domingo, novembro 05, 2006

Será uma questão de DNA?

Quando morre um velho é como uma biblioteca que queima


Esta é uma crônica na qual mais uma vez dou azo ao meu lado intimista. Ela se faz em uma celebração que divido com cada uma e cada um dos meus leitores do Caderno R. Aliás, já disse que talvez exagere – e ninguém me contestou – que avalio esse universo de leitores em meia dúzia.
Primeiro a decodificação da sigla do título. Mesmo que tenha falado em decodificar, não estou às voltas com código genético ou com o ácido desoxiribonuclêico e também não vou falar – já que há poucas semanas vivemos o período do anúncio dos laureados com o Nobel de 2006 – nas injustiças que houve em não ter sido atribuído o Prêmio Nobel pela descoberta da estrutura da dupla hélice do DNA a Rosalind Franklin, que foi decisiva na descoberta em 1953, que 9 anos de depois (1962) premiou Francis Crick, James Watson e Maurice H.F. Wilkins.
Aliás, lateralmente devo dizer que minha tese de que a Ciência é masculina exposta em um livro
[1] foi uma vez mais ratificada nas láureas com Nobel em 2006. Esse ano não apenas a Ciência apareceu como masculina. Os prêmios de Ciências – Física, Medicina e Química – foram respectivamente para dois, dois e um estadunidenses. A esses cinco homens junte-se: um estadunidense que ganhou o Nobel de Economia; um turco, o de Literatura; e um indiano, o da Paz e temos, em 2006, nove homens laureados e nenhuma mulher. Já houve agora 515 láureas nos três Prêmios Nobel de Ciências, mantendo-se as mulheres com doze (duas em Física, três em Química e sete em Medicina ou Fisiologia). Destas doze mulheres laureadas, apenas duas ganharam o prêmio sozinhas: em 1911 Maria Curie ganhou o de Química (que já havia ganho junto com Pierre Curie e Henri Becquerel, em 1903 o de Física) e em 1983, a geneticista estadunidense Barbara McClintock foi laureada com o de Medicina.
Permitam-me, ainda antes de decodificar o DNA do título desta crônica, fazer um preito de admiração e reconhecimento à Rosalind Elsie Franklin (1920-1958). Ela é chamada a dama sombria do DNA. Rosalind morreu aos 37 anos, de câncer de ovário, 4 anos antes de em 1962, ser outorgado o Prêmio Nobel de Medicina ao britânico, Francis Harry C. Crick, ao estadunidense James D. Watson e ao neozelandês, Maurice H.F. Wilkins. Há os que afirmam que foi injustamente esquecida, não apenas na premiação como nas usuais referências à descoberta do DNA. Rosalind Franklin, uma pesquisadora britânica, contribuiu significativamente para a elucidação da estrutura do DNA, pois foi com a fotografia que ela obtivera com raios X, que permitiu que Watson e Crick tivessem o lampejo para desvendar a dupla hélice. A imagem foi mostrada a eles por Wilkins, sem o consentimento de Rosalind. Usualmente os dois nomes que são lembrados, quando se refere à determinação da estrutura do DNA são os de Crick e Watson. Wilkins era, como Rosalind, especialista em cristalografia por raios X. Watson em matérias publicadas em 2003, quando do cinqüentenário da do DNA é apresentado também por seu conhecido machismo e por sua verve polêmica pouco correta politicamente o que nos leva a inferir o quanto, então, não poupasse esforços para tirar uma mulher do cenário dos vencedores. É importante que refira aqui, que nunca houve, pois isso é das normas, uma outorga póstuma.
Finalmente o que é o DNA do título deste texto? Perdoem a brincadeira. DNA é Data de Nascimento Avançada. Ou seja, dizer que alguém tem DNA, nessa acepção, é chamar alguém de velho ou se quiserem um adjetivo mais eufônico: anoso. Pois o meu DNA é 06/11/1939, isto é, posto este texto no dia do meu 67º aniversário.
Minha Universidade tem uma resolução que refuto não apenas discriminatória, mas acima de tudo burra - aqui a palavra não corresponde a nenhuma das 17 acepções registradas no Houaiss para burra, mas a forma feminina de duas das 40 acepções que o dicionário registra para burro: o que é ignorante (35) ou que é teimoso; obstinado (36) -, pois se definiu como 65 anos a idade limite para ser professor da instituição. Assim, 65 anos é a idade limite para jubilamento, ou expulsória em analogia à compulsória.
Por quê imputar tão dura adjetivação a uma resolução reitoral? Há argumentos, ou melhor, evidências que corroboram minha assertiva. Há não muito, ouvi uma entrevista de Zigmunt Bauman. Dava-me conta, ante a lucidez octogenária do filósofo polonês, atualmente professor em universidades em Leeds e em Varsóvia, que ele não poderia ser professor da UNISINOS. Também Ilya Prigogine (1917-2003), Prêmio Nobel de Química 1977, quando faleceu aos 86 anos era professor em duas universidades (uma belga e outra estadunidense). Exemplos como este se poderiam amealhar as dezenas, alguns dos quais na própria Universidade, e neste se incluiria preclaros jesuítas pertencentes à mantenedora. Eu mesmo me considero distinguido, pois recebi, ao chegar à idade de uma presumida morte acadêmica, uma sobrevida de mais três anos.
Ainda na defesa de minha adjetivação virulenta, trago o depoimento da cientista política germano-estadunidense Hanna Arendt
[2], falecida em 1975 e cujo centenário de nascimento se recordou a 14 de outubro, em um texto que escreveu para celebrar Martin Heidegger[3], que junto com seus 80 anos celebrava também o cinqüentenário de sua atividade pública como professor; ela começa citando Platão: “Pois o começo é também um deus que, enquanto permanece entre os homens, tudo salva”, para então trazer o depoimento quase dramático de Karl Jasper[4]: “E agora, que desejaria pela primeira vez realmente começar, é preciso partir” e então a distinguida filósofa acrescenta:
O eu pensante não tem idade, e, na medida em que os pensadores não existem efetivamente senão no pensar, sua felicidade e infelicidade é o se tornarem velhos sem envelhecer. Com a paixão do pensar ocorre o mesmo que acontece com as outras paixões: o que habitualmente conhecemos como particularidade própria da pessoa, cuja totalidade ordenada pela vontade produz então algo como um caráter, não resiste ao assalto da paixão que toma e, de certa forma, se poderá do homem e da pessoa ( p. 226).
Mas deixo de lado minha indignação contra a decisão que me fere também. Reconheço, todavia o quanto esse plus 3 anos com que fui premiado foi significativo, mesmo que me fizesse sentir um privilegiado em relação a outros colegas, o que não apenas me causa desconforto, mas uma justa ira. Minha data limite é fevereiro de 2008, sendo assim o próximo ano é meu ultimo ano letivo na UNISINOS. Não sou melhor do que aqueles que não tiveram o plus 3 anos. E por que outros têm até um plus maior do que três?
Aceito o meu DNA. Mas quero mostrar nesse texto que tê-lo maior que 65 não me parece o melhor critério para alijar alguém do seu emprego. Ser uma pessoa (im)produtiva não depende do DNA. Mesmo que talvez o físico conspire contra nós, até quando nem o espelho parece reconhecer isso. A situação se mostra mais ameaçadora quando vemos fotos de agora e as comparamos com aquelas de 10 anos passados.
Eis um desmentido a minha percepção de não me julgar anoso, mesmo que outros o façam. Nos dias que pensava sobre esse texto, ao tomar o elevador, na Universidade, uma moça, que entrou junto comigo perguntou pelo meu andar e ante minha menção o marcou no painel. Agradeci sua gentileza. A trintinha me disse toda gabola: “O meu trabalho de mestrado é sobre ajuda ao idoso!”. Fiquei estupefato. E perguntei o porquê dessa observação? Ela então, do jeito mais sem graça possível, desculpou-se. Sem graça fiquei mesmo eu, com a observação me martelando. Machucou-me, sinceramente, sim. Ela talvez nem se lembre mais.
Ter DNA não é muito trivial em nossa sociedade. Em outras culturas isso é uma distinção. A propósito lembro de uma historieta, que me foi contada pelo meu colega Nélio Bizzo, quando me levava para o aeroporto, após participar de uma banca de um orientado dele na USP e atribuída a uma cultura africana. Em barco que soçobra está um jovem pai, com seu filho de cinco anos e seu pai, já de idade avançada. Ele tem condição de a nado salvar apenas um: ou o filho ou o pai. Trágica opção. Imaginemos, um de nós frente essa escolha. Para aquele jovem pai não havia indecisão. Era natural para ele e para todo a comunidade que ele salvasse o seu pai, pois era ele que detinha o conhecimento que poderia ser útil à vida de todos e esse não poderia ser perdido. Essa decisão tem a ver com a frase que fiz capitular desse texto. Tenho usado a mesma como justificativa a uma atividade acadêmica de resgates de saberes populares. E, então é muito impressionante o quanto os jovens se seduzem com a sabedoria dos mais velhos.
Lembro sempre de uma passagem muito conhecida de José Hernandez no Martim Fierro, o épico gauchesco, onde o velho Vizcacha, ladino como animal que lhe empresta o nome, que ao dar conselhos ao filho de Fierro diz algo que sempre cito, para justificar porque me arvoro no direito de dizer certas coisas. "El primer cuidao del hombre es defender el pellejo; lleváte de mi consejo, fijáte bien en lo que hablo: el diablo sabe por diablo, pero más sabe por viejo."
[5],[6] ou, simplesmente: “O diabo tem mais de diabo por ser velho do que por ser diabo.” Chamamos isso de a voz da experiência. São sabidas nossas dificuldades em consultar um médico ou advogado mais jovem. Todavia, poucos aceitariam que uma pessoa, já mais anosa, viesse, por exemplo, viesse solucionar problemas em nosso computador. Somos exigentes, usando parâmetros nem sempre muito consistentes. No começo desse ano, minha mulher e eu fomos recebidos em uma cantina, na linda região do vale dos vinhedos do Rio Grande do Sul, por uma menina de 12 anos, que nos deu verdadeiras aulas acerca de diferentes varietais, seu cultivo e como se cuida da qualidade, ao invés da quantidade de frutos. Explicou-nos das etapas do plantio e seleção das espécies que serviriam de cavalo e daquelas que seriam enxertos. Falou os tipos de enxertia e discorreu acerca das armações para sustentação, mostrando porque do uso vertical e horizontal. Sabia identificar características do solo por análise macroscópica da terra. Isso poderia ser algo heterodoxo, quando ali estavam aprendendo dois pós-doutores com uma coloninha que está na sexta série do ensino fundamental.
Mas o que é ter DNA? Não quero ver em minha defesa, na análise de minha situação pessoal. Hoje sou mais produtivo que quando tinha 50 anos e muito mais do que aos 30 anos. Certamente tenho menos força física hoje – não confundir com resistência – mas a Universidade não me contrata para carregar livros, mas talvez para produzi-los e isso, depois que completei sessenta anos, fiz e faço mais que antes, até porque agora durmo bem menos e especialmente porque tenho muito mais experiência acumulada. Não vou descrever aqui minha produção, mas a tenho como muito significativa. Só para dar um exemplo, nesse mês de meu aniversário – além de minha rotina de professor na Graduação e pós Graduação na UNISINOS, onde oriento três mestrandos e três doutorandos – tenho sete falas em cinco Universidades diferentes e em mais duas cidades de Santa Catarina.
Poderia referir que nesse ano de 2006 entreguei a uma editora o livro Uma brecha entre o passado e o futuro, mantenho esta coluna semanal aqui no Caderno R, escrevo resenhas no £eia £ivro, respondo a consulta de professoras e professores no sítio amaivos.com.br, atualizo diariamente meu blog e brinco de adolescer no orkut onde colegas da Bahia fundaram uma comunidade ligada a meu trabalho com História da Ciência. Ah! penso que sou também esposo, pai e avô que não possa ser considerado omisso. Assim nessa adição de mais um ano em minha idade, devo dizer que salvo alguns preconceitos, 67 anos ainda não me pesam. E é muito bom celebrá-los com as leitoras e os leitores do Caderno R.
[1] CHASSOT, Attico A Ciência é masculina? E, sim senhora! São Leopoldo: Editora UNISINOS. (2ª.ed 2006) 2003]
[2] ARENDT, Hanna. Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. ISBN 85-7110-873-0
[3] HEIDEGER, Martin (1889-1976) um alemão que foi um dos mais importantes filósofos do século 20. O envolvimento com o nazismo, ainda que possa ser considerado superficial fez com que após a ocupação da Alemanha em 1945 pelos Aliados fosse afastado da Universidade. Autorizado a retornar, voltou a lecionar em 1952.
[4] JASPER, Karl (1883-1969) filósofo alemão cuja obra se inspira em Kierkegaard (Sören Aabye Kierkegaard {1813-1955} dinamarquês precursor do existencialismo contemporâneo) chega a filosofia através da psiquiatria, já em 1913 em sua primeira obra Psicopatologia geral, estuda as perturbações da relação do homem com o mundo.
[5] O primeiro cuidado do homem é defender a pele; usa de meu conselho. Presta bem atenção no que falo: o diabo sabe por diabo, porém mais sabe por velho.
[6] HERNÁNDEZ, José. Martín Fierro. Buenos Aires: El Ateneo, 1999, p.181

terça-feira, outubro 31, 2006

HÁ QUE SEMEAR LIVROS A MANCHEIAS

Em uma reunião de trabalho na Universidade, usei lateralmente a expressãoEla dissemina...’ e imediatamente recebi o protesto de uma muito competente (e não radical) lingüista. Argumentava: Se semente é o resultado da fecundação do óvulo pelo sêmen, a inseminação, a disseminação, a semeadura são ações masculinas que envolvem colocação do esperma. Logo não parece correto referirEla dissemina...’ podendo todavia dizerEle dissemina...’. Parece quase certo que essa observação não deve ter a adesão nem dos lingüistas mais ortodoxos. Penso queexagero. Há um tempo referir-se a um homem como histérico, podia ser objeto de uma vaia, até porque se acreditava quea histeria era uma doença nervosa que, supostamente, se originava no útero, caracterizada por convulsõeshoje a psicanálise define a histeria comoneurose na qual as moções pulsionais sofrem especialmente recalque e são inconscientemente traduzidas em sintomas corporais” e a psiquiatria comoneurose que se exprime por manifestações de ordem corporal, sem que haja qualquer problema orgânico funcionalHoje se fala até em histeria coletiva e, certamente, nesse universotambém homens.

Mas trago esse preâmbulo sem me ater à discussões epistemológicas, pois queria falar de uma outra semeadura. Não vou discutir as sementes que não são sementes. Hoje quero falar de disseminar livros, ou como pregava Monteiro Lobato ‘há que semear livros a mancheias”. Linda essa metáfora lobatiana de semear livros. E essas sementes são do tipo crioulas ou caipiras, logo fecundas. Não são daquelas híbridas que a biopirataria torna estéril em uma segunda geração e que foram objeto de comentários aqui, na minha segunda crônica nesse Caderno R.

Quero falar de um seminário – e vou de novo a etimologia de semente e aqui seminário é “canteiro onde se semeiam vegetais que depois serão transplantados’ – que faz semeadura de livros. Refiro-me ao £eia £ivro www.leialivro.sp.gov.br onde eu e muitos outros homens e mulheres buscamos divulgar o livro. Vou contar um pouco de minha presença nesse sítio.

Este texto foi originalmente produzido para celebrar, nesse mês de outubro, a publicação de minha qüinquagésima resenha no £eia £ivro. Retomo-o aqui para com a mirada na minha história ali, trazer às leitores e aos leitores do Caderno R a divulgação de um excelente local para muito boas busca de livros.

www Na noite de 8 de agosto de 2004, recebi de José Luiz Goldfarb uma destas mensagens que usualmente vão para a lixeira sem ler. Salvou-a conhecer o remetente, meu colega de lides na História da Ciência:

O site www.leialivro.com.br lançou uma nova promoção: o Clube do Leitor. Agora você pode ganhar livros novos publicando as suas sugestões de leitura no site. Funciona assim: você envia uma resenha pelo Leia Livro e se o seu texto render um boletim na Rádio Cultura, nós te mandamos um livro novo. Todas as semanas, a Rádio Cultura transmite sete novos boletins com sugestões dos participantes do Leia Livro.

Não esperei novo estímulo. Fiz uma resenha de Niketche: uma historia de poligamia que recém lera. O lindo romance de uma escritora moçambicana, Paulina Chiziane - uma negra de origem humilde, nascida em 1955 - foi minha resenha de estréia no £eia £ivro e comecei sorte. No dia seguinte recebi esta mensagem:

Olá! Meu nome é Fernanda e sou editora do site Leia Livro, o qual recebeu sua resenha. Sua dica foi escolhida para se tornar um boletim na rádio Cultura.

Nos 10 meses seguintes publiquei mais 32 resenhas, destas 20 se converteram em Boletins na Radio Cultura e algumas me renderam bons livros. [Três delas: a 13,15 e 16 foram publicadas com outra autoria]. Em maio de 2005, por razões que não merecem vir a publico, o namoro foi esfriando. Mas sempre havia uma pontinha de saudade. Treze meses depois, em junho de 2006, voltei. Cheguei mais tímido, mas as 18 resenhas produzidas nesses quatro meses, após o retorno, dão conta que o romance com o sítio volta ter a garra do início.

Destas 50 resenha 27 foram de livros de ficção, 22 não-ficção e uma infantil. Procuro alternar ficção e não ficção, mesmo sabendo o quanto, às vezes, essa diferença é tênue. Agora são 25 aquelas transformadas em Boletins na Rádio Cultura. É também muito bom, em mais de uma oportunidade, ter escutado colegas paulistas dizer que ouviram resenhas minhas radiofonizadas e aceitaram a sugestão de leituras. Continuo também amealhando livros supimpas com esse gostoso resenhar.

Por que escrevo resenhas? Gosto de ler e tenho uma imensa vontade de repartir meus prazeres para outros e isso é muito facilitado por um sítio como o £eia £ivro, pois esse é o local daqueles que gostam de curtir livrarias. Aliás, aqui parece que estamos em uma livraria cercado de apaixonados leitores. A resenha é um excelente facilitador de acesso ao livro. Fui editor de três revistas científicas onde privilegiava espaço para resenhas. Sempre estimulo meus orientandos a escrever resenhas, que com objetivos diferentes daqueles do £eia £ivro. Como editor coloco uma exigência a um resenhista: o leitor de uma resenha deve ser (des)entusiasmado a ler o livro. Numa resenha em uma revista acadêmica, os textos são de 5 a 10 páginas, em geral críticos ou até polêmicos. Aqui neste sítio as alternativas são sempre de recomendação. Tenho livros que me apeteceria desrecomendar, mas contradiz o próprio nome imperativo do sítio: £eia £ivro.

Quando havia escrito 19 resenhas aqui, quando encontrei uma maneira de violar essa necessidade de recomendar. Resolvi fazer algo diferente. No último dia 29 de novembro de 2004 postei o textoUma literatura asquerosapara a sessãoVocê é o autor” fazendo minha estréia nela. Com aparente menor visibilidade que as outras sessões o texto teve uma grande ressonância tendo sido enviado em lista para vários pontos do Brasil e para o exterior.

Com ele, não pretendia desencadear uma cruzada contra Gabriel García Márquez, nem fazendo patrulhamento do politicamente correto e muito menos pedindo a volta do "Index Librorum Prohibitorum" mas estava fazendo um chamamento para o quanto devemos estar atentos quando lemos acerca do quanto as leituras também a constituem nossa maneira de ver o mundo.

Então escrevia: “Há um livro, ainda não está traduzido para o português, mas que muito em breve chegará ao Brasil com aparatosa publicidade. Trata-se de ‘Memoria de mis putas tristes’. A edição que li traz uma cinta, com a informaçãoLançamento mundial em língua espanhola com 1.000.000 de exemplares’ e festeja a primeira novela de Gabriel García Márquez depois de 10 anos. Sim, um milhão de exemplares de uma novelinha curta de cerca de 100 páginas, sem nenhuma economia de espaços em branco, que certamente dará muito dinheiro ao nosso Nobel latino-americano e a seus editores”.

Um pouco adiante interrogava: “Uma linda história de amor? Talvez, até possamos nos seduzir pelo texto escrito com inegável lirismo... ou, é a exaltação literária de uma dolorosa mácula de nossa sociedade, onde uma menina virgem é preparada para ser objeto negociável para a perpetração (ou exemplificação) de mais uma violência contra mulheres indefesas?”

Encerrei assim minha anti-resenha: “Aqui, não ouso contradizer o nome deste tão importante sítio que faz semeaduras de livros, nem vou lançar uma cruzada nacional contra García Márquez, mas, com o mesmo empenho em que tenho dito em diferentes momentos ‘Leia Livro’ permito-me, aqui e agora, dizer que leiamos atentos acerca do quanto estas leituras também a constituem nossa maneira de ver o mundo”. Meses depois o livro foi traduzido para o português. Continua na lista dos mais vendidos.

A propósito da sessãoVocê é o autorem 30 de junho desse ano, usei-a com um propósito bem diverso. Com o textoNaquele tempo existia um homem. Ele existiu e existe, pois narramos sua história.” Parti da evocação de Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores vivo, escreveu um livro (Pessoas extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz. São Paulo: Paz e Terra, 1998) acerca de pessoas cujos nomes são conhecidos apenas pelos parentes e pelos vizinhos. Narrei, então, acerca de uma pessoa que também é extraordinária. Então contei que nos dias 7, 8 e 9 de julho, quase meia centena de pessoas se reuniria para celebrar o centenário de nascimento de Affonso Oscar Chassot, meu pai. Encerei o texto assim: Um de seus filhos lhe dedicou um livro que traz um ofertório, que certamente seria subscrito não apenas por seus descendentes e lhe evocam histórias, mas por aquelas e aqueles que o conheceram e talvez por alguns dos leitores deste texto. “Para Afonso Oscar Chassot (1906-1987), meu pai, que, mesmo nunca tendo visto seu nome impresso em um livro ou jornal, muito me ensinou: a gostar de ouvir notícias, instrumental importante para conhecer e entender a história, e a vibrar com a profissão, marceneiro hábil que era, trabalhando a madeira com amor. Para ele, este livro e estes versos, adaptados da poeta Hannah Szenes (1921-1944): Bendito o fósforo que ardeu e acendeu a fogueira! // Bendita a labareda que ardeu no âmago do coração! // Bendito o coração que soube parar com honra!" Vale dizer que além de onze ‘comente o texto’, recebi emocionadas mensagens.

Ainda na sessãoVocê é o autor”, aproveitando o ambiente futebolístico que envolvia o Brasil em busca do hexacampeonato, publiquei em 06 de junho uma historieta de amor, evocando a final da copa do mundo de 1962. Tive com ela alguns estimulantes retornos.

Talvez falte responder uma pergunta: quando escrevo as resenhas. Como podem ter visto fiz de ser resenhista um hobby. Usualmente não tenho muito tempo. Sou professor em tempo integral em um Programa de Pós-Graduação em Educação onde oriento mestrandos e doutorandos. Dou aulas na pós-graduação e na graduação que me exigem bastante preparo. Tenho também viagens profissionais a diferentes estados do Brasil em cursos e conferências. Respondo perguntas de professoras e professores acerca do ensino de Ciências no sítio ‘amaivos.com.br’. Tenho esta coluna semanal aqui no Caderno R do Jornal O Rebate. Estou ativamente no orkut, pois um grupo de professoras e professores da Bahia, fundou uma comunidade ligada ao meu trabalho com História da Ciência.

Comento isso para mostrar o quanto preciso achar tempo para escrever. Também preciso dizer que escrevo diários, numa prática que envolve um gostoso adolescer. Desde 1986 tenho para cada ano um volume, sem faltar o registro de um dia, escrevi até em salas de recuperação pós-operatória. Acerca da arte de escrever diários, escrevi um texto acadêmico, que apresentei em uma discussão mais ampla em um evento internacional dentro da temática colecionismo. Mais recentemente escrevo diariamente no meu blog http://achassot.blog.uol.com.br/ que surpreendentemente é bem visitado.

Uma das realidades que me encanta está no binômio lerD escrever. Estou, com muita freqüência, gestando textos. Brinco que não uso um laptop, mas um lapkopf. Aqui a alusão é a kopf, “cabeçaem alemão. No meu lapkopf estou, muito usualmente, produzindo textos, preparando aulas ou estabelecendo seqüências para uma palestra. Os textos são lançados no receptivo disco não tão rígido do cérebro nas vigílias de um chamar o sono, ou em insones madrugadas, ou ainda em embalos nem tão ritmados do ônibus no ir e vir para / da Universidade. Há períodos de fertilidade, mastempos em que a imagem do solo crestado é uma metáfora adequada para a esterilidade intelectual. Há momentos, ou porque a idéia parece imperdível ou porque não se confia na memória, em que o primeiro papel que se encontra recebe algumas palavras que serão chave para composições futuras. Quanta nota de compra ou verso de passagem de ônibus se transformou em portadora de senha preciosa para comandar, depois, teclares produtivos!

Logo, escrever uma resenha para o £eia £ivro se constitui, antes de qualquer coisa, em algo prazeroso. Assim, quando estou lendo livro estou pensando naquilo que gostaria de chamar atenção aos outros. Logo não é por acaso que as minhas 50 resenhas se dividam quase paritariamente entre ficção e não ficção, até porque algumas das resenhas do £eia £ivro estão nos alertas de ‘para saber mais presentes em minhas aulas. Assim, depois de algumas horas de trabalho, por exemplo, fazendo uma, às vezes, tediosa revisão de uma dissertação ou pesquisando para um seminário que tenha que dar, me premio com um tempo para me por a resenhar. Isso tem um dulçor quase erótico.

Quero registrar que tive satisfações pessoais por resenhar no £eia £ivro. Um autor premiado escreveu-me dizendo que lera minha resenha acerca de seuA margem imóvel do rio e não a agradecia, mas pedia para juntá-la em sua página pessoal. Recuperei o contato com outra autora, quando ao ler resenhaO preço da leitura’ escreveu recordando dos tempos que fora minha aluna. Resenhei ‘Uma história social do conhecimento tendo encontrado Peter Burke em um evento referi-lhe a resenha e a enviei a Cambridge. Uma delas ‘O brilho da Lua os editores do sítio encaminharam para publicação em ‘Discutindo Literatura’ [v. 5, p. 64 - 64, 01 ago. 2005] a revista que circula em suporte papel. que citei algumas de minhas resenhas, deixe-me contar aquela que mais me deu alegria em fazer, talvez porque tenha envolvido nela minha mulher. disse que tenho um sonho de ir ao cinema com a ‘Moça com brinco de pérolapara conhecer Delft.

Tenho orgulho muito especial, pois de pelo menos um de competentes e produtivos resenhistas deste sítio foi seduzido ao por mim. do Rio Grande do Norte Nelson Marques faz parceria comigo aqui no Rio Grande do Sul na disseminação do amor aos livros.

Por um capricho dos deuses que cuidam de nossas agendas, preparo ‘Uma rapsódia por uma resenha jubilar assistindo peloPortal da ABL” a posse do bibliófilo José Mindlin, na Cadeira nº 29 da ABL. Ele começa pedindo desculpas por não trazer um texto escrito, pois está com problemas de visão, mas promete aos presentes o texto ao final. Também faz reverente homenagem à sua esposa Gita Mindlin, recém falecida. Não posso deixar de recordar, quandoum ano ele assistiu uma fala minha acerca de diários como forma de colecionismo e deixou um autógrafo no meu diário, na data de 31AGO05. Vale agora receber a aula do consagrado bibliófilo. E, também por isso esse registro aqui, soube dessa transmissão e mesmo do portal da ABL pelo £eia £ivro.

Por fim, na celebração de minha 50ª resenha auguro vida longa ao £eia £ivro e cada uma e cada um de seus leitores. A minha gratidão ao Juliano, à Izabel, à Josiane, à Bel – recordo também o Leandro, a Fernanda, a Juliana parceiros de outros tempos – e seus muito competentes colegas pela maneira dedicada como mantêm o £eia £ivro. É muito bom que vocês existam. Obrigado, também por isso. vvv

Esse foi o que publiquei na £eia £ivro como “Uma rapsódia para uma resenha jubilar”. O texto recebeu alguns comentários. Reparto com as leitoras e os leitores do Caderno R um de Luciana Fátima. Ela escreveu: “Puxa! Que texto emocionante...! Se todas as pessoas tivessem ao menos uma centelha desse amor à literatura, o mundo talvez fosse um pouquinho melhor!!” Isso valeu a rapsódia.

terça-feira, outubro 24, 2006

Ratos gostam de Queijo

Ratos gostam de queijo
Há duas semanas, escrevi aqui no Caderno R uma crônica com título antípoda a de agora: “Ratos não gostam de queijo”. Trazer, agora, um assunto antíctone – numa linguagem dicionarizada, nada simpática – não significa que eu tenha mudado de opinião ou que outros cientistas tenham ratificado aquilo que era antes ‘a Verdade’ universalmente aceita. Também não significa que vá, examinar o outro lado da moeda. A partir de prosaica notícia demolidora de algo que, desde nossa infância, aprendemos ser objeto de desejo dos ratos (se é que eles têm desejos), discuti, então, tendo parceria de Feyerabend e de Kuhn o quanto há verdades científicas que aprendemos e até ensinamos e depois tivemos / temos que abandonar. Comentou-se, então, o quanto as verdades são provisórias: que hoje é tido como certo, amanhã pode não ser. Falei então da mudança de paradigmas; estes mostrados por Kuhn como modelos para fazermos descrições do mundo natural. As grandes revoluções científicas (a copernicana, a lavosierana, a darwiniana) foram trazidas como exemplos. Talvez se pudesse, uma vez mais, recordar acerca da importância de aprendermos a trabalhar com a incerteza, quando é oportuno ter presente Ilya Prigogine (1917-2003) – Prêmio Nobel de Química: “Só tenho uma certeza: as minhas incertezas!”!
Hoje a proposta é considerar o quanto a difusão de certos mitos podem lhes dar cientificidade. Isso posto, parece importante discutir a quem interessa a sedimentação de um mito. Assim, não é relevante discutir (ou até saber) se ratos gostam ou não de queijo, mas sim, reconhecer a quem interessa a ratificação de um mito. Aliás, minha frase teria um simbólico duplo significado se a escrevesse: ‘reconhecer a quem interessa o rato de um mito’ pois rato é, também, sinônimo de ratificação.
Por exemplo, aquela série de mitos sob os quais muitos de nós fomos educados, como “Não se pode comer manga com leite!”, “Uva com melancia mata!” foram inculcados para fazer com que os servos não comessem aquilo que se tinha como propriedades dos patrões. Quantos mitos relacionados com a atividade sexual eram / são usados no sentido de determinar disciplinamento dos corpos; assim se difundia que a masturbação debilita o sangue ou que faz crescer pelo nas mãos, ou acerca da maneira de se reconhecer se uma moça ainda é virgem. Já ouvi relatos, trazidos à sala de aula, de meninas que após perderem a virgindade (aliás, talvez não haja nenhuma membrana mais mitificada que o hímen) só usavam soquetes (ou carpins), pois se dizia / diz que moça de canela grossa não é mais virgem. Quanta insônia ou até medo do fogo eterno deve ter ocorrido depois de uma salutar masturbação. Ouvi contar, por um membro de uma ordem religiosa masculina sobre a existência, em tempos não muito distantes, de uma pinça nos mictórios conventuais para evitar o toque no pênis no ato de urinar. Recordo que no Colégio Marista onde fiz o Ginásio a placa “Deus me vê” era onipresente,
Assim a persuasão de não verdades e sua conversão em verdades nada tem de inocente. Ao contrário. Escrevo esse texto nos dias (2 e 29 de outubro de 2006) que medeiam os dois turnos das eleições para Presidente e para Governadores (em alguns Estados) no Brasil. Algumas ações da mídia fazem lembrar o sucesso que teve o todo poderoso Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do Reich. Esse homem talvez possa ser considerado alguém (tristemente celebre) que melhor usou a mídia para convencimento de massas. Os motivos não importavam, desde que os objetivos fossem alcançados, até porque para ele “Se uma mentira se repete um número suficiente vezes, termina por converter-se na Verdade.”
Entre alternativas propagandistícas, o superpoderoso Goebbels usou com muito êxito o cinema. Há um filme “O judeu eterno” [Der ewige Jude // The eternal jew], produzido em 1940, que foi especialmente eficiente para difundir a acusação de quanto a natureza intrinsecamente pervertida do povo judeu, preparando a aceitação pública para a deportação em massa, o confinamento e a matança. São particularmente atacados os judeu-poloneses, para justificar a tomada da Polônia, pois é um povo feio, corrupto, perverso e preguiçoso. Disseminava-se que são estrangeiros que querem tomar o mundo, especialmente os negócios e as finanças. Outras etnias consideradas inferiores: tchecos, russos, ciganos são alvo da propaganda que busca mostrar a superioridade e a pureza da raça ariana.
Por uma infame coincidência com o título desta crônica, no filme de então, se compara o povo judeu com ratos, mostrando esses roedores como espécies abjetas dentro do mundo animal. As comparações são as mais hediondas, trazendo a analogia de judeus e ratos quanto incontrolada reprodução, saque a alimentos, furtos etc.
Aliás, o filme é a trazida de um mito de 1542. Então surgia a figura que se tornaria lendária de Ahasverus
[1], o Judeu Eterno e Errante, criada pelo pastor luterano Paulus von Eitzen, quando encontrou um vagabundo barbudo com este nome numa igreja de Hamburgo. Ahasverus veio a ser o judeu que escarneceu de Jesus no Gólgota e, conseqüentemente, teria sido condenado por Cristo moribundo a uma vida errante e sem prazer até o Dia do Juízo Final; embora isto não seja encontrado em parte alguma dos Evangelhos a figura mítica se tornou vigoroso e muito difundida.
Há relatos dessa mesma figura em narrativas do século 4º, mas a figura de Ahasverus reaparece na Europa a partir de 1228, quando um arcebispo armênio, visitando a Inglaterra, mais precisamente o convento de Saint’Albans, revelou conhecer em seu país uma testemunha viva da paixão de Cristo
[2]. Pode-se imaginar a agitação trazida à religiosidade: 12 séculos depois haver uma testemunha ocular da via-sacra. Tratava-se do judeu Ahasverus, agora convertido e batizado por Ananias – que também batizara o apóstolo Paulo – com o nome de Cartaphilus. Este é o mesmo que esmurrara o Salvador quando este, sob o peso da cruz, tombara diante de sua porta.
Há detalhes apócrifos do encontro. Jesus, humilhado, açoitado e sangrando, deteve-se um mínimo instante à sua porta no caminho ao suplício. Ahasverus parou seus afazeres – ele era um carpinteiro, que trabalhava em sua tenda [há outras versões que fazem sapateiro] chegou-se para perto Jesus e, empurrando-o, esbravejou colérico: “Vai andando! Vai logo!” O condenado apenas olhou-o e respondeu-lhe: “Eu vou e tu ficarás até a minha volta!...”. Esse mito confundia-se como se tivesse a autenticidade de um relato bíblico.
Há um poema atribuído a Castro Alves em que está descrita essa saga de Ahasverus
[3]. No folclore brasileiro se diz que o Judeu Errante aparece na Semana santa, quando das celebrações dos rituais da paixão[4]. Há também uma peça teatral “Viver” atribuída a Machado de Assis[5], onde Ahasverus surge nos fins dos tempos, quando já não resta mais nenhum homem ou mulher sobre a terra, sentado em uma rocha, medita, depois sonha, dialogando com Prometeu – aquele que fora castigado por Zeus por ter dado o fogo aos humanos – para quem sua conta história acerca do ocorrido com ele no dia da crucifixão e sua condenação por Jesus a tornar-se errante.
Muitos judeus, por determinação consentida de tal mito eram mortos, mas sempre o judeu errante terminava reaparecendo em uma outra figura. E, há os que afirmam, Ahasverus está até hoje errando pelo mundo, sem caminho certo, sem morrer, mas sem descanso, esperando e esperando pela volta do Senhor. Logo, não se surpreenda se amanhã uma testemunha ocular da via-crúcis não surgir no seu caminho. Aproveite para conhecer detalhes desse momento tão significativo em que um judeu foi crucificado, mesmo que fosse o filho de Deus.
Depois desta viajada por muitos séculos aonde vimos a astúcia na construção de um mito e como esse foi usado para eliminar milhões de seres humanos, vale olharmos mais acerca do quanto mítico se confunde com religioso. Em minha infância, quando tinha cerca de cinco anos, meus pais tiveram uma menina natimorta. Como não pode ser batizada, se dizia, com muita dor – e sei o quanto todos sofríamos – com isso que ela estava no ‘limbo’. Este é para os católicos a morada das almas que, não tendo cometido pecado mortal, estão afastadas da presença de Deus, por não haverem sido remidas do pecado original pelo batismo. Essa foi uma criação de São Gregório, no século 4º, e aperfeiçoada por Santo Tomás de Aquino, no século 13. O limbo é chamado por alguns críticos mais sarcásticos de mezzanino do inferno. Recentemente (setembro de 2006) Bento 16, fez uma espécie de "reengenharia celestial" e excluiu o conceito do limbo da teologia católica. De quanta angústia teríamos sido privados se essa invenção do limbo não tivesse sido trazida para dentro da Igreja. Certamente o bondoso Papa promoveu todas as almas que estavam no limpo aos céus.
O livro A Ciência é Masculina?
[6] mostra como os mitos se constituíram / se constituem como se fossem livros sagrados de muitos povos. Há aqueles que consideram as assim chamadas ‘revelações divinas’, como aquelas que estão, por exemplo, no Gênese (criação do mundo, dilúvio...) da Bíblia judaico-cristã como míticas. Se olharmos especialmente os relatos mitológicos gregos e como ‘se construíam’ os deuses isso fica por demais evidente. Diferentes povos têm suas cosmogonias em seus relatos fundantes.
Mas olhemos os mitos com exemplificações dos dias atuais, pois parece que a Ciência muitas vezes ‘tentou sufocar’ explicações mitológica para as cosmogonias e recordar o que ensina Roland Barthes em seu livro Mitologias
[7] ao explicar como se constrói os mitos, descreve quando se refere a saponáceos e detergentes por exemplo, quando se santificou o Omo, em seu duelo – sempre vencedor – contra a sujeira ou de como esta deve ser retirada da profundidade, até porque o sabão maravilhoso é aquele que arranca a sujeira de seus esconderijos mais secretos (p. 58). Aliás, é o semiólogo francês que diz que cada objeto do mundo pode passar de uma existência fechada, muda, a um estado oral, aberto à apropriação da sociedade, pois nenhuma lei, natural ou não, pode impedir-nos a falar das coisas (ibidem p. 131), isso é fazê-las mitos. Mostro no livro A Ciência é Masculina? que parece fácil perceber, por exemplo, o quanto o mito de Pandora – primeira mulher dada aos humanos, na mitologia grega, que deve ter marcado imaginário grego; também mesmo o relato bíblico da criação e do pecado de Eva, fortemente capturados na tradição judaico cristã, nos fizeram machista.
Como encerramento, permito-me ratificar que interessa muito menos sabermos se ratos gostam ou não de queijo. É significativo que saibamos a quem interessa que vingue uma ou outra decisão. Parece importante aceitar que existem diferentes perspectivas para olharmos o mundo natural: podemos fazê-lo com os óculos das religiões, dos mitos, da ciência, do senso comum, dos saberes populares. Assim, mesmo aceitando o heliocentrismo, podemos ter posturas geocêntricas quando mudamos a posição de nossa cadeira em uma manhã de verão para nos protegermos de exposição direta do sol. É verdade que com leituras oferecidas pela Ciência é que ficamos sabendo da periculosidade de certas radiações – não desconhecendo também que foram as agressões dos humanos que fizeram com que muitas dessas radiações chegassem até nós – e aprendemos sobre a necessidade de usarmos protetores. Veja que estamos nesse caso usando o senso comum e Ciência. Quanto aos mitos, talvez valesse recordar o dito espanhol "yo no creo em brujas pero que las hay las hay"




[1] O Google oferece mais de cem mil registro à solicitação “Ahasverus“; devo registrar que não conhecia esse nome (sabia vagamente da lenda) até redigir esse texto.
[2] A Wikipédia em língua alemã http://de.wikipedia.org/wiki/Ewiger_Jude traz um extenso detalhamentos acerca de sucessivos reaparecimentos de Ahasverus em diferentes datas (1567-1868) e locais da Europa e da América, destacando também sua presença na literatura (há pelo menos cinco romances publicados na Alemanha entre 1959-2005), nas artes e na música.
[3] [www.revista.agulha.nom.br/calve148.html]. Esse poema aparece com os mesmos créditos a Castro Alves na Wikisource, a biblioteca livre http://pt.wikisource.org/wiki/ Ahasverus_e_o_G%C3%AAnio
[4] João Ribeiro, O Folclore, p.308 in CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988 (6a. ed)
[5] www.geocities.com/brasilsefarad/viver.htm Essa mesma peça teatral aparece com os mesmos créditos a Machado de Assis na Wikisource, a biblioteca livre http://pt.wikisource.org/wiki/Viver%21
[6]CHASSOT, Attico. A Ciência é Masculina? São Leopoldo: Editora UNISINOS. (2a.ed, 2006), 2003.
[7] BARTHES, Roland, Mitologias, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001