros donos das terras brasileiras, a se somarem nessa corrente de solidariedade. Para participar, escreva para: gabinetemj@mj.gov.br Os verdadeiros donos da terra agradecem essa ajuda.

[1]Ouvi essa afirmação dolorosa de Riccardo Petrella, economista italiano, professor na Universidade Católica de Lovaina, Bélgica, que esteve na UNISINOS, participando em setembro de 2004, do Simpósio Internacional Água: Bem Público Universal com a palestra “Água: o desafio do bem comum”. A palestra está publicada no livro NEUTZLING, Inácio, Água: Bem Público Universal. São Leopoldo: Editora Unisinos. 2004, p. 9-31.