Domingo, Novembro 05, 2006

Será uma questão de DNA?

Quando morre um velho é como uma biblioteca que queima


Esta é uma crônica na qual mais uma vez dou azo ao meu lado intimista. Ela se faz em uma celebração que divido com cada uma e cada um dos meus leitores do Caderno R. Aliás, já disse que talvez exagere – e ninguém me contestou – que avalio esse universo de leitores em meia dúzia.
Primeiro a decodificação da sigla do título. Mesmo que tenha falado em decodificar, não estou às voltas com código genético ou com o ácido desoxiribonuclêico e também não vou falar – já que há poucas semanas vivemos o período do anúncio dos laureados com o Nobel de 2006 – nas injustiças que houve em não ter sido atribuído o Prêmio Nobel pela descoberta da estrutura da dupla hélice do DNA a Rosalind Franklin, que foi decisiva na descoberta em 1953, que 9 anos de depois (1962) premiou Francis Crick, James Watson e Maurice H.F. Wilkins.
Aliás, lateralmente devo dizer que minha tese de que a Ciência é masculina exposta em um livro
[1] foi uma vez mais ratificada nas láureas com Nobel em 2006. Esse ano não apenas a Ciência apareceu como masculina. Os prêmios de Ciências – Física, Medicina e Química – foram respectivamente para dois, dois e um estadunidenses. A esses cinco homens junte-se: um estadunidense que ganhou o Nobel de Economia; um turco, o de Literatura; e um indiano, o da Paz e temos, em 2006, nove homens laureados e nenhuma mulher. Já houve agora 515 láureas nos três Prêmios Nobel de Ciências, mantendo-se as mulheres com doze (duas em Física, três em Química e sete em Medicina ou Fisiologia). Destas doze mulheres laureadas, apenas duas ganharam o prêmio sozinhas: em 1911 Maria Curie ganhou o de Química (que já havia ganho junto com Pierre Curie e Henri Becquerel, em 1903 o de Física) e em 1983, a geneticista estadunidense Barbara McClintock foi laureada com o de Medicina.
Permitam-me, ainda antes de decodificar o DNA do título desta crônica, fazer um preito de admiração e reconhecimento à Rosalind Elsie Franklin (1920-1958). Ela é chamada a dama sombria do DNA. Rosalind morreu aos 37 anos, de câncer de ovário, 4 anos antes de em 1962, ser outorgado o Prêmio Nobel de Medicina ao britânico, Francis Harry C. Crick, ao estadunidense James D. Watson e ao neozelandês, Maurice H.F. Wilkins. Há os que afirmam que foi injustamente esquecida, não apenas na premiação como nas usuais referências à descoberta do DNA. Rosalind Franklin, uma pesquisadora britânica, contribuiu significativamente para a elucidação da estrutura do DNA, pois foi com a fotografia que ela obtivera com raios X, que permitiu que Watson e Crick tivessem o lampejo para desvendar a dupla hélice. A imagem foi mostrada a eles por Wilkins, sem o consentimento de Rosalind. Usualmente os dois nomes que são lembrados, quando se refere à determinação da estrutura do DNA são os de Crick e Watson. Wilkins era, como Rosalind, especialista em cristalografia por raios X. Watson em matérias publicadas em 2003, quando do cinqüentenário da do DNA é apresentado também por seu conhecido machismo e por sua verve polêmica pouco correta politicamente o que nos leva a inferir o quanto, então, não poupasse esforços para tirar uma mulher do cenário dos vencedores. É importante que refira aqui, que nunca houve, pois isso é das normas, uma outorga póstuma.
Finalmente o que é o DNA do título deste texto? Perdoem a brincadeira. DNA é Data de Nascimento Avançada. Ou seja, dizer que alguém tem DNA, nessa acepção, é chamar alguém de velho ou se quiserem um adjetivo mais eufônico: anoso. Pois o meu DNA é 06/11/1939, isto é, posto este texto no dia do meu 67º aniversário.
Minha Universidade tem uma resolução que refuto não apenas discriminatória, mas acima de tudo burra - aqui a palavra não corresponde a nenhuma das 17 acepções registradas no Houaiss para burra, mas a forma feminina de duas das 40 acepções que o dicionário registra para burro: o que é ignorante (35) ou que é teimoso; obstinado (36) -, pois se definiu como 65 anos a idade limite para ser professor da instituição. Assim, 65 anos é a idade limite para jubilamento, ou expulsória em analogia à compulsória.
Por quê imputar tão dura adjetivação a uma resolução reitoral? Há argumentos, ou melhor, evidências que corroboram minha assertiva. Há não muito, ouvi uma entrevista de Zigmunt Bauman. Dava-me conta, ante a lucidez octogenária do filósofo polonês, atualmente professor em universidades em Leeds e em Varsóvia, que ele não poderia ser professor da UNISINOS. Também Ilya Prigogine (1917-2003), Prêmio Nobel de Química 1977, quando faleceu aos 86 anos era professor em duas universidades (uma belga e outra estadunidense). Exemplos como este se poderiam amealhar as dezenas, alguns dos quais na própria Universidade, e neste se incluiria preclaros jesuítas pertencentes à mantenedora. Eu mesmo me considero distinguido, pois recebi, ao chegar à idade de uma presumida morte acadêmica, uma sobrevida de mais três anos.
Ainda na defesa de minha adjetivação virulenta, trago o depoimento da cientista política germano-estadunidense Hanna Arendt
[2], falecida em 1975 e cujo centenário de nascimento se recordou a 14 de outubro, em um texto que escreveu para celebrar Martin Heidegger[3], que junto com seus 80 anos celebrava também o cinqüentenário de sua atividade pública como professor; ela começa citando Platão: “Pois o começo é também um deus que, enquanto permanece entre os homens, tudo salva”, para então trazer o depoimento quase dramático de Karl Jasper[4]: “E agora, que desejaria pela primeira vez realmente começar, é preciso partir” e então a distinguida filósofa acrescenta:
O eu pensante não tem idade, e, na medida em que os pensadores não existem efetivamente senão no pensar, sua felicidade e infelicidade é o se tornarem velhos sem envelhecer. Com a paixão do pensar ocorre o mesmo que acontece com as outras paixões: o que habitualmente conhecemos como particularidade própria da pessoa, cuja totalidade ordenada pela vontade produz então algo como um caráter, não resiste ao assalto da paixão que toma e, de certa forma, se poderá do homem e da pessoa ( p. 226).
Mas deixo de lado minha indignação contra a decisão que me fere também. Reconheço, todavia o quanto esse plus 3 anos com que fui premiado foi significativo, mesmo que me fizesse sentir um privilegiado em relação a outros colegas, o que não apenas me causa desconforto, mas uma justa ira. Minha data limite é fevereiro de 2008, sendo assim o próximo ano é meu ultimo ano letivo na UNISINOS. Não sou melhor do que aqueles que não tiveram o plus 3 anos. E por que outros têm até um plus maior do que três?
Aceito o meu DNA. Mas quero mostrar nesse texto que tê-lo maior que 65 não me parece o melhor critério para alijar alguém do seu emprego. Ser uma pessoa (im)produtiva não depende do DNA. Mesmo que talvez o físico conspire contra nós, até quando nem o espelho parece reconhecer isso. A situação se mostra mais ameaçadora quando vemos fotos de agora e as comparamos com aquelas de 10 anos passados.
Eis um desmentido a minha percepção de não me julgar anoso, mesmo que outros o façam. Nos dias que pensava sobre esse texto, ao tomar o elevador, na Universidade, uma moça, que entrou junto comigo perguntou pelo meu andar e ante minha menção o marcou no painel. Agradeci sua gentileza. A trintinha me disse toda gabola: “O meu trabalho de mestrado é sobre ajuda ao idoso!”. Fiquei estupefato. E perguntei o porquê dessa observação? Ela então, do jeito mais sem graça possível, desculpou-se. Sem graça fiquei mesmo eu, com a observação me martelando. Machucou-me, sinceramente, sim. Ela talvez nem se lembre mais.
Ter DNA não é muito trivial em nossa sociedade. Em outras culturas isso é uma distinção. A propósito lembro de uma historieta, que me foi contada pelo meu colega Nélio Bizzo, quando me levava para o aeroporto, após participar de uma banca de um orientado dele na USP e atribuída a uma cultura africana. Em barco que soçobra está um jovem pai, com seu filho de cinco anos e seu pai, já de idade avançada. Ele tem condição de a nado salvar apenas um: ou o filho ou o pai. Trágica opção. Imaginemos, um de nós frente essa escolha. Para aquele jovem pai não havia indecisão. Era natural para ele e para todo a comunidade que ele salvasse o seu pai, pois era ele que detinha o conhecimento que poderia ser útil à vida de todos e esse não poderia ser perdido. Essa decisão tem a ver com a frase que fiz capitular desse texto. Tenho usado a mesma como justificativa a uma atividade acadêmica de resgates de saberes populares. E, então é muito impressionante o quanto os jovens se seduzem com a sabedoria dos mais velhos.
Lembro sempre de uma passagem muito conhecida de José Hernandez no Martim Fierro, o épico gauchesco, onde o velho Vizcacha, ladino como animal que lhe empresta o nome, que ao dar conselhos ao filho de Fierro diz algo que sempre cito, para justificar porque me arvoro no direito de dizer certas coisas. "El primer cuidao del hombre es defender el pellejo; lleváte de mi consejo, fijáte bien en lo que hablo: el diablo sabe por diablo, pero más sabe por viejo."
[5],[6] ou, simplesmente: “O diabo tem mais de diabo por ser velho do que por ser diabo.” Chamamos isso de a voz da experiência. São sabidas nossas dificuldades em consultar um médico ou advogado mais jovem. Todavia, poucos aceitariam que uma pessoa, já mais anosa, viesse, por exemplo, viesse solucionar problemas em nosso computador. Somos exigentes, usando parâmetros nem sempre muito consistentes. No começo desse ano, minha mulher e eu fomos recebidos em uma cantina, na linda região do vale dos vinhedos do Rio Grande do Sul, por uma menina de 12 anos, que nos deu verdadeiras aulas acerca de diferentes varietais, seu cultivo e como se cuida da qualidade, ao invés da quantidade de frutos. Explicou-nos das etapas do plantio e seleção das espécies que serviriam de cavalo e daquelas que seriam enxertos. Falou os tipos de enxertia e discorreu acerca das armações para sustentação, mostrando porque do uso vertical e horizontal. Sabia identificar características do solo por análise macroscópica da terra. Isso poderia ser algo heterodoxo, quando ali estavam aprendendo dois pós-doutores com uma coloninha que está na sexta série do ensino fundamental.
Mas o que é ter DNA? Não quero ver em minha defesa, na análise de minha situação pessoal. Hoje sou mais produtivo que quando tinha 50 anos e muito mais do que aos 30 anos. Certamente tenho menos força física hoje – não confundir com resistência – mas a Universidade não me contrata para carregar livros, mas talvez para produzi-los e isso, depois que completei sessenta anos, fiz e faço mais que antes, até porque agora durmo bem menos e especialmente porque tenho muito mais experiência acumulada. Não vou descrever aqui minha produção, mas a tenho como muito significativa. Só para dar um exemplo, nesse mês de meu aniversário – além de minha rotina de professor na Graduação e pós Graduação na UNISINOS, onde oriento três mestrandos e três doutorandos – tenho sete falas em cinco Universidades diferentes e em mais duas cidades de Santa Catarina.
Poderia referir que nesse ano de 2006 entreguei a uma editora o livro Uma brecha entre o passado e o futuro, mantenho esta coluna semanal aqui no Caderno R, escrevo resenhas no £eia £ivro, respondo a consulta de professoras e professores no sítio amaivos.com.br, atualizo diariamente meu blog e brinco de adolescer no orkut onde colegas da Bahia fundaram uma comunidade ligada a meu trabalho com História da Ciência. Ah! penso que sou também esposo, pai e avô que não possa ser considerado omisso. Assim nessa adição de mais um ano em minha idade, devo dizer que salvo alguns preconceitos, 67 anos ainda não me pesam. E é muito bom celebrá-los com as leitoras e os leitores do Caderno R.
[1] CHASSOT, Attico A Ciência é masculina? E, sim senhora! São Leopoldo: Editora UNISINOS. (2ª.ed 2006) 2003]
[2] ARENDT, Hanna. Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. ISBN 85-7110-873-0
[3] HEIDEGER, Martin (1889-1976) um alemão que foi um dos mais importantes filósofos do século 20. O envolvimento com o nazismo, ainda que possa ser considerado superficial fez com que após a ocupação da Alemanha em 1945 pelos Aliados fosse afastado da Universidade. Autorizado a retornar, voltou a lecionar em 1952.
[4] JASPER, Karl (1883-1969) filósofo alemão cuja obra se inspira em Kierkegaard (Sören Aabye Kierkegaard {1813-1955} dinamarquês precursor do existencialismo contemporâneo) chega a filosofia através da psiquiatria, já em 1913 em sua primeira obra Psicopatologia geral, estuda as perturbações da relação do homem com o mundo.
[5] O primeiro cuidado do homem é defender a pele; usa de meu conselho. Presta bem atenção no que falo: o diabo sabe por diabo, porém mais sabe por velho.
[6] HERNÁNDEZ, José. Martín Fierro. Buenos Aires: El Ateneo, 1999, p.181

Terça-feira, Outubro 31, 2006

HÁ QUE SEMEAR LIVROS A MANCHEIAS

Em uma reunião de trabalho na Universidade, usei lateralmente a expressãoEla dissemina...’ e imediatamente recebi o protesto de uma muito competente (e não radical) lingüista. Argumentava: Se semente é o resultado da fecundação do óvulo pelo sêmen, a inseminação, a disseminação, a semeadura são ações masculinas que envolvem colocação do esperma. Logo não parece correto referirEla dissemina...’ podendo todavia dizerEle dissemina...’. Parece quase certo que essa observação não deve ter a adesão nem dos lingüistas mais ortodoxos. Penso queexagero. Há um tempo referir-se a um homem como histérico, podia ser objeto de uma vaia, até porque se acreditava quea histeria era uma doença nervosa que, supostamente, se originava no útero, caracterizada por convulsõeshoje a psicanálise define a histeria comoneurose na qual as moções pulsionais sofrem especialmente recalque e são inconscientemente traduzidas em sintomas corporais” e a psiquiatria comoneurose que se exprime por manifestações de ordem corporal, sem que haja qualquer problema orgânico funcionalHoje se fala até em histeria coletiva e, certamente, nesse universotambém homens.

Mas trago esse preâmbulo sem me ater à discussões epistemológicas, pois queria falar de uma outra semeadura. Não vou discutir as sementes que não são sementes. Hoje quero falar de disseminar livros, ou como pregava Monteiro Lobato ‘há que semear livros a mancheias”. Linda essa metáfora lobatiana de semear livros. E essas sementes são do tipo crioulas ou caipiras, logo fecundas. Não são daquelas híbridas que a biopirataria torna estéril em uma segunda geração e que foram objeto de comentários aqui, na minha segunda crônica nesse Caderno R.

Quero falar de um seminário – e vou de novo a etimologia de semente e aqui seminário é “canteiro onde se semeiam vegetais que depois serão transplantados’ – que faz semeadura de livros. Refiro-me ao £eia £ivro www.leialivro.sp.gov.br onde eu e muitos outros homens e mulheres buscamos divulgar o livro. Vou contar um pouco de minha presença nesse sítio.

Este texto foi originalmente produzido para celebrar, nesse mês de outubro, a publicação de minha qüinquagésima resenha no £eia £ivro. Retomo-o aqui para com a mirada na minha história ali, trazer às leitores e aos leitores do Caderno R a divulgação de um excelente local para muito boas busca de livros.

www Na noite de 8 de agosto de 2004, recebi de José Luiz Goldfarb uma destas mensagens que usualmente vão para a lixeira sem ler. Salvou-a conhecer o remetente, meu colega de lides na História da Ciência:

O site www.leialivro.com.br lançou uma nova promoção: o Clube do Leitor. Agora você pode ganhar livros novos publicando as suas sugestões de leitura no site. Funciona assim: você envia uma resenha pelo Leia Livro e se o seu texto render um boletim na Rádio Cultura, nós te mandamos um livro novo. Todas as semanas, a Rádio Cultura transmite sete novos boletins com sugestões dos participantes do Leia Livro.

Não esperei novo estímulo. Fiz uma resenha de Niketche: uma historia de poligamia que recém lera. O lindo romance de uma escritora moçambicana, Paulina Chiziane - uma negra de origem humilde, nascida em 1955 - foi minha resenha de estréia no £eia £ivro e comecei sorte. No dia seguinte recebi esta mensagem:

Olá! Meu nome é Fernanda e sou editora do site Leia Livro, o qual recebeu sua resenha. Sua dica foi escolhida para se tornar um boletim na rádio Cultura.

Nos 10 meses seguintes publiquei mais 32 resenhas, destas 20 se converteram em Boletins na Radio Cultura e algumas me renderam bons livros. [Três delas: a 13,15 e 16 foram publicadas com outra autoria]. Em maio de 2005, por razões que não merecem vir a publico, o namoro foi esfriando. Mas sempre havia uma pontinha de saudade. Treze meses depois, em junho de 2006, voltei. Cheguei mais tímido, mas as 18 resenhas produzidas nesses quatro meses, após o retorno, dão conta que o romance com o sítio volta ter a garra do início.

Destas 50 resenha 27 foram de livros de ficção, 22 não-ficção e uma infantil. Procuro alternar ficção e não ficção, mesmo sabendo o quanto, às vezes, essa diferença é tênue. Agora são 25 aquelas transformadas em Boletins na Rádio Cultura. É também muito bom, em mais de uma oportunidade, ter escutado colegas paulistas dizer que ouviram resenhas minhas radiofonizadas e aceitaram a sugestão de leituras. Continuo também amealhando livros supimpas com esse gostoso resenhar.

Por que escrevo resenhas? Gosto de ler e tenho uma imensa vontade de repartir meus prazeres para outros e isso é muito facilitado por um sítio como o £eia £ivro, pois esse é o local daqueles que gostam de curtir livrarias. Aliás, aqui parece que estamos em uma livraria cercado de apaixonados leitores. A resenha é um excelente facilitador de acesso ao livro. Fui editor de três revistas científicas onde privilegiava espaço para resenhas. Sempre estimulo meus orientandos a escrever resenhas, que com objetivos diferentes daqueles do £eia £ivro. Como editor coloco uma exigência a um resenhista: o leitor de uma resenha deve ser (des)entusiasmado a ler o livro. Numa resenha em uma revista acadêmica, os textos são de 5 a 10 páginas, em geral críticos ou até polêmicos. Aqui neste sítio as alternativas são sempre de recomendação. Tenho livros que me apeteceria desrecomendar, mas contradiz o próprio nome imperativo do sítio: £eia £ivro.

Quando havia escrito 19 resenhas aqui, quando encontrei uma maneira de violar essa necessidade de recomendar. Resolvi fazer algo diferente. No último dia 29 de novembro de 2004 postei o textoUma literatura asquerosapara a sessãoVocê é o autor” fazendo minha estréia nela. Com aparente menor visibilidade que as outras sessões o texto teve uma grande ressonância tendo sido enviado em lista para vários pontos do Brasil e para o exterior.

Com ele, não pretendia desencadear uma cruzada contra Gabriel García Márquez, nem fazendo patrulhamento do politicamente correto e muito menos pedindo a volta do "Index Librorum Prohibitorum" mas estava fazendo um chamamento para o quanto devemos estar atentos quando lemos acerca do quanto as leituras também a constituem nossa maneira de ver o mundo.

Então escrevia: “Há um livro, ainda não está traduzido para o português, mas que muito em breve chegará ao Brasil com aparatosa publicidade. Trata-se de ‘Memoria de mis putas tristes’. A edição que li traz uma cinta, com a informaçãoLançamento mundial em língua espanhola com 1.000.000 de exemplares’ e festeja a primeira novela de Gabriel García Márquez depois de 10 anos. Sim, um milhão de exemplares de uma novelinha curta de cerca de 100 páginas, sem nenhuma economia de espaços em branco, que certamente dará muito dinheiro ao nosso Nobel latino-americano e a seus editores”.

Um pouco adiante interrogava: “Uma linda história de amor? Talvez, até possamos nos seduzir pelo texto escrito com inegável lirismo... ou, é a exaltação literária de uma dolorosa mácula de nossa sociedade, onde uma menina virgem é preparada para ser objeto negociável para a perpetração (ou exemplificação) de mais uma violência contra mulheres indefesas?”

Encerrei assim minha anti-resenha: “Aqui, não ouso contradizer o nome deste tão importante sítio que faz semeaduras de livros, nem vou lançar uma cruzada nacional contra García Márquez, mas, com o mesmo empenho em que tenho dito em diferentes momentos ‘Leia Livro’ permito-me, aqui e agora, dizer que leiamos atentos acerca do quanto estas leituras também a constituem nossa maneira de ver o mundo”. Meses depois o livro foi traduzido para o português. Continua na lista dos mais vendidos.

A propósito da sessãoVocê é o autorem 30 de junho desse ano, usei-a com um propósito bem diverso. Com o textoNaquele tempo existia um homem. Ele existiu e existe, pois narramos sua história.” Parti da evocação de Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores vivo, escreveu um livro (Pessoas extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz. São Paulo: Paz e Terra, 1998) acerca de pessoas cujos nomes são conhecidos apenas pelos parentes e pelos vizinhos. Narrei, então, acerca de uma pessoa que também é extraordinária. Então contei que nos dias 7, 8 e 9 de julho, quase meia centena de pessoas se reuniria para celebrar o centenário de nascimento de Affonso Oscar Chassot, meu pai. Encerei o texto assim: Um de seus filhos lhe dedicou um livro que traz um ofertório, que certamente seria subscrito não apenas por seus descendentes e lhe evocam histórias, mas por aquelas e aqueles que o conheceram e talvez por alguns dos leitores deste texto. “Para Afonso Oscar Chassot (1906-1987), meu pai, que, mesmo nunca tendo visto seu nome impresso em um livro ou jornal, muito me ensinou: a gostar de ouvir notícias, instrumental importante para conhecer e entender a história, e a vibrar com a profissão, marceneiro hábil que era, trabalhando a madeira com amor. Para ele, este livro e estes versos, adaptados da poeta Hannah Szenes (1921-1944): Bendito o fósforo que ardeu e acendeu a fogueira! // Bendita a labareda que ardeu no âmago do coração! // Bendito o coração que soube parar com honra!" Vale dizer que além de onze ‘comente o texto’, recebi emocionadas mensagens.

Ainda na sessãoVocê é o autor”, aproveitando o ambiente futebolístico que envolvia o Brasil em busca do hexacampeonato, publiquei em 06 de junho uma historieta de amor, evocando a final da copa do mundo de 1962. Tive com ela alguns estimulantes retornos.

Talvez falte responder uma pergunta: quando escrevo as resenhas. Como podem ter visto fiz de ser resenhista um hobby. Usualmente não tenho muito tempo. Sou professor em tempo integral em um Programa de Pós-Graduação em Educação onde oriento mestrandos e doutorandos. Dou aulas na pós-graduação e na graduação que me exigem bastante preparo. Tenho também viagens profissionais a diferentes estados do Brasil em cursos e conferências. Respondo perguntas de professoras e professores acerca do ensino de Ciências no sítio ‘amaivos.com.br’. Tenho esta coluna semanal aqui no Caderno R do Jornal O Rebate. Estou ativamente no orkut, pois um grupo de professoras e professores da Bahia, fundou uma comunidade ligada ao meu trabalho com História da Ciência.

Comento isso para mostrar o quanto preciso achar tempo para escrever. Também preciso dizer que escrevo diários, numa prática que envolve um gostoso adolescer. Desde 1986 tenho para cada ano um volume, sem faltar o registro de um dia, escrevi até em salas de recuperação pós-operatória. Acerca da arte de escrever diários, escrevi um texto acadêmico, que apresentei em uma discussão mais ampla em um evento internacional dentro da temática colecionismo. Mais recentemente escrevo diariamente no meu blog http://achassot.blog.uol.com.br/ que surpreendentemente é bem visitado.

Uma das realidades que me encanta está no binômio lerD escrever. Estou, com muita freqüência, gestando textos. Brinco que não uso um laptop, mas um lapkopf. Aqui a alusão é a kopf, “cabeçaem alemão. No meu lapkopf estou, muito usualmente, produzindo textos, preparando aulas ou estabelecendo seqüências para uma palestra. Os textos são lançados no receptivo disco não tão rígido do cérebro nas vigílias de um chamar o sono, ou em insones madrugadas, ou ainda em embalos nem tão ritmados do ônibus no ir e vir para / da Universidade. Há períodos de fertilidade, mastempos em que a imagem do solo crestado é uma metáfora adequada para a esterilidade intelectual. Há momentos, ou porque a idéia parece imperdível ou porque não se confia na memória, em que o primeiro papel que se encontra recebe algumas palavras que serão chave para composições futuras. Quanta nota de compra ou verso de passagem de ônibus se transformou em portadora de senha preciosa para comandar, depois, teclares produtivos!

Logo, escrever uma resenha para o £eia £ivro se constitui, antes de qualquer coisa, em algo prazeroso. Assim, quando estou lendo livro estou pensando naquilo que gostaria de chamar atenção aos outros. Logo não é por acaso que as minhas 50 resenhas se dividam quase paritariamente entre ficção e não ficção, até porque algumas das resenhas do £eia £ivro estão nos alertas de ‘para saber mais presentes em minhas aulas. Assim, depois de algumas horas de trabalho, por exemplo, fazendo uma, às vezes, tediosa revisão de uma dissertação ou pesquisando para um seminário que tenha que dar, me premio com um tempo para me por a resenhar. Isso tem um dulçor quase erótico.

Quero registrar que tive satisfações pessoais por resenhar no £eia £ivro. Um autor premiado escreveu-me dizendo que lera minha resenha acerca de seuA margem imóvel do rio e não a agradecia, mas pedia para juntá-la em sua página pessoal. Recuperei o contato com outra autora, quando ao ler resenhaO preço da leitura’ escreveu recordando dos tempos que fora minha aluna. Resenhei ‘Uma história social do conhecimento tendo encontrado Peter Burke em um evento referi-lhe a resenha e a enviei a Cambridge. Uma delas ‘O brilho da Lua os editores do sítio encaminharam para publicação em ‘Discutindo Literatura’ [v. 5, p. 64 - 64, 01 ago. 2005] a revista que circula em suporte papel. que citei algumas de minhas resenhas, deixe-me contar aquela que mais me deu alegria em fazer, talvez porque tenha envolvido nela minha mulher. disse que tenho um sonho de ir ao cinema com a ‘Moça com brinco de pérolapara conhecer Delft.

Tenho orgulho muito especial, pois de pelo menos um de competentes e produtivos resenhistas deste sítio foi seduzido ao por mim. do Rio Grande do Norte Nelson Marques faz parceria comigo aqui no Rio Grande do Sul na disseminação do amor aos livros.

Por um capricho dos deuses que cuidam de nossas agendas, preparo ‘Uma rapsódia por uma resenha jubilar assistindo peloPortal da ABL” a posse do bibliófilo José Mindlin, na Cadeira nº 29 da ABL. Ele começa pedindo desculpas por não trazer um texto escrito, pois está com problemas de visão, mas promete aos presentes o texto ao final. Também faz reverente homenagem à sua esposa Gita Mindlin, recém falecida. Não posso deixar de recordar, quandoum ano ele assistiu uma fala minha acerca de diários como forma de colecionismo e deixou um autógrafo no meu diário, na data de 31AGO05. Vale agora receber a aula do consagrado bibliófilo. E, também por isso esse registro aqui, soube dessa transmissão e mesmo do portal da ABL pelo £eia £ivro.

Por fim, na celebração de minha 50ª resenha auguro vida longa ao £eia £ivro e cada uma e cada um de seus leitores. A minha gratidão ao Juliano, à Izabel, à Josiane, à Bel – recordo também o Leandro, a Fernanda, a Juliana parceiros de outros tempos – e seus muito competentes colegas pela maneira dedicada como mantêm o £eia £ivro. É muito bom que vocês existam. Obrigado, também por isso. vvv

Esse foi o que publiquei na £eia £ivro como “Uma rapsódia para uma resenha jubilar”. O texto recebeu alguns comentários. Reparto com as leitoras e os leitores do Caderno R um de Luciana Fátima. Ela escreveu: “Puxa! Que texto emocionante...! Se todas as pessoas tivessem ao menos uma centelha desse amor à literatura, o mundo talvez fosse um pouquinho melhor!!” Isso valeu a rapsódia.

Terça-feira, Outubro 24, 2006

Ratos gostam de Queijo

Ratos gostam de queijo
Há duas semanas, escrevi aqui no Caderno R uma crônica com título antípoda a de agora: “Ratos não gostam de queijo”. Trazer, agora, um assunto antíctone – numa linguagem dicionarizada, nada simpática – não significa que eu tenha mudado de opinião ou que outros cientistas tenham ratificado aquilo que era antes ‘a Verdade’ universalmente aceita. Também não significa que vá, examinar o outro lado da moeda. A partir de prosaica notícia demolidora de algo que, desde nossa infância, aprendemos ser objeto de desejo dos ratos (se é que eles têm desejos), discuti, então, tendo parceria de Feyerabend e de Kuhn o quanto há verdades científicas que aprendemos e até ensinamos e depois tivemos / temos que abandonar. Comentou-se, então, o quanto as verdades são provisórias: que hoje é tido como certo, amanhã pode não ser. Falei então da mudança de paradigmas; estes mostrados por Kuhn como modelos para fazermos descrições do mundo natural. As grandes revoluções científicas (a copernicana, a lavosierana, a darwiniana) foram trazidas como exemplos. Talvez se pudesse, uma vez mais, recordar acerca da importância de aprendermos a trabalhar com a incerteza, quando é oportuno ter presente Ilya Prigogine (1917-2003) – Prêmio Nobel de Química: “Só tenho uma certeza: as minhas incertezas!”!
Hoje a proposta é considerar o quanto a difusão de certos mitos podem lhes dar cientificidade. Isso posto, parece importante discutir a quem interessa a sedimentação de um mito. Assim, não é relevante discutir (ou até saber) se ratos gostam ou não de queijo, mas sim, reconhecer a quem interessa a ratificação de um mito. Aliás, minha frase teria um simbólico duplo significado se a escrevesse: ‘reconhecer a quem interessa o rato de um mito’ pois rato é, também, sinônimo de ratificação.
Por exemplo, aquela série de mitos sob os quais muitos de nós fomos educados, como “Não se pode comer manga com leite!”, “Uva com melancia mata!” foram inculcados para fazer com que os servos não comessem aquilo que se tinha como propriedades dos patrões. Quantos mitos relacionados com a atividade sexual eram / são usados no sentido de determinar disciplinamento dos corpos; assim se difundia que a masturbação debilita o sangue ou que faz crescer pelo nas mãos, ou acerca da maneira de se reconhecer se uma moça ainda é virgem. Já ouvi relatos, trazidos à sala de aula, de meninas que após perderem a virgindade (aliás, talvez não haja nenhuma membrana mais mitificada que o hímen) só usavam soquetes (ou carpins), pois se dizia / diz que moça de canela grossa não é mais virgem. Quanta insônia ou até medo do fogo eterno deve ter ocorrido depois de uma salutar masturbação. Ouvi contar, por um membro de uma ordem religiosa masculina sobre a existência, em tempos não muito distantes, de uma pinça nos mictórios conventuais para evitar o toque no pênis no ato de urinar. Recordo que no Colégio Marista onde fiz o Ginásio a placa “Deus me vê” era onipresente,
Assim a persuasão de não verdades e sua conversão em verdades nada tem de inocente. Ao contrário. Escrevo esse texto nos dias (2 e 29 de outubro de 2006) que medeiam os dois turnos das eleições para Presidente e para Governadores (em alguns Estados) no Brasil. Algumas ações da mídia fazem lembrar o sucesso que teve o todo poderoso Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do Reich. Esse homem talvez possa ser considerado alguém (tristemente celebre) que melhor usou a mídia para convencimento de massas. Os motivos não importavam, desde que os objetivos fossem alcançados, até porque para ele “Se uma mentira se repete um número suficiente vezes, termina por converter-se na Verdade.”
Entre alternativas propagandistícas, o superpoderoso Goebbels usou com muito êxito o cinema. Há um filme “O judeu eterno” [Der ewige Jude // The eternal jew], produzido em 1940, que foi especialmente eficiente para difundir a acusação de quanto a natureza intrinsecamente pervertida do povo judeu, preparando a aceitação pública para a deportação em massa, o confinamento e a matança. São particularmente atacados os judeu-poloneses, para justificar a tomada da Polônia, pois é um povo feio, corrupto, perverso e preguiçoso. Disseminava-se que são estrangeiros que querem tomar o mundo, especialmente os negócios e as finanças. Outras etnias consideradas inferiores: tchecos, russos, ciganos são alvo da propaganda que busca mostrar a superioridade e a pureza da raça ariana.
Por uma infame coincidência com o título desta crônica, no filme de então, se compara o povo judeu com ratos, mostrando esses roedores como espécies abjetas dentro do mundo animal. As comparações são as mais hediondas, trazendo a analogia de judeus e ratos quanto incontrolada reprodução, saque a alimentos, furtos etc.
Aliás, o filme é a trazida de um mito de 1542. Então surgia a figura que se tornaria lendária de Ahasverus
[1], o Judeu Eterno e Errante, criada pelo pastor luterano Paulus von Eitzen, quando encontrou um vagabundo barbudo com este nome numa igreja de Hamburgo. Ahasverus veio a ser o judeu que escarneceu de Jesus no Gólgota e, conseqüentemente, teria sido condenado por Cristo moribundo a uma vida errante e sem prazer até o Dia do Juízo Final; embora isto não seja encontrado em parte alguma dos Evangelhos a figura mítica se tornou vigoroso e muito difundida.
Há relatos dessa mesma figura em narrativas do século 4º, mas a figura de Ahasverus reaparece na Europa a partir de 1228, quando um arcebispo armênio, visitando a Inglaterra, mais precisamente o convento de Saint’Albans, revelou conhecer em seu país uma testemunha viva da paixão de Cristo
[2]. Pode-se imaginar a agitação trazida à religiosidade: 12 séculos depois haver uma testemunha ocular da via-sacra. Tratava-se do judeu Ahasverus, agora convertido e batizado por Ananias – que também batizara o apóstolo Paulo – com o nome de Cartaphilus. Este é o mesmo que esmurrara o Salvador quando este, sob o peso da cruz, tombara diante de sua porta.
Há detalhes apócrifos do encontro. Jesus, humilhado, açoitado e sangrando, deteve-se um mínimo instante à sua porta no caminho ao suplício. Ahasverus parou seus afazeres – ele era um carpinteiro, que trabalhava em sua tenda [há outras versões que fazem sapateiro] chegou-se para perto Jesus e, empurrando-o, esbravejou colérico: “Vai andando! Vai logo!” O condenado apenas olhou-o e respondeu-lhe: “Eu vou e tu ficarás até a minha volta!...”. Esse mito confundia-se como se tivesse a autenticidade de um relato bíblico.
Há um poema atribuído a Castro Alves em que está descrita essa saga de Ahasverus
[3]. No folclore brasileiro se diz que o Judeu Errante aparece na Semana santa, quando das celebrações dos rituais da paixão[4]. Há também uma peça teatral “Viver” atribuída a Machado de Assis[5], onde Ahasverus surge nos fins dos tempos, quando já não resta mais nenhum homem ou mulher sobre a terra, sentado em uma rocha, medita, depois sonha, dialogando com Prometeu – aquele que fora castigado por Zeus por ter dado o fogo aos humanos – para quem sua conta história acerca do ocorrido com ele no dia da crucifixão e sua condenação por Jesus a tornar-se errante.
Muitos judeus, por determinação consentida de tal mito eram mortos, mas sempre o judeu errante terminava reaparecendo em uma outra figura. E, há os que afirmam, Ahasverus está até hoje errando pelo mundo, sem caminho certo, sem morrer, mas sem descanso, esperando e esperando pela volta do Senhor. Logo, não se surpreenda se amanhã uma testemunha ocular da via-crúcis não surgir no seu caminho. Aproveite para conhecer detalhes desse momento tão significativo em que um judeu foi crucificado, mesmo que fosse o filho de Deus.
Depois desta viajada por muitos séculos aonde vimos a astúcia na construção de um mito e como esse foi usado para eliminar milhões de seres humanos, vale olharmos mais acerca do quanto mítico se confunde com religioso. Em minha infância, quando tinha cerca de cinco anos, meus pais tiveram uma menina natimorta. Como não pode ser batizada, se dizia, com muita dor – e sei o quanto todos sofríamos – com isso que ela estava no ‘limbo’. Este é para os católicos a morada das almas que, não tendo cometido pecado mortal, estão afastadas da presença de Deus, por não haverem sido remidas do pecado original pelo batismo. Essa foi uma criação de São Gregório, no século 4º, e aperfeiçoada por Santo Tomás de Aquino, no século 13. O limbo é chamado por alguns críticos mais sarcásticos de mezzanino do inferno. Recentemente (setembro de 2006) Bento 16, fez uma espécie de "reengenharia celestial" e excluiu o conceito do limbo da teologia católica. De quanta angústia teríamos sido privados se essa invenção do limbo não tivesse sido trazida para dentro da Igreja. Certamente o bondoso Papa promoveu todas as almas que estavam no limpo aos céus.
O livro A Ciência é Masculina?
[6] mostra como os mitos se constituíram / se constituem como se fossem livros sagrados de muitos povos. Há aqueles que consideram as assim chamadas ‘revelações divinas’, como aquelas que estão, por exemplo, no Gênese (criação do mundo, dilúvio...) da Bíblia judaico-cristã como míticas. Se olharmos especialmente os relatos mitológicos gregos e como ‘se construíam’ os deuses isso fica por demais evidente. Diferentes povos têm suas cosmogonias em seus relatos fundantes.
Mas olhemos os mitos com exemplificações dos dias atuais, pois parece que a Ciência muitas vezes ‘tentou sufocar’ explicações mitológica para as cosmogonias e recordar o que ensina Roland Barthes em seu livro Mitologias
[7] ao explicar como se constrói os mitos, descreve quando se refere a saponáceos e detergentes por exemplo, quando se santificou o Omo, em seu duelo – sempre vencedor – contra a sujeira ou de como esta deve ser retirada da profundidade, até porque o sabão maravilhoso é aquele que arranca a sujeira de seus esconderijos mais secretos (p. 58). Aliás, é o semiólogo francês que diz que cada objeto do mundo pode passar de uma existência fechada, muda, a um estado oral, aberto à apropriação da sociedade, pois nenhuma lei, natural ou não, pode impedir-nos a falar das coisas (ibidem p. 131), isso é fazê-las mitos. Mostro no livro A Ciência é Masculina? que parece fácil perceber, por exemplo, o quanto o mito de Pandora – primeira mulher dada aos humanos, na mitologia grega, que deve ter marcado imaginário grego; também mesmo o relato bíblico da criação e do pecado de Eva, fortemente capturados na tradição judaico cristã, nos fizeram machista.
Como encerramento, permito-me ratificar que interessa muito menos sabermos se ratos gostam ou não de queijo. É significativo que saibamos a quem interessa que vingue uma ou outra decisão. Parece importante aceitar que existem diferentes perspectivas para olharmos o mundo natural: podemos fazê-lo com os óculos das religiões, dos mitos, da ciência, do senso comum, dos saberes populares. Assim, mesmo aceitando o heliocentrismo, podemos ter posturas geocêntricas quando mudamos a posição de nossa cadeira em uma manhã de verão para nos protegermos de exposição direta do sol. É verdade que com leituras oferecidas pela Ciência é que ficamos sabendo da periculosidade de certas radiações – não desconhecendo também que foram as agressões dos humanos que fizeram com que muitas dessas radiações chegassem até nós – e aprendemos sobre a necessidade de usarmos protetores. Veja que estamos nesse caso usando o senso comum e Ciência. Quanto aos mitos, talvez valesse recordar o dito espanhol "yo no creo em brujas pero que las hay las hay"




[1] O Google oferece mais de cem mil registro à solicitação “Ahasverus“; devo registrar que não conhecia esse nome (sabia vagamente da lenda) até redigir esse texto.
[2] A Wikipédia em língua alemã http://de.wikipedia.org/wiki/Ewiger_Jude traz um extenso detalhamentos acerca de sucessivos reaparecimentos de Ahasverus em diferentes datas (1567-1868) e locais da Europa e da América, destacando também sua presença na literatura (há pelo menos cinco romances publicados na Alemanha entre 1959-2005), nas artes e na música.
[3] [www.revista.agulha.nom.br/calve148.html]. Esse poema aparece com os mesmos créditos a Castro Alves na Wikisource, a biblioteca livre http://pt.wikisource.org/wiki/ Ahasverus_e_o_G%C3%AAnio
[4] João Ribeiro, O Folclore, p.308 in CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988 (6a. ed)
[5] www.geocities.com/brasilsefarad/viver.htm Essa mesma peça teatral aparece com os mesmos créditos a Machado de Assis na Wikisource, a biblioteca livre http://pt.wikisource.org/wiki/Viver%21
[6]CHASSOT, Attico. A Ciência é Masculina? São Leopoldo: Editora UNISINOS. (2a.ed, 2006), 2003.
[7] BARTHES, Roland, Mitologias, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001

Domingo, Outubro 15, 2006

A Escola tem futuro?

Esta é uma crônica especial para mim no Caderno R. É minha crônica número 10. Isso é algo relevante. Gostamos de festejar números redondos. Assim celebro aqui e agora a minha 10ª crônica, sonhando com momentos em que talvez festeje a 25ª ou a 50ª, já numa expectativa mais remota penso nas celebrações da centenária – dentro de nossa simpatia pelos números redondos. Parece que se gosta menos dos números primos. Quem festeja o 17, o 53 ou o 71? Olhem como foram as badalações na virada do milênio, que recordo serem apenas marcos simbólicos no mundo cristão já que, por exemplo, nos calendários judeu ou islâmico isso ocorre em outros tempos.
Expando o do tom intimista do parágrafo de abertura e faço um outro emocionado festejamento. Faço a postagem desse texto no dia do Professor, profissão que há muito exerço com paixão. Na celebração da data há uma querida coincidência que me permito dividir com os leitores e leitoras dessa crônica. Hoje é o aniversário de minha filha Ana Lúcia. Ela é uma competente cirurgiã dentista em Estrela e também professora na UNISC em Santa Cruz do Sul muito reconhecida. Dos meus quatro filhos é a única que se envolve profissionalmente com o magistério. Assim, quando deixei a intimidade ser invadida pela emoção que se conjuga na data, permito dedicar à Ana Lúcia, uma filha muito amorosa, essa crônica, no seu ímpar aniversário – aqui o adjetivo porta um duplo sentido.
Nossos textos têm histórias. Quero matizar um pouco a construção deste. Há cerca de um mês, recebi uma mensagem eletrônica, da qual subtraio excertos e altero nomes para resguardar colegas por comentário que faço no encerramento deste texto:
Bom dia professor! Sou aluna de licenciatura numa disciplina ministrada pela professora Rosa Flores dos Campos, acho que o senhor se lembra dela. Bem, um trabalho que precisamos fazer é uma "entrevista" com diferentes pessoas, apresentando a questão: "a escola tem futuro?". Como a professora mencionou que o senhor participou de muitos eventos envolvendo o ensino, inclusive esteve aqui [...] esse ano, pensei que seria interessante ver seu ponto de vista da questão. Se o senhor estiver disposto a responder, eu agradeceria muito! Não é nada longo, apenas sua opinião, respondendo à pergunta acima mencionada. Muito obrigada pela atenção dispensada! Cristina.
Mensagem como essa são muito freqüentes. Há aquelas que nos sentimos fazendo ‘os deveres de casa’ de estudantes. Ainda quero contar aqui no Caderno R acerca de um trabalho que faço em um sítio de consultas relacionado com problemas de sala de aula. Aguardem. Sensibilizei-me com a pergunta da aluna de uma colega muito querida. Fiz uma resposta que não brotou do nada e exigiu um tempo subtraído de outros fazeres. Eis minha resposta.
Estimada Cristina, fazes-me uma pergunta difícil. Melhor seria inventar que não tenho tempo (o que não seria falso) e dizer que não posso atender teu pedido. Mas sendo uma questão catalisada pela querida e muito especial Professora Rosa não posso furtar-me. Aliás, perguntas-me também: “acho que o senhor se lembra dela?” Quem pode esquecer uma criatura tão amável e competente.
Mas esse preâmbulo todo pode parecer para não responder tua pergunta: "A escola tem futuro?" Vou tentar responder. Vê que esse tentar me exime de qualquer pretensão de saber responder.
Talvez devêssemos perguntar primeiro de que Escola estamos falando. Então, antes de falar de futuro eu trago uma outra questão para o presente: A Escola mudou ou foi mudada? Tenho algumas respostas para isso.
A Escola mudou? A Escola foi mudada? Recordo o período de final do meu curso primário
[1], quando se fazia análise lógica se classificavam as ações verbais como estando na voz ativa ou na voz passiva. Isso era matéria certa no exame de admissão[2]. Surge, agora a pergunta: A Escola mudou ou foi mudada? Talvez possa parecer irrelevante se a Escola seja o sujeito ou o predicado. No contexto de mudanças em diferentes setores, a Escola não é algo exótico ao mundo onde está inserida e dele faz – necessariamente – parte. Talvez se possa apenas dizer: se a Escola ainda não mudou, ou ainda não foi mudada, ela deverá necessariamente mudar!
A Escola - na acepção de instituição que faz ensino formal, em qualquer nível de escolarização - nestes tempos de globalização está sendo mudada. E, estamos nos referindo a algo em um amplo espectro, que vai desde a Escola infantil até a Universidade. As mudanças ocorrem em qualquer estabelecimento envolvido formalmente em Educação.
Não vou fazer, aqui e agora, comentários dos apossamentos que faz Organização Mundial do Comércio da fatia Educação para dirigir sua voracidade por lucros, onde se favorece a comercialização internacional dos serviços da Educação como uma mercadoria qualquer. Parece não existir outro bem comerciável que segure um consumidor cativo por quatro ou mais anos, como o estudante que “compra ensino” de uma Escola. Pois para os que fazem comércio da Educação a resposta é óbvia: a escola tem futuro.
Quando olhamos as fantásticas transformações nos cenários do trabalho, onde a cada dia nos surpreendemos com inovações e com o alijamento de homens e mulheres de postos de trabalho, não nos damos conta da rapidação com que acontecem estas modificações. Parece que estamos falando de tempos quase jurássicos, quando se diz, por exemplo, que há 15 anos, não conhecíamos telefone celular, fax, CD ou Internet. Os discos de vinila com 78, 45 ou 33 rotações por minuto, são algo de um passado tão distante, quando era para alguns de nós o gramofone, com corda manual e reprodução que classificávamos de “taquara rachada”. O novo se faz velho rapidamente. Basta nos darmos conta da dificuldade que temos, por exemplo, em classificar se um determinado modelo de telefone celular é novo ou não, tão rapidamente este se desatualizam.
Recordo seguidamente uma charge publicada na primeira semana de janeiro de 1999, no USA Today
[3] que traduz um pouco essa nossa dificuldade em lidar com este conceito de “um novo que se faz quase repentinamente velho”. Um cliente chega a uma loja com um computador, logo depois das festas de Ano Novo, e diz: “Eu quero trocar este computador por uma versão mais nova e atualizada!” A vendedora pergunta-lhe: “Você o tem há muito tempo?" Ele responde: “Desde o Natal...” Na maioria das vezes, lamentavelmente, já nem trocamos muitos de nossos fantásticos equipamentos. Eles se fazem apenas algo descartável. Somos cada vez mais geradores de uma significativa quantidade de lixo tecnológico.
Hoje, quando temos que viver – diria mais, adequadamente, suportar a vida – sem computador por algum tempo ou se estamos impossibilitados ao acesso do correio eletrônico ficamos desconcertados. Parece que nos tornamos impotentes em muitos de nossos fazeres. Aqueles que acham que exagero, dêem-se conta de quantas neuroses nos afligem estas máquinas tão poderosas, que nos fazem paradoxalmente cada vez mais impotentes (no trato com elas).
Como essas modificações, que estão presentes no cenário mundial, repercutem na Educação, ou mais especificamente nas nossas salas de aula? E talvez aqui, Cristina, começo a responder tua pergunta. Não temos dúvidas a respeito do quanto a globalização confere novas realidades à Educação. Há os que dizem que a Escola não mudou. Se não mudou, foi mudada nestes últimos anos. Assim, uma Escola diferente, tem futuro, sim. O dito conservadorismo da Escola, marcado por suas origens na aurora da modernidade manteve-se por mais de quatro séculos numa quase artesania, que não mais resistiu ao ocaso do século 20. Hoje já se fala em Bibliotecas sem livros. A educação a distância é uma realidade irreversível, mesmo que com razão ainda questionável. A realidade desta aurora trimilenar já é muito diferente daquilo que nós – homens e mulheres do século passado – vivemos há não pouco tempo.
Também, não preciso destacar as fantásticas modificações no mundo de hoje e de quanto estas atingem – e uso este verbo na sua plenitude de significados - a Educação, ou mais especificamente, as salas de aula. Não temos dúvidas do quanto a globalização confere novas realidades à Educação. Talvez, para uma facilitação, pudéssemos fazer nossas olhadas em duas direções. Primeira, como são diferentes as múltiplas entradas que o mundo exterior faz na sala de aula e, a outra direção, como esta sala de aula se exterioriza, atualmente, de uma maneira diferenciada.
Sobre a primeira das situações não precisamos fazer muitas ilustrações. Comparem, por exemplo, o quanto eram clausuradas às invasões externas, as Escolas de nossos avós em relação às interferências do mundo externo com as que existem em nossas salas de aulas hoje. A Escola era referência na comunidade pelo quanto ela detinha o conhecimento. Quanto à segunda, consideremos apenas a parcela de informações que nossos alunos e alunas trazem hoje à escola. Aqui temos que reconhecer que estes, não raro, superam as professoras e os professores nas possibilidades de acessos às fontes de informações. Há situações, onde temos docentes desplugados ou sem televisão, que ensinam a alunos que surfam na Internet ou estão conectados a redes de TV a cabo perdendo a Escola (e o Professor) o papel de centro de referência do saber. A proletarização dos profissionais da Educação os faz excluídos dos meios que transformam o Planeta, onde a quantidade e a velocidade de informações o faz parecer cada vez menor. Esse é o trágico em não poucas das contemplações da Escola hoje.
Assim, parece que se pode afirmar, que a globalização determinou em tempos que nos são muito próximos uma inversão no fluxo do conhecimento. Se antes o sentido era da Escola para a comunidade, hoje é o mundo exterior que invade a Escola. Assim, a Escola pode não ter mudado; entretanto, pode-se afirmar que ela foi mudada. Não há, evidentemente, a necessidade (nem a possibilidade) de fazermos uma reconversão. Todavia é permitido reivindicar para Escola um papel mais atuante na disseminação do conhecimento. E, talvez não diríamos isso há 10 anos. Isso determina a existência de dois tipos de professores.
O professor informador – refiro-me àquela ou àquele que se gratifica com ser transmissor de conteúdo – está superado. Ele é um sério candidato ao desemprego ou será aproveitado pelo sistema para continuar fazendo algo (in)útil nesta tendência neoliberal de transformar o ensino (não a Educação) em uma mercadoria para fazer clientes satisfeitos, como apregoam os adeptos da Qualidade Total.
O professor formador ou a professora formadora será cada vez mais importante. Por paradoxal que possa parecer, a melhor receita para esse novo educador é ensinar menos. Não é o quanto se sabe que nos faz diferente. O decisivo é como se sabe descobrir novos conhecimentos e, especialmente, como usá-los. Os pregoeiros do conteudismo ou aqueles que valorizam o saber de cor ou memória mecânica, muito provavelmente se horrorizam ante esta alternativa para um novo fazer Educação. Em homenagem a eles me permito repetir: a melhor receita para educador deste novo milênio, muito provavelmente é ensinar menos.
Assim, sonhadoramente, podemos pensar a Escola do futuro – logo ela tem futuro – como sendo pólo de disseminação de informações privilegiadas. Há uma quase certeza, que é a Escola e também a Educação não formal, que transformará nossas alunas e nossos alunos em cidadãs e cidadãos mais críticos. Estas são utopias – e aqui acredito que tenha como parceiro a ti Cristina e a cada uma e cada de alunas e alunos da Professora Rosa – que a Educação possa ser cada vez transformadora do mundo em que vivemos e o transforme para melhor. É isso que quer ser para num Futuro da Escola.
Acho que respondi, pelo menos um pouco, Attico Chassot. Morada dos Afagos, na overture da primavera de 2006.
Essa foi a resposta que enviei à solicitante em 22 de setembro. Quando já havia enviado a Cristina esse texto a cerca do futuro da Escola, sonhando que novas tecnologias ajudem a professoras e professores a fazer melhor Educação, vivi uma experiência, no terceiro turno de um dia de trabalho assim registrada assim em meu blog: “Cheguei não muito de São Leopoldo, tomado de dois sentimentos. Um de revolta. Não recordo que já tenha me sido oferecido tão precárias condições de trabalho. Quando me avisaram que não teria data-show, para uma palestra que Dora convidado, gastei em lâminas para retro projetor. Lá chegado havia um aparelho para ser dividido com mais duas colegas em outras salas. Faltava tudo e as alunas e os alunos, isso é 25 professoras e professores da área de Ciências, também se sentiam humilhados. Isso que esse curso para o qual fora convidado se diz ser integrante de um convênio 2ª CRE/UNISINOS/UNESCO. Por outro lado, foram fortes as emoções em dar nesta noite aula em uma mesma sala que há 42 anos dera aula de Química. Em 1964, quando do golpe militar eu era também presidente do Grêmio de Professores do Colégio Pedro Schneider. Desde então nunca mais havia voltado àquela Escola. Não preciso dizer mais. Talvez, acrescentar ainda, que aquela sala de aula parou no tempo. Afortunadamente, eu não.” Acredito que os leitores e as leitores aderem comigo à minha sensação de revolta e também à forte emoção que é retornar a mesma sala de aula e encontrá-la talvez pior em termos de recursos.
Uma informação suplementar. A Cristina, a distinta destinatária da parte central deste texto que se crônica no dia das professoras e dos professores, mesmo decorrido mais de três semanas de minha mensagem, nunca se manifestou em resposta. Teria sido bom se eu houvesse recebido um ‘obrigado’. Não precisava nem comentar. Talvez ela não tenha recebido a resposta.
Mas a Escola tem futuro e com esse texto homenageio – e arvoro-me a fazê-lo também em nome do Caderno R – a cada um e cada uma dos homens e mulheres que têm no fazer Educação sua profissão. Vale a pena com nossa profissão, sonhadoramente, ajudar transformar o mundo para melhor.
[1] Até a reforma do ensino que ocorreu com a lei 5692/71 que alterou o ensino anterior a Universidade, os atuais oito anos de ensino fundamental, eram divididos em dois ciclos: cinco anos de ensino primário e quatro de ensino ginasial.
[2] O acesso ao ginásio – de duração de 4 anos – se dava através do “exame de admissão” que era realizado independente (que poderia ser em outra Escola) da situação de se estar aprovado ou não no 5º ano primário.
[3] Charge reproduzida na p. 1.6 da Folha de S. Paulo de 08 jan. 99

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Ratos não gostam de queijo

Há alguns dias, eu e mais alguns milhões de internautas, falantes de diferentes línguas, vimos o que está no título desta crônica. Não sei se assunto transitou em jornal ou revista com suporte papel. Desde então, vez ou outra, o assunto me apareceu em meu imaginário. Cheguei até minutar algumas linhas em lapkopf. Um alerta: não estou me referindo a laptop! Criei, já há um tempo, a palavra lapkopf, aproveitando o substantivo alemão kopf (cabeça) por semelhança eufônica com laptop, para referir-me ao local de gestação provisória de meus textos – em geral em madrugadas insones ou quando na viagem as leituras são dificultadas pela pouca luminosidade, tão comum especialmente em ônibus – que faço em um disco não tão rígido e também com poucos recursos de salvar. Cedo vi que o assunto não daria uma crônica, e o abandonei.

Mas, desde que estou aqui no Caderno R, a cada semana preciso um assunto. Claro que minha admiração está aumentada por aqueles cronistas que têm uma coluna diária em jornais. Todavia, não sei quantos destes têm aulas a dar e trabalhos de orientandos por ler. Mas, resolvi retomar o texto acerca da demolição de um mito: os ratos gostam de queijo.

No resgate da notícia, coloquei o título desta crônica no google. Recebi 17 referências. Claro algumas repetições e também alguns resultados fora do objeto de pesquisas. Prometo, que num futuro, vou fazer um texto acerca destes nossos auxiliares de pesquisa, quando tentarei discutir os quase não-limites entre o humano / não-humano.

Encontrei três ou quatro textos que referiam (e reverenciavam) a notícia que despertara minha atenção [Ratos não gostam de queijo, é o que diz um estudo de cientistas britânicos. Os bichos preferem alimentos com alto teor de açúcar, como grãos e frutas. Ou seja. Jerry, do desenho, trocaria um pedaço de parmesão por uma fatia de melancia]. Da minha pesquisa vi também que a notícia envolveu a outros. Eis o que alguém escreveu em seu blog, ao comentar a notícias: Plutão não é planeta e ratos não gostam de queijo. Daqui a pouco alguém vai dizer que gatos adoram tomar banho e que Arnold Schwarzenegger é bom ator.

Gostaria de olhar esta prosaica notícia acerca do enfaramento dos ratos por algo que desde nossa infância aprendemos lhes seria supimpa, em duas dimensões: na primeira quero a parceria de Feyerabend e na outra quero considerar o quanto a difusão de certos mitos podem lhes dar cientificidade e então discutir a quem muitas vezes interessa a sedimentação de um mito.

Vamos olhar um pouco o nosso mundo com óculos que nos foram dados por Paul Karl Feyerabend (1924-1994) um físico austríaco de renome na área, que também era apaixonado por canto lírico e um profundo conhecedor de teatro. Talvez, dos filósofos mais citados na segunda metade do século 20. Sua obra mais famosa é Contra o Método, do qual a última [2ª] edição brasileira é de 1985, da Editora Francisco Alves, mas está esgotada. Parece haver promessas de uma terceira edição pela editora da UNESP de São Paulo. Com Paul Feyerabend aprendemos o quanto as verdades são provisórias. O que hoje é tido como certo, amanhã pode não ser.

Assim, vale ter presente que cada Ciência produz sua verdade, assim como constrói também seus critérios para a análise de sua veracidade. Porém, é bom recordar que as verdades são provisórias. O que hoje é tido como certo, amanhã pode não ser. Feyerabend já alertava em seu importante livro Contra o Método que

...dada uma regra qualquer, por ‘fundamental’ e ‘necessária’ que se afigure para a Ciência, sempre haverá circunstância em que se torna conveniente ignorá-la, como adotar regra oposta. [...] Qualquer idéia, embora antiga e absurda, é capaz de aperfeiçoar nosso conhecimento. [...] o conhecimento de hoje pode, amanhã, passar a ser visto como conto de fadas; essa é a via pelo qual o mito mais ridículo pode vir a transformar-se na mais sólida peça da Ciência (1985, p. 71).

Aceito que não seja fácil ser feyerarbediano, mas vale a pena ensaiarmos posturas que se aproximem daquelas que ele apresenta. Isso exige, muitas vezes, novos posicionamentos no nosso fazer Ciência. Também aqueles que – como eu –se envolvem no ensinar Ciência, não raro têm dificuldades de aderir a esse anarquismo epistemológico, que subverte fundamentalismos e ao invés de um método científico, sustenta as possibilidades de pluralismos metodológicos.

Talvez valesse a pena lembrar quantas ditas verdades científicas nós aprendemos e até ensinamos e depois tivemos que abandonar. Eu enquanto professor (sou professor desde 1961) ensinei muitas vezes que gases raros não formavam compostos – até por isso chamados de gases nobres – e com este pressuposto construiu-se a teoria do octeto e com ela se explicava com sucesso ligações químicas; especialmente as iônicas, se dizendo que elementos perdiam ou ganhavam elétrons formando assim cátions e ânions que se assemelhavam na configuração eletrônica, sempre com oito elétrons no último nível. Em 1962, o panorama mudou e numerosos manuais escolares (e também professoras e professores) se tornaram desatualizados. Neil Bartlett, da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, estava investigando as propriedades do hexafluoreto de platina (PtF6), um gás muito reativo. Verificou que esse gás se combinava com o oxigênio molecular, formando um composto cuja fórmula foi estabelecida como O+2PtF-6. Pouco depois, levando em conta que o potencial de ionização do oxigênio molecular era quase igual ao xenônio, Bartlett supôs que xenônio poderia reagir com hexafluoreto de platina. Isso foi prontamente confirmado e o composto identificado como XePtF-6. Estava quebrado um quase dogma. Fora sintetizado o primeiro composto de gás raro: o hexafluoreto de xenônio. Na verdade, Bartlett fez uma radical violação de uma regra básica, presente naquilo que se constitui o domínio público em termos de montar um quebra-cabeça – ou melhor, de fazer Ciência –: podem faltar peças ou podem sobrar peças. Só na década de sessenta se publicou mais sobre compostos de gases nobres do que sobre qualquer outra classe de compostos inorgânicos. Este episódio nos mostra, assim, que há renovadas exigências de outras maneiras de pensar a Ciência e que esta só vai crescer se admitirmos a existência de ‘comportamentos’ diferentes daqueles constituídos como modelares

Há situações em que a mudança é tão radical que Tomás Samuel Kuhn (1922-1996) um estadunidense, físico teórico historiador e filosofo da Ciência – também um líder na contribuição para a mudança do foco na filosofia e na sociologia da Ciência – denomina de ‘revolução científica’. Por exemplo, a passagem do geocentrismo para o heliocentrismo, conhecida como revolução copernicana, ou no século 18 abandonar-se a idéia do flogisto e se explicar a queima dos corpos como a combustão, a revolução lavosierana. Assim, a ainda hoje polêmica discussão da passagem do criacionismo para o evolucionismo, é uma mudança de paradigma, conhecida como revolução darwiniana. Estas três revoluções são, numa leitura ocidental da História da Ciência, três momentos históricos importantes que marcam respectivamente o estabelecimento da Física (séculos 16 e 17), da Química (século 18) e da Biologia (século 19). Esse assunto é por demais envolvente para uma crônica aqui. Quase que ouso prometer a meus leitores e leitoras que ainda voltarei ao assunto.

Mas anunciara, que ao lado das considerações sobre assumirmos posturas feyerarbedianas para olhar o mundo, o fastio dos ratos por queijo poderia ensejar algumas reflexões para identificarmos a quem interessa a construção de alguns mitos.

Sem que nos déssemos / demos conta, nossas vidas foram / são marcadas – às vezes, até capturadas – por mitos. “Não se pode comer manga com leite!”, “Uva com melancia mata!”, “A concha que colocamos no ouvido traz o barulho do mar donde foi coletada, no momento que a escutamos!”, “Se mulher grávida comer ovos com duas gemas, dará luz a gêmeo!” e centenas de mitos, muitos dos quais bastante conhecidos e até seguidos.

Mas o texto desta semana precisa ser contido em extensão. Já me espraiei por terrenos mais complexos e até um pouco fora do propósito inicial. Faltou a segunda dimensão da promessa a quem interessa a construção de alguns mitos e o quanto a difusão dedos mesmos podem lhes dar cientificidade. Na expectativa que possamos ver como se constroem e como se inculcam alguns mitos, anuncio, que ainda nesse mês, aqui no Caderno R, volto o assunto, então com uma crônica com o título: “Ratos gostam de queijo”.Aguardem.

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

Sou americano, mas não estadunidense

Professoras e professores, de uma maneira muito freqüente, questionam as invasões curriculares em suas salas de aula. Sabe-se o quantocurrículos, que podem ser classificados como ilegais, que entram em salas de aula. Estas invasões são determinadas, especialmente, por poderosas redes de comunicação. Não é sem razões que alguns jornalistas se denominam de formadores de opinião. Ou melhor, engaioladores de opinião.

aqueles que devem lembrar de como fomos formatados para celebrar os 500 anos do ‘descobrimento’ do Brasil por um dos impérios televisivos ou mais recentemente como deveríamos torcer pelo postergado hexa-campeonato de futebol. Também não se desconhece o quantofalares que nos são impostos por diferentes mecanismos de dominação. se escreveu sobre a inadequação do uso de palavras como denegrir, judiar, nortear ou expressões como programa de índio, serviço de negro e algumas outras, que trazem marcas de um ferreteamento contra grupos dominados. Mas não obstante vemos o uso destas expressões, de maneira continuadas, mesmo em falas de pessoas ditas cultas. Antecipo que não venho na defesa do ‘politicamente corretomesmo que nos meus textos, e em minhas aulas refira-me a professoras e professores ou a alunas e alunos e até diga que ‘há esperanças que devamos sulear a escolha adequada de nossas falas’.

Desejo comentar, nesse meu encontro semanal aqui no Caderno Rvivas! Este é o oitavo –, um outro vocábulo que acredito mereça um registro muito especial, até porque é algo que dá a dimensão de apossamentos – ou melhor, de uma usurpação – da cultura dominante e está intensamente co-relacionado com intervenções curriculares que nos são impostas. Assesto meus óculos no uso (pre)dominante, mas equivocado do gentílico americano usualmente referido como exclusivo a estadunidense.

Antes devo me escusar às leitoras e aos leitores, que mesmo trazendo alguns dados amarelecidos por três anos de uma escrita anterior, quando com outro libelo fazia a mesma crítica. Assim, não queria que, agora, esse texto fosse sorvido como um simples café requentado. Ele quer ser mais que isso. Parece válido assinalar, todavia, o quanto se possa ver que os exemplos de então continuam com palpitante atualidade. Aliás, como será que a amarelecem a maioria de nossos textos, que muito poucos são gerados em suporte papel, nesta nova realidade de escrita pós-moderna?

A imprensa brasileira e mesmo de outros países latinos emprega o vocábulo (tanto substantivo como adjetivo) americano, para indicar nascido nos Estados Unidos, ou algo desse país. Por doutrinação (ou assimilação) este uso ocorre mesmo entre a maioria dos falantes, mesmo aqueles que são críticos, logo atentos com suas falas, mesmo que qualquer bom dicionário da língua portuguesa registre estadunidense. O Aurélio define corretamente, mas remete a norte-americano (que diz ser nascido nos Estados Unidos, excluindo aqui os mexicanos há muito vítimas de espoliações maiores por seus vizinhos, dos quais são separados uma por uma cerca eletrificada – e os canadenses). O Houaiss mesmo que dicionarize corretamente estadunidense, coloca como sinônimo de americano ou norte-americanoeste dicionário que me lembra que os esquimós da Groenlândia e do Canadá são norte-americanos e eu acrescento que aqueles do Alasca – o maior e menos densamente povoado dos 50 estados –, também são americanos, ou mais precisamente norte-americanos, e também são estadunidenses, desde a boa compra do Alasca feita da Rússia, em 1867, por cerca de cinco centavos de dólar por hectare.).

Assim, há também um outro erro no referir-se aos estadunidenses como norte-americanos, ignorando que também canadenses e mexicanos são norte-americanos. Isso seria ‘natural’, se redigíssemos em inglês, pois sabemos que em língua inglesa não existe outro gentílico que americans para referir aos nascidos nos Estados Unidos. Há, para a mesma designação, a abreviatura amer e também a palavra yankee, aportuguesada como ianque.

Assim quando falamos em sentimentos anti-mericanos, nós latino-americanos, por exemplo, também estamos, a rigor, nos incluindo nesses sentimentos. Vez ou outra, nos vemos envolvidos em campanhas do tipo faça seus amigos e parentes adotarem uma atitude de consumo consciente, evitando sob qualquer circunstância, o consumo de marcas americanas. Coma no boteco da esquina, mas não vá a qualquer Mc Donalds. Nada de tênis Nike. Nada de gasolina Texaco. Fechem suas contas no Bank Boston e no Citibank. Cortem tudo, tudo, absolutamente tudo, que possa alimentar o American Way of Life, hoje muito mais American Way of War and Death. Rigorosamente, quando recebo mensagem como essa, sou convidado a abandonar, também, qualquer marca brasileira (pois elas são americanas)... Ainda assim sabemos o quanto é impossível boicotar marcas estadunidenses - veja-se a dependência que tenho nos softwares e mesmo nos hardwares do computador onde escrevo este texto.

Muito provavelmente, todos os leitores deste texto sejam americanos, mas nenhum estadunidense. Lateralmente vale dizer que em espanhol há o gentílico estadounidense (mas, os jornais espanhóis usam amiúde, americano e norte-americano; e, para distinguir: sudamericano). Em italiano, statunitense (ou nordamericano). Em francês, o mais corrente é américain; mesmo estando dicionarizado: étatsunien e étatsunisien, sendo que estes dois gentílicos não são quase usados. Em alemão: o mais usado é Amerikaner, Nordamerikaner (Südamerikaner, para fazer a distinção), todavia no idioma de Goethe há a forma US-Amerikaner para melhor caracterizar os nascidos nos EUA.

O uso do gentílico americano por estadunidense parece a tradução da prepotência desta nação, fazendo do gentílico continental algo de sua posse. É quase natural o desconhecimento na imprensa e pelo comum das pessoas do gentílico estadunidense. Afortunadamente eles não se apoderaram, ainda, do gentílico que nos é tão caro: latino-americano. Aliás, na xenofobia estadunidense, cada vez mais se dificulta a entrada de latino americanos no Estados Unidos.

Também esta é uma apropriação dos Estados Unidos é indébita. Sonhadoramente desejo que se deixe de usar americano e norte-americano como gentílico identificador de apenas um dos países do continente. Aliás, na África há outro país, que como os Estados Unidos da América se apropria do nome do continente. Os habitantes da minúscula Suazilândia não são também sul-africanos? E não é a mesma a situação dos nascidos em Lesoto, que estão encravados na África do Sul? Este país é usurpador não apenas do gentílico, mas faz do nome de uma região do continente algo exclusivo para denominar o seu país.

um tempoquando escrevia acerca do ensino de Ciências na segunda metade do século da tecnologia – precisei pesquisar em jornais noticiários de 1957, para saber da repercussão do lançamento do Sputnik, o primeiro satélite artificial, pela então União Soviética, e como agora, era corrente na imprensa o uso indevido do gentílico americano, parecendo exclusividade de cidadãos estadunidenses.

Perguntei, então, em pesquisa empírica realizada entre universitários do curso de pedagogia, na disciplina de Metodologia de Ensino de Ciências, dias após o desastre com o Colúmbia, em 02/02/03, qual a nacionalidade dos astronautas que morreram no acidente com ônibus espacial dos Estados Unidos. Nenhum dos 45 estudantes de pedagogia referiu que houvesse estadunidenses entre os mortos. Fiz o mesmo levantamento com um grupo de mestrandos e doutorandos do Programa de Pós Graduação em Educação da UNISINOS e quando comentava com os mesmos o fato de nenhum ter referido norte-americano ou americano, foram unânimes em afirmar que isso fora resultado exclusivo de discussões que tiveram em seminários no Programa e que antes não conheciam a existência do etnônimo estadunidense.

Há continuados exemplos presentes na imprensa: O governo americano eleva o nível de alerta terrorista. Uma manchete de seis colunas, seguida de texto onde o adjetivo ou o substantivo americano/a/os/as (ao invés de estadunidense) é usado cerca de 10 vezes em um texto de cerca de ¼ de página [Folha de S.Paulo, 08/02/2003, p. A14]. O editorial Não à Guerra, de 15/02/2003, do mesmo jornal, publicado na primeira página, pela alta relevância, refere americano ora como substantivo era como adjetivo, como se fosse sinônimo de estadunidense, palavra não mencionada. Aindainformação de 100 mil paquistaneses rezam pela paz e bradam: a América é terrorista! Um jornalista estadunidense radicado no Brasil 20 anos, escreve um artigo Bronca de ser americano [Caderno Equilíbrio, Folha de S. Paulo, última capa, 20/02/03] onde se diz classificado como uma espécie híbrida americanus brasiliensis, mas em nenhum momento ele se reconhece estadunidense ou ianque.

Aqueles que julgam velhos os meus exemplo, vejam esse texto dos jornais da sexta-feira, dia 8 de setembro de 2006: “O novo chefe da rede terrorista Al Qaeda no Iraque, Abu Hamza al Muhajir, pediu que cada insurgente mate pelo menos um americano nos próximos 15 dias no país árabe, em gravação [...] transmitida pelo canal de TV Al Jazira”. Um outro: o conceituado escritor Luís Fernando Veríssimo, no Caderno de Cultura, da Zero Hora de 9 de setembro deste ano, em uma crônica acerca de sua estada em New York em 11 de setembro de 2001 fala em bandeiras americanas e na televisão americana. Os exemplos poderiam se estender ad nauseam.

Quando preparo a versão deste texto para o Caderno R, milhões de brasileiras e brasileiros vivem a tristeza da tragédia aérea ocorrida na última sexta-feira, dia 29 de setembro, com o vôo 1907. Ainda se alternam hipóteses acerca das causas da derrubada do Boeing. Quando vemos a foto do Legacy, divulgada mais de 48 horas de seu pouso em uma base aérea brasileira, custa crer que aquelespoucos arranhõesque aparecem na cauda tenham determinado tão extenso desastre, que se torna o maior de todos, em perdas humanas da aviação brasileira. Na singeleza desse texto minha homenagem aqueles e aquelas que de maneira tão fatídica viram encerrar suas vidas. Aos familiares e amigos que amargam dores, a solidariedade.

E, então, como são identificados a tripulação e os passageiros do avião, o presumível causador da morte de 155 pessoas? Americanos. Nas muitas vezes que lemos ou ouvimos falar acerca das dolorosas perdas sempre se fala da tripulação americana, dos jornalistas americanos, do avião comprado por uma empresa americana. Não são também americanos os nossos queridos 155 brasileiros vítimas de um provável desligamento de um aparelho de bordo por parte do piloto estadunidense?

Mas assumamos que somos americanos, mesmo que isso possa nos incluir na fúria dos comandados de Abu Hamza al Muhajir. Não somos estadunidenses como são aqueles governados pelo presidente que se acha o xerife do mundo e que foi chamado de demônio, em reunião das Nações Unidas, por um presidente sul-americano. Nossos vizinhos continentais são todos americanos, mas poderão ser argentinos, uruguaios, bolivianos, cubanos, barbadiano (não sei qual é etnônimo, por exemplo, de Trinidad e Tobago), brasileiros e até estadunidenses, e estes é claro, em sua fantástica maioria, não deixam os ambientes recendendo a enxofre, como referiu aquele que demonizou Bush.

No meu laborar em utopias desejaria ver os gentílicos americano e norte-americano usados por quem de direito. Sejam eles estadunidenses, e nós brasileiros, sul-americanos, latino-americanos, americanos.

Domingo, Setembro 24, 2006

E para continuar a falar em Ratisbona.

Durante a celebração do Ramadã islâmico e

na aurora do novo ano judaico de 5767.

Muito provavelmente, nenhum leitor da provável meia dúzia que devo ter aqui no Caderno R – se é que não estou super-dimensionando meu universo – deve estar imaginando o que quero com um título tão exótico. Certamente dirão que nem se falou em Ratisbona nos últimos tempos. Falou-se; e falou-se muito. Eu quero falar mais, mesmo que não vá discutir o assunto que catapultou Regensburg, digo Ratisbona, para turbilhão noticioso.

Alguns, a partir da última afirmação, já devem ter sacado as razões de meu título. Ratisbona é o nome latino de Regensburg e foi aí que o Papa Bento 16 deu a segunda grande furada em seu ainda nascente pontificado. A primeira rateada foi quando esteve em Auschwitz, em maio deste ano, e perguntava: “Onde estavas tu, Deus, quando isso aconteceu?”. Ou, uma outra versão à pergunta do papa “Deus, por que o Senhor ficou em silêncio?” que deu margens a sérios questionamentos: Por que Ratzinger ficou em silêncio e não fez um mea culpa pela omissão da Igreja no auge de anti-semitismo quando do nazismo. Comentaristas também se perguntaram sobre o papel do Vaticano durante o Holocausto. O Papa Pio 12, líder da Igreja Católica à época, não veio a público condenar a opressão nazista contra os judeus. Um ponto polêmico é o fato de o Vaticano não ter aberto a historiadores seus registros da época da guerra. Os pesquisadores desejam saber o que Pio 12 sabia, quando tomou conhecimento disso e o que discutiu com seus assessores.

Uma vez mais temos as diferentes leituras para o mesmo episódio. Por exemplo, ao se referir aos silêncios de Bento 16, o diário católico "La Croix", da França, afirmou que dar destaque ao que não foi dito pelo Papa é uma atitude que corre o risco de "ignorar a grande profundidade do que ele afirmou" sobre a ausência de Deus e o silêncio diante de tal maldade.

Agora em Ratisbona, e mais uma vez é na sua Alemanha, o Papa faz um estrago muito maior. Desta vez não é o silêncio em favor dos judeus. É uma investida que feriu aos islâmicos. Bento 16, no último dia 12 de setembro, encontrou-se com cerca de 1500 representantes da área científica no auditório da Universidade de Regensburg (e é oportuno recordar que Ratzinger fora ali professor de Teologia entre 1969-1977) onde proferiu uma palestra intitulada "Fé, razão e universidade – lembranças e reflexões". Portanto uma conferência densa, preparada e não uma fala de improviso, até por que traz no seu título que são reflexões.

Aliás, na leitura do discurso completo de então, há uma outra passagem, anterior àquela que foi o polêmico catalisador de discórdias, que se fosse pinçada do contexto, poderia ter ferido duramente muitos crentes. Em uma parte de seu discurso o Papa recorda que um de seus colegas de Universidade (aqui, o Papa está se referindo a Universidade de Bonn – que se orgulha de ter duas faculdades de teologia –, onde Ratzinger lecionara a partir de 1959) comentava que havia algo estranho nessa Universidade: duas faculdades que se ocupam de algo que não existia: Deus. Imaginem se imprensa tivesse dito, atribuindo ao Papa, somente: “...em nossa Universidade havia algo estranho: duas faculdades que se ocupam de algo que não existia: Deus.”

Em seguida, ele proferiu o seguinte trecho polêmico de sua palestra (em tradução livre, a partir do texto original em alemão, que retirei www.deutsche-welle.com/dw e que foi publicado no sítio oficial do Vaticano):

"Tudo isso novamente me veio à mente, quando, há pouco, li a parte do diálogo que o sábio imperador bizantino Manuel 2º Paleólogo manteve em 1391, na residência de inverno em Ancara com um estudioso persa sobre o cristianismo e o islã e as verdades de ambas [religiões], e que foi editado pelo teólogo Theodore Khoury (Münster). O imperador provavelmente anotou o diálogo durante a ocupação de Constantinopla entre 1394 e 1402; assim se entende porque suas explicações são muito mais minuciosas do que as de seu interlocutor persa.

O diálogo abrange todo o espectro da estruturação da fé descrita pela Bíblia e pelo Corão e gira em torno da imagem de Deus e do ser humano, mas também sempre necessariamente em torno da relação das chamadas "três leis" ou "três ordens de vida": Antigo Testamento – Novo Testamento – Corão.

Aqui, nesta palestra, não desejo tratar disso, apenas tocar num ponto marginal da construção do diálogo, que, em relação ao tema fé e razão, me fascinou e que serve de ponto de partida para minhas reflexões sobre este tema.

Na sétima parte das conversações (Controversas), editada pelo professor Khoury, o imperador aborda o tema do jihad, da guerra santa. O imperador sabia, certamente, que na sura [capitulo do Corão] 2, 256 está escrito: Nenhuma coação em coisas da religião – trata-se de uma das mais antigas suras, como os peritos nos dizem, da época em que o próprio Maomé ainda era impotente e ameaçado.

Mas o imperador naturalmente conhecia também a determinação escrita no Corão – surgida mais tarde – sobre a guerra santa. Sem entrar em detalhes, como o tratamento diferenciado de "detentores da escrita" e "incrédulos", ele se dirige de forma brusca ao seu interlocutor, surpreendentemente brusca para nós, simplesmente com a questão central da relação entre religião e violência: "Mostre-me então, o que Maomé trouxe de novo, e ali só encontrarás coisas más e desumanas, como esta, de que ele determinou, que se propague através da espada a fé que ele prega".

Após ter atacado deste jeito, o imperador argumenta, então, pormenorizadamente, por que a propagação da fé através da violência é absurda. Ela está em contradição com a essência de Deus e da alma. "Deus não tem prazer no sangue", diz ele, "e agir de forma irracional contraria a essência de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Quem, portanto, pretende conduzir alguém à fé, precisa da habilidade do bom discurso e de um raciocínio correto, mas não de violência e ameaça... Para convencer uma alma sensata, necessita-se não de seu braço, não de instrumentos de agressão nem de outros meios pelos quais se pode ameaçar alguém de morte ..."

Parece não sobrar dúvidas a trazida da frase "Mostre-me então, o que Maomé trouxe de novo, e ali só encontrarás coisas más e desumanas, como esta, de que ele determinou, que se propague, através da espada, a fé que ele prega" do douto imperador bizantino Manuel 2º Paleólogo, é realmente eivada de preconceitos. Aliás, o Papa ao fazer a citação reconhece que a citação é brusca, isso é, grosseira.

Há quem diga que a infeliz e inadequada citação do Papa há de servir para que os islâmicos mostrem ao mundo que não aprovam a Jidah (=Guerra Santa), Oxalá! E, eu permito-me traduzir essa interjeição: Assim, queira Alá.

As revoltas e a indignação desencadeadas de Regensburg também serviram para mostrar o quanto, o outro lado também abençoou guerras santas, antes da observação de Manuel 2º Paleólogo. Trago apenas uma amostra. Papa Urbano II (papa de 1088 a 1099), em 1096, no Concílio de Clermont, assim conclamou e abençoou os francos no desencadeamento da 1ª Cruzada:

[...] Ó Francos, a quem, pois, deve ser dirigida a tarefa de vingança tão santa quanto a espada de São Miguel? A quem Nosso Senhor poderia confiar tal tarefa senão aos seus mais abençoados e fiéis filhos? Ó Francos, vocês não são habilidosos cavaleiros? Poderosos guerreiros na palavra de Deus? Próximos a São Miguel na habilidade de expurgar o mal pela espada? Dêem um passo a frente! Não mais levantarão as espadas entre si, ceifando vidas e pecando contra a palavra. Aproximem-se guerreiros abençoados. Os que dentre vocês roubaram tornem-se agora soldados, pois a causa é suprema. Aqueles que cultivam mágoas juntem-se aos seus causadores, pois a irmandade é essencial ao objetivo. Aproximem-se os que desejam vida eterna, aproximem-se os que desejam absolvição no sagrado. Saibam que Nosso Senhor espera seus filhos em lugar abençoado. Na palavra do Santíssimo seguirão e combaterão, não deixem que obstáculos os parem, creiam na palavra e nada os deterá. Deixem todas as controvérsias para trás! Unam-se e acreditem! Não permitam que posses ou família os detenham. Lembrem-se das palavras de Nosso Salvador, “Aquele que abandonar sua morada, família, riqueza, títulos, pai ou mãe pelo meu nome, receberá mil vezes mais e herdará a vida eterna”. Se os Macabeus dos tempos de outrora conquistaram glória pela sua luta de fé, da mesma forma a chance é ofertada a vocês. Resgatem a Cruz, o Sangue e a Tumba. Resgatem o Gólgota e santifiquem o local. [...] Francos! A Palestina é lugar de leite e mel fluindo, território precioso aos olhos de Deus. Um lugar a ser conquistado e mantido apenas pela fé. Pois chamamos por suas espadas! Lutem contra a amaldiçoada raça que avilta a terra sagrada, Jerusalém, fértil acima de todas outras. Glorifiquem suas peregrinações para o centro do mundo, consagrem-se em Sua paixão! Alcancem a redenção pela Sua morte! Glorificado pelo Seu túmulo! O caminho será longo, a fé no Onipotente tornar-lhe-á possível e frutífera. Não temam Francos! Não temam tortura, pois nela reside a glória do martírio! Não temam a morte, pois nela reside a vida eterna! Não temam dor, pois serão resignados! Os anjos apresentarão suas almas a Deus, o Santíssimo será glorificado pelos atos de seus filhos! Vejam a sua frente aquele que é voz de Nosso Senhor! Sigam Sua presença e palavras eternas! Marchem certos da expiação de seus pecados, na certeza da glória imortal. Deixem as hordas do Cristo Rei se atracar com o inimigo! Os anjos cantarão suas vitórias! Que os conhecedores Da palavra entrem em Jerusalém portando o estandarte de Nosso Senhor e salvador! Que o símbolo da fé seja mostrado em vermelho sobre o imaculado branco, pureza e sofrimento expressados! E que Sua palavra se faça ouvida como retumbante trovão, trazendo medo e luz para os infiéis! Que agora o exército do Deus único grite em glória sobre os Seus inimigos!”

Mas anunciara que comentaria algo de Ratisbona e já gastei muita missa com o Papa, que entre outras – mesmo que a um preço caríssimo – nos fez ir a dicionários para ver qual era a especialização de Manuel 2º, que determinava o epíteto, de ‘paleólogo’ após o nome. Certamente era um erudito em coisas (línguas) antigas. Queria, como encerramento, trazer algo da história de Ratisbona e o faço em homenagem aos de fé judaica, até porque escrevo na aurora do novo ano de 5767.

Ratisbona ou Regensburgo é uma das cidades mais antigas da Alemanha. É também uma das poucas cidades da Alemanha que foram ocupadas pelo romanos. A história documentada de começa com a construção de um castelo para uma coorte (um décimo de uma legião romana) em cerca de 79 da era cristã, após séculos em que esta zona foi povoada por tribos celtas e que chamavam à zona "Ratasbona" ou "Ratisbona". No ano 179, o imperador Marco Aurélio fez da cidade um ponto forte militar da província de Raetia, mandando construir um acampamento de legionários chamado "Castra Regina".

Ratisbona é um dos bispados mais antigos da Alemanha, já existente mesmo antes de 739, ano em que Bonifácio a colocou sobre jurisdição do direito canônico e como tal, dependente de Roma. Regensburgo tornou-se protestante em 1542, porém manteve-se sempre um bispado católico, mesmo que por vezes administrada por outros bispados.

Atualmente, a cidade tem cerca de 150 000 habitantes, a quarta maior cidade da Baviera, depois de Nunique, Nuremberg e Augsburgo. A cidade é sede de um bispado da diocese católica de Regensburgo. A maioria da população é católica, como é usual na Baviera.

Depois de panorama histórico-geográfico, trago algo menos conhecido de Ratisbona. Aquelas e aqueles de fé judaica têm uma ligação muito forte com Ratisbona. É na olhada de um pequeno excerto desta história que faço minha evocação do Rosh Hashaná.

A comunidade judaica de Ratisbona aparece referenciada pala primeira vez num documento oficial de 981, sendo certo que ela já existia pelo menos desde o século 8º. Nos séculos 11 e 12, a escola talmúdica de Regensburg era um centro de culto judaico muito importante. A partir do século 11, a relação entre judeus e cristãos degradou-se. Em 1096, os judeus de Ratisbona foram obrigados a aceitar o batismo. No entanto, um ano depois, o Imperador Heinrich 4º autorizou o regresso dos convertidos ao judaísmo.

No século 15, como em muitas outras cidades européias, a propaganda anti-semita voltou a crescer. Os judeus eram acusados do roubo de hóstias e de praticarem rituais macabros em que crianças cristãs eram assassinadas. Se dizia que as celebrações do shabath eram cultos ao demônio. Os de fé judaica foram tidos como inimigos da crença cristã, sendo discriminados e deportados. Em Regensburg, isso aconteceu com brutalidade em fevereiro de 1519.

Em 1519 foram expulsos os judeus da cidade, (cerca de quinhentos), tendo assim sido destruída uma das comunidades judaicas mais antigas da Alemanha. A expulsão só foi possível porque Maximiliano 1º faleceu no dia de ano novo de 1519, sem deixar estipulado quem seria o seu sucessor. No tempo que foi necessário a Carlos 4º para se tornar rei alemão e depois imperador, os habitantes cristãos de Regensburgo tiveram a oportunidade de expulsar os seus concidadãos judeus.

Na perseguição aos judeus de Regensburg em 1519, um episódio ilustra bem o fanatismo anti-semita daqueles tempos, chegando as raias do absurdo: na destruição da sinagoga de Regensburg, em 1519, um pedreiro cristão feriu-se com gravidade. Passados alguns dias, porém, este homem foi tido curado. Imediatamente esta cura foi tida por um milagre, atribuído à Virgem Maria. Foi construída uma igreja no local, a Capela de Maria, que passou a ser centro de peregrinação, devido ao suposto milagre. Pouco interessou aos peregrinos que o fiel pedreiro anti-semita tivesse falecido no mesmo ano de 1519, vítima dos ferimentos e que a sua suposta cura foi apenas temporária. O mito de um milagre prevaleceu e a peregrinação subsistiu. Com a construção de uma igreja no local, ainda antes do reinado do novo imperador, tornava-se consumada e irreversível a expulsão dos judeus da cidade.

Inicialmente, na sua pressa, os cristãos de Regensburg construíram apenas uma capela de madeira. Já em 1521, ela foi substituída por uma construção de pedra. Entre 1519 e 1522, Regensburg foi um dos maiores centros de peregrinação do seu tempo na Europa Central, mobilizado por esse pseudo-milagre.

Mesmo que tivéssemos falado de tristezas e de ódios, foi bom -- muito ajudado pela Wikepédia -- falar de Ratisbona, tão presente ontem e hoje na História dos (des)humanos. Que, eu e meus leitores do Caderno R, ajudemos a construir a Paz. Shalom Shana Tova.